A AJUDA, OU A TORTURA, DOS TRABALHOS DE CASA

EO 2017 Educação | Fonte: Pin – Centro de Desenvolvimento
  • slider

O papel dos trabalhos de casa na dinâmica familiar e no contexto escolar.

"TPC’s", "Trabalhos de Casa", "Deveres", ou como são apelidados pelas próprias, "Tortura Para Crianças" são, na minha prática clínica, um tema recorrente.

Há famílias em que as crianças fazem, autónoma e tranquilamente, os seus trabalhos de casa no quarto, sem que os pais lhes implorem para os fazerem. Sim, existem... Mas, na grande maioria dos casos, este é um momento muito difícil de gerir, seja qual for a idade das crianças. Se às mais pequenas lhes falta a autonomia, às maiores falta-lhes a motivação!

Importa primeiro situar o contexto: Uma criança chega a casa cansada, depois de um dia de escola repleto de trabalhos, atividades e exercícios. Aproxima-se o tão fatídico momento em que terá de se sentar à secretária para dar início à segunda leva de trabalho. Após a penosa rendição, mas ainda debatendo-se contra tal, numa tentativa de adiar o inadiável, o material baila sobre a mesa, as letras querem acompanhar a mesma música, os pedidos de idas à casa de banho repetem-se, o choro, a demora...

Por outro lado, os pais chegam a casa tarde, estão cansados porque trabalharam durante horas, têm de preparar o jantar, assegurar as lides domésticas básicas, auxiliar na higiene dos filhos, isto quando, muitas vezes, não trazem também eles, os seus “trabalhos de casa”. Perante este cenário, sabemos que a predisposição dos pais, para uma experiência que à partida antecipam como árdua e demorada, talvez já não seja a ideal. Surge então a frustração, a prova da impotência em ajudar, a intolerância e o discurso sobe de tom.

É um “segundo emprego” para pais e crianças. Um duelo que acontece todas as noites, em que as lágrimas e os gritos são os despojos de um momento que se queria tranquilo. Apesar da crispação que os trabalhos de casa podem trazer à vida familiar, o certo é que a sua realização constitui um incontornável pilar na aprendizagem. Estes reforçam as aprendizagens da sala, ajudam a criar hábitos de trabalho e promovem a concentração e a memória. Permitem à criança perceber o grau de assimilação da matéria, incutindo-lhe um espírito de desenvolvimento pessoal. Porém, têm também a função de criar hábitos e rotinas de trabalho que vão ser cada vez mais necessários, colocar os pais a par dos conteúdos lecionados em sala de aula, bem como, de aferir a evolução da criança em termos de competências adquiridas. Os deveres são um trabalho da responsabilidade das crianças mas, no qual, os pais têm também um papel ativo: supervisionar, apoiar e garantir que os filhos cumprem as tarefas e resolvem as suas dúvidas, sem, no entanto, fazerem o trabalho por eles!

Será importante encontrar um ambiente de motivação para que as crianças entendam a importância de cumprir as tarefas escolares, porquanto são parte fundamental do seu processo educativo. Para isso, os pais devem incentivá-las mantendo uma relação positiva com elas, baseada na comunicação permanente.

Na mesma linha de raciocínio, surge outro aspeto relevante que será o ponto de vista do professor e a utilidade que este confere aos trabalhos de casa. Para o professor, os trabalhos não devem constituir uma forma de avaliação quantitativa, mas uma ferramenta didáctica, cujo objetivo é o de auxiliar o aluno a evoluir na sua aprendizagem. Quando a quantidade de trabalho é demasiada para a criança em questão, sente-se, imediatamente, um tremendo impacto na dinâmica familiar, causando stress e constituindo-se, na visão dos alunos (e pais), como um castigo. A ideia não é passar a exigência da resposta correta, mas a resposta que irá permitir ao professor compreender o ritmo de trabalho, assim como, a evolução do aluno. Os trabalhos de casa devem ser, assim, entendidos como necessários na busca de uma pedagogia diferenciada.


Texto desenvolvido por,
Carla Cohen – Psicóloga Educacional e Técnica Superior de Educação Especial e Reabilitação

PIN – Progresso Infantil