SKIN-PICKING NO AUTISMO – COMO IDENTIFICAR E INTERVIR?

EO 2018 Saúde | Fonte: Pin - Centro de Desesnvolvimento
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Skin-Picking? Conhece? Uma palavra estranha, peculiar até, igualmente conhecida por Perturbação de Escoriação. Tornou-se mais familiar? Possivelmente não.

Apesar de se tratar de uma Perturbação que poderá surgir na infância, adolescência ou adultez, esta condição clínica permanece ainda desconhecida para pais, agentes educativos ou classe médica e terapêutica.

Como reconhecer e identificar a Perturbação de Escoriação ou Skin-Picking?
A Perturbação de Escoriação, reconhecida também como Skin-Picking, trata-se de uma Perturbação do Espectro Obsessivo-Compulsivo, que se caracteriza pela presença de comportamentos repetitivos e/ou ritualizados de lesão cutânea, que correm regularmente durante o dia por um período prolongado. Por outras palavras, os agentes educativos devem ficar alerta a comportamentos repetitivos e recorrentes de beliscar, morder, raspar, puxar e sugar a própria pele, causando feridas ou lesões significativas, como infecções e cicatrizes.

Perante o comportamento autolesivo são observadas tentativas repetitivas de reduzir ou parar, com identificação de sofrimento e de prejuízo social, emocional e funcional, resultando na demonstração de vergonha social (i.e., esconder ou evitamento de situações sociais devido à sua aparência), constrangimento e culpa.

Deverá ser tida em consideração que o presente comportamento não resulta de efeitos fisiológicos ou de outras condições médicas (i.e., escabiose, comumente conhecida como sarna), bem como avaliar e distinguir o comportamento repetitivo focado no corpo de uma intenção consciente de se ferir, que é uma característica da automutilação não-suicida.

Existirão locais ou zonas corporais mais comumente utilizadas?
O comportamento de Skin-Picking ocorre mais frequentemente em zonas do corpo como o rosto, braços e mãos, porém pode ocorrer igualmente noutras zonas corporais, tal como as pernas.

Será que o Skin-Picking surge em outras Perturbações do Neurodesenvolvimento e Psiquiátricas?
O comportamento compulsivo poderá ser diagnosticado sem a presença de outras perturbações de neurodesenvolvimento ou psiquiátricas, ou em comorbilidade com outras perturbações, como a Perturbação do Espetro do Autismo (PEA). Do que é conhecido não existem ainda estudos conclusivos face à sua prevalência nas PEA’s ou se o seu surgimento se relaciona com o grau de severidade, contudo os estudos mais recentemente não demonstram correlação entre o surgimento do comportamento de skin-picking e o grau de severidade das PEA’s, mas da presença de hipersensibilidades sensoriais, alterações no processamento sensorial, presença de outros comportamentos obsessivo-compulsivo e de características de ansiedade moderada a severa. Na população em geral sabe-se a prevalência é de 1-5% e podem se apresentar em qualquer idade ou etapa de desenvolvimento do individuo.

Nas PEA’s o comportamento compulsivo poderá ser parte de um funcionamento desadaptativo de autorregulação, surgindo com uma estratégia para reduzir a ansiedade e uma forma de tranquilização, potencialmente resultante da ativação emocional induzida pelos eventos contextuais na ausência de comportamento adaptativo de enfrentamento ou de gestão da situação. Não obstante, o comportamento de skin-picking não ocorre exclusivamente na presença de ansiedade, os eventos e estados emocionais que despoletam o comportamento poderão ser variados, desde uma interrupção de rotina, aborrecimento em atividades de lazer ou contexto escolar e profissional, perceção de manchas na pele, observação de imperfeições, deteção de irregularidades na pele (invisíveis pela observação ocular) pela exploração tátil ou mesmo de cansaço.

No comportamento típico das PEA’s o comportamento de skin-picking tende a ocorrer com recurso às unhas, sendo menos típico o uso de pinças, alfinetes ou outros objetos.

Até que ponto é típico ou atípico o Skin-Picking ocorrer? Não existem períodos em que é natural? Ou ser mais acentuado pela características de processamento sensorial das PEA’s?
Existem algumas questões que surgem frequente sobre o lesar a pele ou o arrancamento de espinha ou de peles, nomeadamente: "Não será natural os adolescentes rebentarem borbulhas e espinhas?" ou "Por vezes, tenho aquela pele que me incómoda e se prende na roupa ou magoa! É natural arrancar!". Será importante a diferenciação entre um comportamento pontual ou associado a uma etapa de desenvolvimento específica, os comportamentos compulsivos diferem no seu funcionamento de uma preocupação ou ritual típico das diferentes fases de desenvolvimento por serem excessivos e persistirem além dos períodos apropriados ao nível de desenvolvimento.

Será importante compreender que o comportamento poderá ocorrer em pele saudável, irregularidades e pequenas imperfeições na pele, ou em lesões como espinhas, borbulha, calosidades ou nas crostas de lesões anteriores. Habitualmente o aparecimento de acne poderá acentuar o comportamento, mas não é o factor principal que explica o surgimento do comportamento. Se pensarmos nas Perturbações do Espetro do Autismo as questões sensoriais poderão exacerbar o comportamento repetitivo na presente fase, pelas alterações no processamento sensorial, que poderão assumir-se como sensibilidade a determinadas texturas da pele, maior tolerância à dor e/ou incómodo com imperfeições visuais observadas na pele.

Diagnosticado Skin-Picking e agora? Quais os passos a seguir?
Quando surge o diagnóstico de uma Perturbação de Escoriação ou Skin-Picking são ponderadas dois tipos de intervenção terapêutica, a farmacológica e a intervenção cognitivo-comportamental, com integração da compreensão do processamento sensorial e da função do comportamento no funcionamento e gestão das emoções nas Perturbações do Espetro do Autismo. A intervenção psicológica procura fomentar a aprendizagem de novas estratégias de regulação emocional, reorganização de rotinas, dessensibilização sensorial e promover a tolerância ao desconforto e introdução de estratégias de hábito reverso, com a integração do aumento da consciência do comportamento compulsivo, treino de uma resposta comportamental em substituição ao comportamento de skin-picking, que poderá ser um substituto sensorial.

Artigo desenvolvido por:
Catarina Carreto | Psicóloga Clínica

PIN - Centro de Desenvolvimento