INSUCESSO ESCOLAR

EO 2017 Educação | Fonte: Clínica Gerações
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O sucesso da aprendizagem escolar na infância e adolescência depende de vários factores tanto do próprio indivíduo como do ambiente.

Depende da saúde, do desenvolvimento psico-motor, de factores emocionais e comportamentais. Depende também das condicionantes familiares, socioeconómicas, culturais e ainda da adequação das práticas pedagógicas e do meio escolar.

Assim, o sucesso escolar vai depender da inter-relação entre as capacidades e as incapacidades do indivíduo, e o ambiente mais ou menos compensador e promotor de aprendizagens. O insucesso escolar é um problema frequente na infância e adolescência e constitui factor de risco para menor sucesso pessoal, profissional e pior integração social.

Existem várias Perturbações do Desenvolvimento Infantil envolvidas no insucesso escolar.

A Deficiência Mental leva invariavelmente, a dificuldades na aprendizagem em todas as áreas académicas pois todos os processos cognitivos verbais, não verbais e atenção estão comprometidos em menor ou maior grau. A intervenção é global, deve ser feita a inclusão educativa com um currículo escolar próprio, com maior ou menor vertente funcional, consoante as capacidades do indivíduo.

As Perturbações do Espectro do Autismo caracterizam-se por alterações na comunicação e interacção social e padrões de comportamentos, interesses e actividades repetitivos, restritos e estereotipados. As dificuldades na aprendizagem escolar podem surgir por vários motivos: ligados à deficiência cognitiva e complicados pela incapacidade em imitar, associados às dificuldades de compreensão linguística e dificuldade na capacidade de comunicação. Nestas está incluído o Síndrome de Asperger, forma de autismo com capacidades de inteligência normal.

A Perturbação de Hiperactividade e Défice de Atenção (PHDA) também é causa frequente de insucesso escolar. São crianças com uma dificuldade marcada na atenção, capacidade de concentração, na organização e planeamento do trabalho. Têm também impulsividade exagerada, excesso de actividade e tornam-se perturbadoras na sala de aula. Caracterizam-se por desempenho escolar muito variável e imprevisível. A intervenção na PHDA é muitas vezes farmacológica adicionada ao treino comportamental.

As Perturbações Específicas da Aprendizagem são mais conhecidas por Dislexia, Disgrafia/Disortografia e Discalculia e levam a dificuldades na aprendizagem da leitura, escrita e cálculo.

Para se compreender porque é que as dificuldades de aprendizagem são tão frequentes, convém lembrar que a leitura é um processo não natural de evolução da linguagem e que existe apenas há cerca de 5000 anos na história da humanidade. Ou seja, existe há tão pouco tempo na história da evolução da nossa espécie que não é determinada ainda de forma filogenética. Assim, e ao contrário da linguagem falada, que é natural e que é aprendida por todos os indivíduos da espécie de forma inconsciente, a leitura é um processo artificial que tem que ser ensinado explicita e morosamente para ser aprendido e utilizado eficazmente.


A Dislexia apresenta-se habitualmente como uma dificuldade inesperada na aprendizagem da leitura e escrita, numa criança sem deficiência mental, sem problemas prévios, como dificuldades na linguagem ou na motricidade, e que é exposta a um ensino adequado.

As crianças com dislexia têm dificuldades no reconhecimento correcto e/ou fluente das palavras, diminuição da capacidade de descodificação e dificuldade na ortografia. Pode ter consequências secundárias que incluem problemas na compreensão leitora, experiência leitora reduzida, que podem impedir o crescimento do vocabulário e a aquisição de outros conhecimentos. Caracterizam-se por leitura lenta e com erros o que prejudica a compreensão. Cometem erros ortográficos e os erros típicos são os erros foneticamente ilógicos. Têm também dificuldades na elaboração escrita, sequência de ideias e vocabulário pobre. Têm dificuldade na memorização das tabuadas e na compreensão dos problemas matemáticos.

