O PAÍS DOS BRINQUEDOS

EO 2020 Torres Vedras | Exposição Permanente3ª a Dom.: 10h-13h, 14h-18hM/00€
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ATIVIDADE GRÁTIS

Os brinquedos são a memória e ainda são mais do que isso: os brinquedos sobrevivem à memória.

Dizem que o País dos Brinquedos é habitado por estranhas geringonças, “coisas” feitas de lata, de madeira, de plástico, de ferro e de tecido. Mas os brinquedos só aparentemente são coisas fechadas nos seus limites, coisas com uma existência tridimensional que sublinha a sua realidade material, palpável e tangível, conseguida pela coesão que repousa nas suas dobras e encaixes, pregos, cola, parafusos, cavilhas e entalhes.

Os brinquedos são, outrossim, as infinitas histórias que cada criança para eles constrói enquanto brinca e se deixa cair nos seus milhares de centros invisíveis. Depois da queda, do mergulho, é de facto a criança que, já dentro do brinquedo, transforma essa coisa inanimada em algo “vivo”, transgredindo fronteiras como se fosse um pequeno deus criador. Mas se para a criança os brinquedos são a porta que se abre a todos os possíveis e impossíveis, para os adultos eles podem ser os preciosos utensílios com que conseguem acordar memórias, bastando para isso terem uns olhos que vejam, um coração que queira e umas mãos que toquem.

Esta pequena mostra de brinquedos de Octávio Neves é testemunha das práticas lúdicas da criança através do espaço e do tempo, e eco da sociedade com os seus modos de vida, os seus progressos técnicos, as suas obsessões, representando, por isso mesmo, a história da própria Humanidade. Mas mais do que um desfile de objetos em armários quisemos criar um espaço vivo, esperando que todos, crianças e adultos, sintam que os brinquedos são alimento para o pensamento, para o sonho e para o coração, funcionando ainda como a chave capaz de abrir horizontes que vale a pena viver.

Coleção de Octávio Neves
É a brincar que a criança se faz gigante, com a mão faz voar o pássaro e o avião, com  a voz  ordena a marcha do soldadinho de chumbo e o salto da rã  de lata e,  tal  como  o deus que do nada criou o mar e a areia, os vales e as montanhas, ela cria um reino para a  sua fantasia. Esta exposição, uma pequena mostra da coleção de brinquedos de Octávio Neves, abre-nos ao fascínio da infância. Como qualquer coleção é uma entre outras formas de fazer uma autobiografia, contando aos outros não só a história dos brinquedos como a própria história de quem os escolheu, umas vezes cuidadosamente outras por acaso, uns  novos outros completamente estropiados, riscados, partidos, compondo assim o retrato secreto de quem os possuiu, retrato que foi mudando com o passar dos anos da mesma forma que o rosto foi ganhando rugas. E se bonecas, robôs, carros, aviões, foguetões, barcos, soldadinhos e ursos de peluche começaram por reclamar o amor de quem os escolheu, colecionou, cuidou, Octávio Neves, agora aqui expostos reclamam pelo amor de todos nós.

Núcleos
Brinquedo português
Os brinquedos são a fala da terra em que nasceram ou, melhor dizendo, os brinquedos têm pátria, espelham infâncias, revelam modos de vida.
A geografia é-lhes umas vezes favorável e outras desfavorável, dependendo de como num dado tempo e lugar se perceciona a infância e ainda, nesse mesmo espaço, a industrialização vai acompanhando essas novas formas de olhar. Mas não importa a língua com que falam, porque a criança consegue sempre “ler” o brinquedo independentemente do ADN que este possua. Enfim, à criança pouco lhe interessa que a sua boneca seja feita de cera, como eram as que as meninas inglesas possuíam no século XIX, ou de biscuit e porcelana, como por essa altura eram as das meninas francesas e alemãs. De facto, a menina portuguesa embala a sua, improvisada em casa com um resto de pano, escolhe para ela um nome e uma história que funcionam como um doce satélite, e tem-lhe um imenso amor, animado pela mão invisível da criança universal que é capaz de atravessar séculos e fronteiras.

