ESTUDANTES UNIVERSITÁRIOS COM PERTURBAÇÕES DO DESENVOLVIMENTO: DESAFIOS, NECESSIDADES, REALIDADES

EO 2018 Educação | Fonte: Pin - Centro de Desenvolvimento
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As perturbações do desenvolvimento constituem um grupo de condições de desenvolvimento atípico que são crónicas, ou seja, não desaparecem com a idade ou a maturação e desenvolvimento. Embora evoluam nas suas características, existem para a vida e como tal, crianças com perturbações do desenvolvimento crescerão para se tornarem adolescentes e adultos com a mesma condição.

Uma das principais características destas perturbações é que se expressam em comportamentos disruptivos, em dificuldades em regular a atenção, em estabelecer relações sociais adaptativas, em dificuldades de comunicação, interpretação de situações sociais, em gerir as emoções e interpretar o comportamento e as emoções dos outros. Estas expressões comportamentais, sem associação a traços físicos específicos ou a dificuldades intelectuais evidentes, tornam estas perturbações “invisíveis” e sujeitas a interpretações enviesadas e carregadas de juízos de valor por parte dos adultos e dos pares.

Temos assistido a um aumento progressivo da sensibilização das famílias, dos professores e do público em geral para estas perturbações e para o impacto que têm na vida das pessoas. Igualmente têm aumentado as intervenções de natureza pedagógica, psicológica e médica que permitem um maior suporte ao longo do desenvolvimento. Em consequência (positiva), mais jovens com perturbações do desenvolvimento fazem com sucesso o seu percurso académico e entram no “mundo do ensino superior”.

A entrada para o ensino superior não é apenas mais um desafio académico e/ou social ou uma transição como as anteriores e representa uma profunda alteração nas rotinas e hábitos funcionais do quotidiano, uma necessidade de investimento no estudo sem o suporte e acomodações anteriores, uma necessidade de compreender e estabelecer relações sociais com pares de forma muito mais autónoma e a necessidade de compreensão e relação com professores que ensinam de formas muitos distintas e  que estão centrados na passagem de conhecimento e na investigação e não preocupados com as formas de aprender dos seus alunos.

O mundo académico é, em tudo, distinto do mundo do ensino secundário e mesmo para aqueles que fizerem o ensino obrigatório sem grandes sobressaltos e sem um diagnóstico formal, a vida académica pode tornar-se um tal desafio e fonte de problemas que chega a conduzir à necessidade de encontrar uma explicação para as dificuldades que nesta altura se agravam e dar origem ao diagnóstico. Isto é sobretudo comum nos casos de Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA).

Na Universidade, as perturbações do desenvolvimento como a PHDA e a Perturbação do Espetro do Autismo (PEA), a Dislexia, Disortografia ou Discalculia tendem a ser “invisíveis” ou mesmo “inexistentes”. São “coisas da infância” e não do adulto e “não tem sentido ter de estabelecer acomodações ou definir estratégias pedagógicas diferenciadas para estes alunos”.

Mais ainda, são “invisíveis” ou mesmo “inexistentes”, porque muitos destes alunos vivem os seus cursos escondendo as suas dificuldades, não querendo ser assinalados como diferentes e lutam contra um funcionamento que não lhes é favorável. Devido a experiências anteriores negativas ou à resistência que vão encontrando há estudantes que optam por não revelar ou por mascarar a perturbação, evitando situações em que sentem maior exposição das suas dificuldades e/ou criando falsas justificações para aquilo que acontece.

Para estes jovens, que sentem dificuldades acrescidas no cumprimento das tarefas escolares ou necessidade de mobilizar mais esforço do que os pares na sua concretização torna-se doloroso quando o esforço investido não se reflete nos resultados alcançados, criando e perpetuando um ciclo vicioso de sentimentos de frustração, angústia, tristeza, desilusão e incapacidade. No limite, a perceção que vão criando sobre si torna-se erroneamente na confirmação das interpretações maioritariamente negativas que os outros fazem sobre eles.

A atitude (negativa) dos outros é provavelmente a maior barreira que estes estudantes enfrentam durante a frequência universitária e está intimamente ligada à invisibilidade dos sintomas. Como tal, estes estudantes batalham diariamente para serem compreendidos junto dos pares e da comunidade académica, o que provoca um desgaste emocional acrescido. É frequente ouvirem comentários desagradáveis, principalmente de falta de capacidades, de desleixo em relação às responsabilidades académicas, de desvalorização/banalização das suas dificuldades, de invalidação da perturbação, de vitimização pessoal e até de troça.

Para além destes obstáculos podem ainda ter de lidar com desafios nas relações sociais e nas tarefas domésticas, estas últimas no caso dos alunos deslocados. Para muitos a pressão social que o contexto impõe (os trabalhos de grupo, as festas, o desporto universitário, o associativismo, as praxes ou todos os momentos socialmente codificados da vida universitária) constitui verdadeira angústia e o isolamento torna-se mais evidente, com possíveis consequências a nível da frequência às aulas.

Quando identificados, por necessidade dos próprios ou conjugação positiva de fatores, surgem barreiras na implementação de estratégias específicas que se prendem com práticas pedagógicas rígidas, pouco inclusivas e com crenças (ou descrenças) de que tudo se resume a falta de esforço, dedicação, organização, motivação e estudo. Para aqueles cuja expressão é sobretudo relacional e social, surgem as ideias de que há problemas emocionais, depressão, ansiedade, e instala-se uma dificuldade em ver para além de sintomas mais socialmente codificados mas que, do mesmo modo, remetem para ajudas externas à universidade e para a vida individual destes estudantes.

Há um enorme caminho a trilhar na compreensão destas perturbações na vida adulta e especialmente para estes adultos jovens que, face a um contexto de vida muito diferente e específico, vêem os seus alicerces diários desaparecer e os seus sintomas a evidenciarem-se e a terem um impacto mais significativo nas suas vidas. Para que possam fazer a sua formação académica de forma justa e ter as mesmas oportunidades de prosseguir estudos, a sensibilização da comunidade académica em geral e a criação de estruturas de apoio torna-se preponderante.

Já existem excelentes exemplos neste caminho mais recente, como a Rede das Necessidades Educativas Especiais da Universidade de Lisboa (Site). Deixamos esse testemunho para quem desejar aprofundar o seu conhecimento sobre esta matéria ou para quem considerar que os exemplos podem ser bons guias e orientadores.

Artigo desenvolvido por:

Ana Rodrigues, Professora Auxiliar da Universidade de Lisboa/Faculdade de Motricidade Humana – Técnica Superior de Educação Especial e Reabilitação Licenciada em Ciências Psicológicas.
Joana Gonçalves, Técnica Superior de Reabilitação Psicomotora; Mestre em Reabilitação Psicomotora.


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