A compreensão oral (compreensão dos textos que lhes são lidos) está mantida. A intervenção deve ser sempre baseada no treino fonológico associado à reeducação da leitura com método fónico. Os métodos globais (puramente visuais, global clássico, método das 28 palavras) não têm qualquer papel eficaz na dislexia e são vivamente desaconselhados. A intervenção atempada e precoce na dislexia é crucial para a evolução e sucesso escolar.

A Depressão e a Ansiedade levam a alterações da motivação, da vigília, da memória e, sobretudo, da capacidade de concentração o que prejudica a aprendizagem escolar.

Há acontecimentos na vida das crianças e jovens que levam a alterações emocionais que por sua vez prejudicam transitoriamente o desempenho escolar. Caracterizam-se por tristeza e/ou ansiedade e/ou comportamentos disruptivos, que surgem como uma reacção a um acontecimento de vida adverso. Nestes incluem-se a morte de um familiar, acidente ou doença grave, separação dos pais, mudança de casa, mudança de escola. Estes factores afectam em maior ou menor grau o desempenho escolar. No entanto temos que ter cuidado para, ao encontramos estes factores como existentes, não nos esquecermos de pensar noutras causas coocorrentes de insucesso escolar.

Convém não esquecer que as perturbações emocionais e baixa auto-estima são frequentemente consequência à percepção de diferença, à percepção que a própria criança tem das suas dificuldades. Uma criança que não consegue aprender como os outros, passa cerca de 6 a 8 horas por dia a não ter sucesso. É natural que fique zangada, triste, ansiosa ou com mau auto-conceito. Intervém-se na dificuldade e todos estes aspectos melhoram com o sucesso da aprendizagem.

Quando uma criança chega ao fim do 2º período do 1º ano de escolaridade e ainda não sabe as letras ou, se as sabe, ainda não sabe ler algumas palavras ou sílabas, deve ser referenciada para avaliação. Também se deve tomar atenção à tipologia dos erros de leitura e escrita e se estes erros forem de confusão de sons a suspeita deve ser alta.

Perante uma criança com insucesso escolar podem cometer-se alguns erros: esperar que haja um "click" e subitamente a criança comece a ler; culpar a imaturidade; culpar a mãe porque super-protege a criança; culpar a auto estima, etc. Estes apresentam-se como erros terríveis pois atrasam o diagnóstico e a intervenção e, comprometem a escolaridade.

Correntes pseudo-científicas advogam a existência de um síndrome postural e alterações oculares responsáveis pela dislexia. Em meta análise extensa publicada mostra-se que não existe evidência científica que comprove a eficácia de exercícios oculares ou o uso de lentes especiais (cor, prismas) nestas perturbações do desenvolvimento. Não existe evidência científica que mostre melhorias académicas nas crianças submetidas a tratamentos com treinos visuais, uso de bifocais ou prismas ou treino de organização neurológica. A gravidade destes métodos é que dão falsa sensação de segurança e atrasam a instrução e intervenção apropriadas.

Também não está comprovada a eficácia da evicção de corantes alimentares para a correcção dos sintomas de PHDA. Os suplementos alimentares como os ácidos gordos ómega 3 são muito utilizados em terapias adjuvantes, no entanto não está comprovada a sua eficácia nas Perturbações do Desenvolvimento aqui referidas.

A criança com insucesso escolar deve ser referenciada a uma consulta de Pediatria de Desenvolvimento onde todos estes aspectos são avaliados, nomeadamente, os aspectos cognitivos globais e específicos, assim como a prestação académica. Estas avaliações são correctamente efectuadas por uma equipa em consulta de desenvolvimento que inclui pediatra, psicólogos educacionais e técnicos de ensino especial e reabilitação. A avaliação emocional e projectiva (técnica psicanalítica) não tem qualquer papel útil na avaliação da maioria destas crianças. A intervenção deve ser dirigida à perturbação diagnosticada, deve ser estruturada, precoce e continuada.


Conteúdo desenvolvido por Dra. Paula Pires de Matos;
Pediatra do Desenvolvimento da Clínica Gerações