Carros e pistas
Eis que a criança recria o mundo. A mesa é agora uma montanha ou um arranha céus, o tapete um imenso oceano ou uma avenida de liberdade.
Mas a criança não quer ficar a ver, precisa de pôr em movimento o mundo que acaba de criar. Para isso põe-se ao volante, apita, gesticula e ri. À sua direita espreita uma imensa fila de plátanos. A criança adivinha-os perigosos. A experiência não vale por si só e para ela, criança, é sobretudo a imitação dos grandes e do que lhes ouve contar. Trava por isso a fundo! Mas nem ela escapa ao acidente nem o seu veloz carrinho de lata escapa à morte. Mesmo assim, um pouco depois, confundindo o descuido com o desígnio de uma arte, a de imaginar, ela e o seu carrinho de lata voltam a circular pelas estradas do mundo.

Aviões, Foguetões e naves espaciais
À criança não lhe chega o chão. Por isso, quando olha para o teto do seu quarto vê um céu onde voam pássaros de todos os tamanhos e cores, mas também aviões, foguetões, naves espaciais. Enfim, já não lhe reconhece o monótono branco que à noite se enche de terríveis sombras, e no lugar da redonda lâmpada a criança encontra agora uma imensa lua cheia. Ao contrário do adulto, submerso por um caleidoscópio de deveres e obrigações, e uma cacofonia de possíveis e impossíveis, a criança pode realmente voar sem esforço. E como pode voar, voa. O que faz não depende da sua compreensão. Tão pouco tem a mínima importância não saber conduzir foguetões ou naves espaciais nem nunca ter andado de avião.

Para a criança todos estes estranhos meios de transporte são sempre, e de forma maravilhosa, mágica, um conjunto de possibilidades que se revelam absolutamente marginais ao mundo dos adultos.

Bonecas
A criança cresce a brincar ao faz de conta. Para isso precisa de encontrar uma criança à sua escala. A boneca! Só com a boneca pode, verdadeiramente, ser mãe ou professora, mandar, ralhar, exigir, mas também afagar e beijar. Às vezes a boneca chora e a criança acode, pronta, acaricia e embala. Não pode falhar, porque é uma boa mãe, uma boa mestra.

Mas se tem poder para dar um nome e uma história à sua boneca, num momento de fúria a criança pode também dar-lhe a morte, rodeá-la dos símbolos que adivinha no trajeto da vida, bruxas e cavaleiros negros. No entanto, logo no instante seguinte, a criança reconhece que é preciso trazê-la de novo à vida. Afinal, nada é tão importante quanto a sua boneca, pois é ela que a acompanha na passagem do ninho acolchoado da infância para os picos que se avizinham na adolescência.

Robôs
A imaginação da criança raramente fraqueja. Tubos, botões, luzes, carrinhos de linhas ou réguas, não passam de um momento para o outro à sua realidade simples, e mantêm-se dias inteiros como castelos, estranhos veículos de andar pelo ar, espadas de um tempo antigo ou robôs de um tempo que parece nunca mais chegar. Brincar com robots é brincar ao futuro, uma aventura imensa porque, para a criança, o futuro é uma estrada a perder de vista, que afunila, mas que ela sabe poder sempre ir um pouco mais além. Por isso o robot se sente tão feliz no quarto de uma qualquer criança, e assim feliz o vemos a rodopiar cada vez mais rápido, e a emitir luzes intermitentes só para disfarçar a contínua alegria de ser um dos brinquedos que todos preferem.

Jogos
A criança, tal como os mágicos imitam os processos criadores da realidade, gosta de jogar porque o jogo não é mais do que uma imitação da vida, uma representação.
Por isso joga e faz de conta que é um construtor. Junta peças, cubos de madeira ou plástico com que ergue casas e fortalezas, palácios e cabanas, pontes e muros. Empilha essas peças direito ao céu, certa de que, mesmo sem avião, acabará por lá chegar assim consiga desafiar as leis da física. Mas não consegue! Cansa-se dos limites do jogo de construções e dos limites do seu quarto de criança. Corre então para o pátio, para a rua, onde vai jogar ao pião, ao arco, ao berlinde… Desta vez não tem limites, ou se os tem estes encontram-se muito próximos do infinito.