FADIGA PANDÉMICA: QUEREMOS SER VENCIDOS PELO CANSAÇO?

EO 2021 Opinião | Sónia Gaudêncio, Psicóloga Clínica
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Quando estamos perto de completar um ano, desde que foi detetado o primeiro caso de infeção pela covid-19 em Portugal e decretado o primeiro Estado de Emergência, são muitos os Portugueses que se sentem a chegar ao limite. Que se sentem cansados, saturados com tantas restrições, regras, que vão mudando face aos números da pandemia e à evolução da mesma.

E se é natural e compreensível este cansaço, também é natural e desejável que se mantenham medidas de proteção e determinadas restrições, que embora, não desejáveis no âmbito da recuperação económica e da interação social, são muito importantes que se mantenham, no âmbito da Saúde Pública, para que se consiga travar esta pandemia. Assim sendo, é importante, distinguir o desejo, a vontade de que tudo isto acabe e que, num passe de mágica, tudo voltasse ao normal, às nossas rotinas diárias como as conhecíamos antes da pandemia; da realidade e da necessidade de continuar a travar esta “luta” diária contra a covid-19 que continua a não dar tréguas.

Temos de ter cuidado para não nos deixarmos vencer pelo cansaço. Tal como noutras circunstâncias, por exemplo, geralmente as crianças quando estão a aprender a andar de bicicleta e patins, ao início têm muitos cuidados para não cair, mas quando se sentem mais seguras e mais confiantes, é nessas alturas que se dão as maiores quedas.

Nesta pandemia temos de evitar esse tipo de situação. Ou seja, ao início o medo do desconhecido; a insegurança de não conhecer muito bem o vírus; as suas consequências; ou quais os cuidados que podíamos ter, quase nos paralisou e fez crescer o medo, a ansiedade, o pânico; mas também nos ajudou a adotar os comportamentos corretos, protetores do próprio e dos outros. No entanto, agora, passado quase um ano, muitas pessoas podem ter criado uma “falsa segurança” de que “se não me infetei até agora, provavelmente isso já não vai acontecer” ou “eu até já estive infetado e consegui sobreviver…. Já não preciso de ter tantos cuidados” ou ainda “eu já estou vacinado, por isso posso voltar a fazer a minha vida normal”. E esta falsa segurança aliada ao cansaço das regras (“estou farto disto, se tiver que apanhar o vírus, apanho, quer faça isto ou aquilo…”) e daquilo que se tornou o nosso dia-a-dia devido à pandemia, pode-nos colocar em risco, levando a que não cumpramos as regras ou que tenhamos mais dificuldade em aceitar as restrições.

É importante resistir e persistir. Não queremos ser vencidos pelo cansaço, até porque este cansaço pode fazer com que a nossa perceção de risco diminua. Mas devemos continuar a fazer o que está ao nosso alcance fazer para conseguir controlar a pandemia. Devemos ter noção que o comportamento de cada um contribui para o sucesso desta missão. Todos queremos o mesmo: que isto acabe, o mais depressa possível. Para que isso aconteça, como nos diz a Ordem dos Psicólogos Portugueses, e bem, temos que “continuar a ser parte da solução para este desafio”!!! Por isso, façamos jus ao lema de que “juntos somos mais fortes” e assumamos o nosso papel responsável e cumpridor nesta batalha contra a covid-19. Sempre houve regras que, enquanto sociedade, tivemos e temos de cumprir. Se não receamos por nós, sejamos solidários com quem pertence aos grupos de risco, até porque direta ou indiretamente, se o número de casos subir, todos acabamos por ser afetados.

Mas o que fazer para manter o nosso bem-estar psicológico e o nosso equilíbrio emocional? É importante continuar a envolvermo-nos em atividades que nos tragam alguma satisfação, que nos permitam relaxar e expressar os nossos sentimentos e emoções. Mesmo que não sejam as atividades a que estávamos habituados.

Durante este último ano já superámos vários desafios, já mostrámos ser criativos e com uma fantástica capacidade de adaptação e resiliência.  Outros desafios e crises já foram também superados. Pense nos outros momentos da sua vida em que se teve de adaptar a grandes mudanças e acredite nas suas capacidades. Se se sente mesmo a chegar ao seu limite, saiba que pedir ajuda não é sinónimo de fraqueza, muito pelo contrário. Procure ajuda profissional, se for caso disso.

Não desista, não se deixe vencer pelo cansaço! Continue a cuidar de si e dos seus!

Fonte: documento da OPP “Covid- 19: Fadiga da pandemia”

Sónia Gaudêncio, Psicóloga Clínica e Diretora da ESTIMA +

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