EMPREGABILIDADE INCLUSIVA NAS PERTURBAÇÕES DO NEURODESENVOLVIMENTO

EO 2019 Todo o PaísPedagogia | Fonte: Pin - Centro de Desenvolvimento
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Frequentemente à medida que crescemos ouvimos a pergunta “O que queres Ser quando fores Grande?”, ao que normalmente respondemos “Quero ser Bombeiro, Polícia, Cabeleireira, Artista, Cientista (...)”.

Temple Grandin, uma ativista pró-autismo, referiu “Eu sou o que faço!”, realçando o papel que o emprego e a atividade profissional têm, não só enquanto garante da igualdade de oportunidades para todos, contribuindo para promover a plena participação dos cidadãos na vida económica, cultural e social, mas também ao nível do desenvolvimento pessoal, tal como é indicado pela Comunidade Europeia através da Diretiva 2000/78/C. Concretizando, a transição para a vida ativa assume um papel fundamental ao nível da autoestima, sentido de autoeficácia e realização pessoal, autodeterminação, tal como, em termos de independência económica, autonomia, entre outros aspetos relevantes.

Ao nível das perturbações do neurodesenvolvimento, os números existentes especificamente relacionados com a empregabilidade nas perturbações do espetro do autismo (PEA) são realmente preocupantes! Cerca de 80% dos adultos com PEA tem um nível marcado de dependência da família. Verifica-se também que uma percentagem significativa acaba por não conseguir integrar o mercado de trabalho. Quando o consegue, por norma, é ao abrigo de um programa de estágio, nem sempre remunerado e o processo frequentemente não tem continuidade.

Estes dados expressivos acabam por refletir algumas das dificuldades sentidas por indivíduos com PEA com impacto na integração profissional, particularmente ao nível das relações interpessoais, comunicação, capacidade de adaptação e de trabalho em equipa, assim como, na resolução de problemas. Por outro lado, temos um tecido empresarial que muitas vezes estigmatiza pela crença de que a pessoa não corresponderá ao ritmo imposto pela produtividade, e fá-lo sobretudo pela falta de informação. Contudo, há um crescente número de empresas a apresentar uma forte preocupação com o desenvolvimento sustentável da comunidade e a investir em políticas de responsabilidade social baseadas na inclusão! Fá-lo por reconhecer as mais-valias da diversidade e heterogeneidade dos seus colaboradores, acreditando que as características idiossincráticas de cada um conferem uma oportunidade de sucesso para a empresa, nomeadamente no que diz respeito à PEA, a memória visual e a longo-prazo, o sentido de compromisso (pontualidade, baixo absentismo), a paixão por detalhes e o domínio de temas de interesse.

Deste modo, parece-nos fundamental que o técnico especializado, assuma o papel de intermediário e mediador entre candidatos e empresas, para que a comunicação entre ambas as partes seja facilitada e o processo resulte com sucesso. Primeiramente, o técnico deverá encaminhar o candidato para um processo de avaliação detalhado no que diz respeito à componente clínica e orientação escolar e profissional. Também é importante avaliar as competências profissionais mais especificamente de forma a estabelecer um emparelhamento o mais ajustado possível entre a pessoa e a atividade profissional/empresa pretendida. É necessário contemplar possíveis apoios e incentivos neste âmbito e intervir também com a família, que é um pilar fundamental neste processo.

Há um outro agente envolvido neste percurso que precisa de ser tido em conta, as empresas de recrutamento - uma prática cada vez mais usada para fazer a seleção do candidato. Como tal, é importante refletir-se sobre as técnicas de recrutamento e seleção, tendo em conta que as mais comumente utilizadas não garantem de todo a igualdade de oportunidades no acesso ao emprego para todas as pessoas, nomeadamente para um indivíduo com uma PEA. A título de exemplo, a análise curricular, por valorizar diferentes experiências profissionais ou a entrevista de seleção por constituir um momento de comunicação por excelência.

O técnico tem uma vez mais um papel primordial na monitorização de todo o processo, intervindo junto da pessoa que pretende candidatar-se. Este tem como função apoiar o indivíduo no desenvolvimento das competências necessárias e na sua preparação, tal como, efetuar as devidas adaptações aos procedimentos usuais, de acordo com as características específicas do candidato e da empresa em questão. Por exemplo, a entrevista poderá ser preparada com o candidato, nomeadamente a antecipação de respostas a possíveis perguntas, a adequação do cumprimento, tom de voz, contacto visual, expressão facial à situação e contexto específico. Por sua vez, a empresa poderá ter em atenção a colocação de perguntas objetivas; evitar colocar o candidato em situações hipotéticas do tipo “o que faria se?”, privilegiando sempre que possível exemplos de situações concretas e verificar a necessidade do candidato conhecer previamente o local, o entrevistador e guião de entrevista.

Ao nível do processo de intervenção e integração na empresa, destacam-se como pontos fundamentais a capacitação e integração do candidato e adaptações do posto de trabalho. Atualmente constata-se que o mercado de trabalho valoriza não só as competências técnicas dos candidatos, mas sobretudo competências sociais e comportamentais (“soft skills”), o que cria desafios mais exigentes para indivíduos com uma PEA. Assim sendo, no processo de capacitação é essencial o desenvolvimento de competências de comunicação como a assertividade, a interpretação de conversas paralelas e a iniciação e manutenção de conversa social.

Também devem ser trabalhados os cuidados pessoais nomeadamente em termos de higiene; utilização dos transportes; flexibilidade na resolução de problemas; trabalho cooperativo; gestão de tempo e planeamento de tarefas no trabalho. Posteriormente, na integração em contexto de trabalho, o técnico tem uma função importante no estabelecimento de parcerias, assim como, na realização de ações de sensibilização nas empresas com o objetivo de informar e esclarecer questões sobre as perturbações do neurodesenvolvimento. Pode sugerir-se a nomeação de um tutor/mentor (chefia ou colega) que acompanhe o candidato de forma mais próxima e seja um elemento de referência; possíveis adaptações do posto de trabalho (por exemplo, comunicação por e-mail vs. comunicação telefónica) e monitorização do candidato e empresa como forma de gerir a curto-prazo possíveis situações desafiantes que possam ocorrer.

As boas práticas desenvolvidas por algumas empresas a nível mundial para a empregabilidade inclusiva demonstram que é possível integrar pessoas com uma perturbação do neurodesenvolvimento e concretamente, com uma perturbação do espetro do autismo no mercado de trabalho com um resultado extremamente positivo e benéfico para todos os intervenientes. Contudo, sentimos ser necessário realizar este processo de forma acompanhada com o intuito de ser garantido o seu sucesso.

“Tornar os locais de trabalho melhores para adultos com uma perturbação de espetro do autismo muitas vezes não exige grandes mudanças. Normalmente, o que faz um trabalho melhor para as pessoas com uma perturbação faz com que o local de trabalho seja melhor para todos.”
Scott Standifer (Universidade do Missouri, 2013)

Artigo desenvolvido por:
Andreia Silva e Pedro Rodrigues - Equipa do PIN responsável pela Integração Sócio- Profissional de Jovens Adulto e Adultos com uma Perturbação do Neurodesenvolvimento.

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