VIVER VALE (SEMPRE) A PENA

EO 2021 Opinião | Sónia Gaudêncio, Psicóloga Clínica
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Segundo o relatório da OMS “Suicide worldwide 2019”, publicado em Junho deste ano, o suicídio continua a ser uma das principais causas de morte em todo o mundo.

Para termos uma ideia, uma em cada cem mortes deve-se ao suicídio, o que demonstra a urgência de se apostar na sua prevenção, pois muitos destes óbitos podem ser evitados. Setembro é considerado o mês da prevenção do suicídio, visto que se assinala hoje, dia 10 de setembro, o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio.

Esta sensibilização para a temática e a existência de um Plano Nacional de Prevenção do Suicídio pretendem aumentar a literacia em saúde mental e, mais uma vez, lutar contra o estigma e preconceito, mudando atitudes e levando as pessoas a solicitar ajuda especializada, sempre que necessário. Mas valerá a pena fazer esta intervenção juntos dos jovens? Claro que sim. Infelizmente, o suicídio foi a quarta causa de morte entre jovens dos 15 aos 29 anos, depois dos acidentes rodoviários, tuberculose e violência interpessoal.

Em Portugal, cerca de três pessoas morrem por suicídio a cada dia, e muitas mais tentam fazê-lo. Como nos mostram os dados estatísticos, este fenómeno não escolhe classes, género, idade ou região geográfica, por isso temos que estar atentos aos fatores de risco e tentar promover os fatores protetores, principalmente agora que atravessamos uma pandemia com graves consequências, quer ao nível de saúde Pública, quer ao nível da Saúde Psicológica.

Mas quais são os sinais de alerta a que deve estar atento relativamente aos seus filhos adolescentes? Ou quais os principais fatores de risco ao suicídio na adolescência?

- As perturbações do foro psiquiátrico e/ou psicológico, por exemplo, os sintomas de depressão, como tristeza, desesperança, falta de motivação e interesse pela vida fazem com que esta perturbação seja um dos principais fatores de risco ao suicídio;

- Uma perda recente de alguém significativo como um familiar, amigo ou até mesmo um ídolo;

- Existência de um historial de tentativas de suicídio anteriores pelo próprio ou suicídio e/ou tentativas de outro familiar;

- Acontecimentos de vida stressantes, como por exemplo separação dos pais, doença grave ou terminar uma relação romântica;

- Acesso fácil a potenciais meios letais, como armas ou medicação;

- Abuso de substâncias e/ou álcool;

- Baixa autoestima;

- Serem vítimas de bullying, cyberbullying e/ou vítimas de maus-tratos, abusos sexuais;

- Isolamento social;

- Dificuldades em assumir/aceitar a sua orientação sexual.

Se identifica alguns destes fatores de risco no seu filho, saiba que isso não significa, por si só, que ele desenvolva ideação suicida, mas de qualquer forma, significa que precisa de estar alerta e que há algo que pode, e deve, fazer para o ajudar, pois existe um mal-estar que é preciso combater.

Pode começar por tentar promover os fatores protetores, que a evidência científica tem apontado através de vários estudos realizados sobre a temática, de vital importância para que se construam estratégias de prevenção e para que se possam atenuar os efeitos dos fatores de risco de suicídio.

E que fatores protetores são esses?

- Uma boa rede social de apoio que envolva a família, os amigos e a escola, e que promova relações interpessoais satisfatórias e promotoras de bem-estar. Os relacionamentos com os outros, a qualidade dos vínculos afetivos e a perceção de apoio e de serem queridos e amados, desempenham um importante papel para os adolescentes;

- Uma boa autoestima, autoconfiança e autocuidado;

- Uma boa capacidade de resolução de problemas, que ajuda os jovens, em momentos difíceis, a encontrarem formas adequadas de enfrentar as dificuldades, sem desesperança e sem desistir;

- Uma boa capacidade de identificação e expressão dos sentimentos;

- Uma boa comunicação com a família, pois o diálogo com os filhos é essencial, principalmente na fase da adolescência;

- Acesso fácil a uma intervenção clínica, se for caso disso, sem receios, nem estigmas e preconceitos.

Efetivamente, o suicídio na adolescência é um fenómeno complexo e multideterminado, no qual fatores de ordem biológica, psicológica, sociodemográfica e cultural interagem entre si.

Esteja atento aos sinais, às mudanças de comportamento, ao isolamento social, embora alguns destes sinais, em certa medida, sejam eles próprios característicos da adolescência. Mas leve a sério qualquer ameaça de suicídio, mesmo que mais velada ou que considere ser “só” uma chamada de atenção, e acima de tudo, aposte na prevenção.

Adolescentes que conseguem verbalizar os seus sentimentos; que encaram os seus problemas e procuram solucioná-los; que têm uma boa rede social e familiar de apoio; que têm diferentes interesses, hobbies; que sabem ocupar os seus tempos livres e que sabem a quem podem recorrer para pedir ajuda, se for caso disso, serão adolescentes “mais protegidos” desta triste realidade.

A questão do suicídio na adolescência pode e deve ser combatida, evitando-se que mais jovens recorram à morte voluntária como forma de lidar com as dificuldades encontradas ao longo de seu desenvolvimento.

Todos temos um papel a desempenhar nesta prevenção e todos somos chamados a intervir! A vida vale sempre a pena ser vivida!

Sónia Gaudêncio, Psicóloga Clínica e Diretora da ESTIMA +

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