DA REFLEXÃO À AÇÃO

EO 2019 Partilhas por Catarina Furtado
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Que, no final de 2020, possamos ler uma notícia assim: “Ao contrário de 2019, em que foi considerado o terceiro pior país no campo do voluntariado organizado, Portugal é hoje um exemplo do que significa agir em prol de um mundo mais igualitário e justo”.

Acabo de voltar da Colômbia, onde estive a trabalhar para o meu programa “Príncipes do Nada” (RTP). Entrevistei mulheres vítimas do conflito armado, que dura há cerca de 50 anos e fez 8 milhões de mortos, e pude confirmar que o impacto do relato da violência é tão intenso como o da partilha de um renascer baseado na reconquista da auto-estima.

Pouco antes, tinha estado no Bangladesh. Assisti à situação miserável do povo royhingua, vítima de limpeza étnica em Myanmar, e ouvi testemunhos de pais que viram os filhos serem queimados em fogueiras.

Há menos tempo ainda visitei os campos de refugiados de Samos e Moria, na Grécia. Conheci crianças que perderam os pais e ficaram sozinhas, adolescentes que foram vítimas de exploração sexual e adultos que não aguentavam viver mais tempo na guerra, sonhavam com uma educação decente para os filhos e só queriam viver em paz nesse continente “maravilhoso” chamado Europa.

E também estive no Líbano, o país com o maior número de refugiados relativamente à sua população. Foi lá que conheci uma jovem jornalista síria que pede nas ruas de Beirute e usufrui do único serviço gratuito de saúde materna na cidade, promovido pelo Fundo das Nações Unidas para a População. Não me esqueço da sua expressão de desespero enquanto o filho bebé ardia em febre. O que ainda vale a muitas destas pessoas é o apoio das organizações humanitárias.

Um dos meus desejos para o novo ano é que transformemos a reflexão em ação e nos unamos na vontade de contrariar os números. Por exemplo? Em Portugal, morreram 32 pessoas por violência doméstica só em 2019; no mundo em desenvolvimento, uma em cada três raparigas casa-se antes dos 18 anos e a grande maioria engravida; pelo menos 200 milhões de meninas, raparigas e mulheres foram vítimas de mutilação genital feminina, praticada em cerca de 30 países. E há muitos mais números que representam pessoas cujos direitos essenciais são violados todos os dias.

Que, no final de 2020, possamos ler uma notícia assim: “Ao contrário de 2019, em que foi considerado o terceiro pior país no campo do voluntariado organizado, Portugal é hoje um exemplo do que significa agir em prol de um mundo mais igualitário e justo”.

Bom ano!

Catarina Furtado

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