AVÓS E NETOS EM TEMPOS DE PANDEMIA

EO 2020 Opinião | Sónia Gaudêncio, Psicóloga Clínica
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Sabemos que manter o contacto com os familiares mais velhos traz benefícios para a saúde física e mental de todos, mas esta pandemia alterou os hábitos e rotinas de muitas famílias.

Muitos avós, que eram figuras presentes diariamente na vida dos netos, tiveram de aprender a lidar com o afastamento forçado pela pandemia, que embora, para proteção de todos, nem sempre foi fácil de gerir e aceitar. Por outro lado, os netos também sentiram muitas saudades dos avós, dos seus mimos, dos seus cuidados, da sua presença. E os pais sentiram-se “ensandwichados” entre os cuidados aos filhos e a preocupação com os próprios pais (os avós de que falamos).

Mas muitas foram as formas alternativas que as famílias, criativa e saudavelmente, encontraram para colmatar as saudades e manter o contacto entre si.

Recorrendo às novas tecnologias, até os avós que não as dominavam, rapidamente se esforçaram para conseguir fazer uma videochamada, utilizar as redes sociais ou entrar em plataformas para conviver com os familiares. Comprovou-se aqui que a “necessidade aguça o engenho”, sendo que muitos deles dominam atualmente essas novas tecnologias, aproximando-se da “linguagem digital” dos netos, o que soma mais pontos a favor no relacionamento com os mais novos.

Claro que infelizmente, nem todos os avós têm acesso a essas novas tecnologias ou sequer condições físicas, cognitivas e/ou financeiras para o fazer, mas um simples telefonema dos netos continua a ter o poder de alegrar o dia de quaisquer avós.

Também aqui, esta pandemia, deixa inevitavelmente as suas marcas nas famílias… e se muitas já retomaram o convívio presencial mais frequente com os avós, nem todas o puderam fazer. Muitos avós integram os grupos de risco e podem ter condições de saúde que os tornam mais vulneráveis, levando a que as famílias, optem por evitar o contacto presencial ou o façam com muitas precauções e de forma menos frequente do que aquilo que gostariam.

Ao contrário de outros países da Europa, Portugal, não estabeleceu nenhuma norma oficial do Ministério da Saúde ou da DGS sobre este tema. Fica assim esta decisão a cargo de cada família, devendo ser ponderados os riscos e benefícios da mesma, consoante as circunstâncias dos avós em questão e netos.

É diferente o risco de convívio com avós mais jovens e/ou sem patologia associada ou de avós com mais de 60 anos, com doenças oncológicas ou outro tipo de doenças que baixem a imunidade.

Claro que, e embora a preservação da vida humana seja indiscutível e os dados mundiais que dispomos são claros quanto à mortalidade deste vírus, que é superior ao normal, principalmente nas faixas etárias acima dos 60 anos, não podemos descurar a saúde mental.  Sabemos que a separação entre avós e netos pode potenciar riscos de isolamento e depressão.

Como tal, e dado que se aproxima o dia dos avós (26 de Julho), o que poderão fazer, avós e netos, para comemorar este importante dia em segurança, protegendo os avós, mas fortalecendo laços e valorizando o seu papel na família e na educação dos netos?

Privilegiem o convívio ao ar livre e cumprindo todas as medidas de segurança possíveis: uma ida à praia ou ao jardim; um piquenique; uma caminhada… mas sempre longe das multidões.

Se não for possível sair, comuniquem virtualmente e, mesmo desta forma, pratiquem uma atividade em conjunto: contar uma história; partilhar informação para elaborar a árvore genealógica; podem até “partilhar uma refeição” virtualmente. Os netos podem até fazer desenhos, cartas, e-mails para os avós que demonstrem o quanto gostam deles e o quanto são importantes na sua vida.

O mais importante é que os laços emocionais e afetivos prevaleçam sobre o distanciamento físico. Claro que este convívio virtual, não substitui o contacto físico e o mimo e ternura dos avós, mas poderá ser o possível para algumas famílias, de forma a proteger avós e netos e salvaguardar este vínculo importante entre as duas gerações.

Sejamos resilientes e tenhamos capacidade de adaptação às circunstâncias desta pandemia para que possamos sair fortalecidos, saudáveis e a valorizar o que verdadeiramente importa… a família, os laços familiares, os valores, o respeito pelo próximo e a empatia. Alguns sacrifícios hoje poderão ser sinónimo dum grande ato de respeito e amor por quem nos é mais próximo.

Avós e netos…mesmo em tempo de pandemia… a construírem laços que perduram!!!

Sónia Gaudêncio, Psicóloga Clínica e Diretora da ESTIMA +

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