OS MELHORES HÁBITOS DE SONO PARA TODA A FAMÍLIA

EO 2017 Educação | Fonte: Pin – Centro de Desenvolvimento
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Só conseguirá ler estas linhas com atenção se tiver dormido bem na noite passada e nas anteriores.

Contudo, quem muitas vezes lê estes textos são pais carinhosos mas exaustos pelos esforços continuados de tentarem que o filho "durma a noite toda", confusos pela sensação paradoxal de terem de ensinar a fazer algo que é uma necessidade primária do ser humano.

Se pensarmos nos fetos, sabemos que já dentro da barriga das mães estes têm ciclos de sono-vigília e, naturalmente, adormecem sozinhos - como diria o Dr. Estivill, conceituado pediatra catalão e especialista em medicina do sono, as grávidas não balançam as barrigas de um lado para o outro para embalar os seus bebés!

Então, se o recém-nascido já nasce com aquela capacidade, o que acontece no contacto com o mundo exterior?

Um bebé desperta todo um leque de sentimentos nos pais e cuidadores, nomeadamente os de proteção e conforto perante um mundo novo mas potencialmente ameaçador.

Na descoberta de uma comunicação recíproca, os diferentes choros do recém-nascido demoram a ser descodificados pelos pais e, enquanto tal não acontece, o primeiro instinto é acalmá-lo e confortá-lo.

Para tal tudo irão fazer: dar-lhe colo, embalá-lo, dar-lhe de mamar, cantar, empurrá-lo no carrinho, passeá-lo de automóvel... Quando finalmente surge o tão desejado silêncio (que vem frequentemente na forma de adormecimento), os pais associam-no ao comportamento precedente ("eu embalei-o e ele calou-se/ adormeceu").

Se os pais repetirem esta ação com o mesmo resultado, esta sai reforçada e acaba por se tornar um hábito ("só adormece se o embalar"). Assim, um hábito será problemático se implicar sistematicamente ações exigentes por parte pais, quer no adormecer, quer para manter o bebé a dormir, uma vez que este só conseguirá fazê-lo na presença destas condições, que acabam por interferir no sono e no funcionamento diurno da família.

Está-se então perante uma insónia comportamental da infância.

É importante sublinhar, ao contrário do que os pais temem quando ouvem falar em intervenção no sono dos filhos, que as estratégias não têm de ser rígidas ou extremistas - naturalmente, os bebés precisam e devem ser mimados, acarinhados, embalados, de ter colo, de ouvir cantar...

Só que estes momentos devem ser dissociados do adormecer, para ajudar a desenvolver hábitos que promovam um sono autónomo. Uma criança que apenas necessite de um peluche para dormir vai conseguir fazê-lo na cama de sua casa, na de casa dos avós, no catre do infantário e vai dar a impressão de que "dormiu sem acordar".

Isto porque, nos microdespertares normais entre cada ciclo de sono, aquilo que necessita para dormir (o peluche) está presente e não exige a presença ou a interferência de terceiros.

É então importante criar condições propícias para um sono tranquilo e autónomo.

As variáveis mais fáceis de controlar são as relativas ao contexto, que vão desde o horário e conteúdo das refeições (como proteínas e verduras ao jantar), ao ambiente circundante.

Para adormecer precisamos de estar fisicamente relaxados e isso não é possível num ambiente excitante, ruidoso ou extremamente luminoso. Para estimular a produção da melatonina (hormona que promove a sonolência e apenas é segregada na escuridão), a partir do fim da tarde os pais devem tornar a casa o mais tranquila possível. Isto não equivale a uma casa silenciosa mas a um ambiente calmo, com conversas num tom de voz baixo, música tranquila e preferência para luzes de candeeiro de cor amarelada.

As atividades devem ser mais passivas e escolhidas de acordo com a idade, desde os puzzles, desenhos e livros à música calma. O limite é colocado no uso de tecnologias, pois os telemóveis, tablets e computadores, além de estimulantes cognitiva e emocionalmente, emitem luzes dentro do espetro azul que inibem a produção da melatonina, atrasando o adormecer.

Por muito que os filhos refilem com esta inibição, os pais podem dizer-lhes que também estão proibidos de estudar perto da hora de dormir!

Chega então a hora do deitar, temida pelos pais pela batalha que antecipam e pelos filhos, que vêem o sono como o fim das atividades de lazer para as quais têm tão pouco diário. Há então que definir rotinas estruturadas que indiquem que o deitar se aproxima, que contemplem tempo de afeto entre pais e filhos e que terminem no quarto dos mais novos, após um beijo ou uma história.

Esta previsibilidade, aliada a explicações de que o sono lhes permite crescer saudáveis, inteligentes e bem dispostos, ajuda a aceitar o sono como fim natural de um dia intenso.

Contudo, se a resistência da criança ao deitar e a dificuldade dos pais em implementar boas rotinas de forma consistente se virem mantidas, quer por hábitos exigentes a pais cansados, quer por estarem associadas a outras perturbações (ex: de ansiedade), deverá ser procurada ajuda especializada.

Conhecedores das mais eficazes estratégias de intervenção e sempre numa postura não penalizadora, é em conjunto com os pais (e com a criança, se possível), que se decide qual as mais adequadas às especificidades de cada família.

Quer decidam seguir por uma "via rápida", quer por uma "estrada secundária", o destino será o mesmo: sair do quarto dos filhos deixando-os tranquilos, sonolentos e portanto confiantes e os pais seguros das suas competências parentais.


Artigo desenvolvido por Mafalda Leitão
Psicóloga Clínica e Coordenadora do Núcleo de Perturbações do Sono

PIN – Progresso Infantil