REGRESSO ÀS AULAS

EO 2020 Saúde | Opinião: Dr. Nuno Lobo Antunes
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Ensino presencial e à distância? Como organizar o quotidiano nessas circunstâncias? As questões marcam o recomeço de um ano letivo em tempo de pandemia.

O início das aulas assemelha-se ao mito de Sísifo, castigado pelos deuses a empurrar eternamente uma pedra até ao ponto mais alto da montanha, deixá-la rolar até ao sopé, para de novo a empurrar encosta acima.

Em Setembro será diferente. A pandemia obscureceu o futuro, retirou-lhe previsibilidade. A comoção anual da compra do material escolar, da mochila nova ou a efervescência de “what´s up” para saber quem ficou na turma de quem, esmoreceu este ano.

Pende uma nuvem cinzenta de incerteza sobre as famílias. De que forma a anunciada crise económica vai afectar emprego e rendimentos? Ensino presencial e à distância? Como organizar o quotidiano nessas circunstâncias? Como convencer adolescentes a manter as distâncias socias e a usar máscara fora da vista dos adultos? Que reservas quanto à proximidade com os mais velhos, para quem os afetos são, talvez, o último prazer que lhes resta?

Creio que estas são algumas das perguntas que ocupam a mente de pais e outros responsáveis.

Temo que a premência dessas questões leve a que se perca a oportunidade de reflectir sobre o que a extraordinária experiência da quarentena nos revelou.

Em primeiro lugar o fantástico potencial das novas tecnologias como forma aliciante de interacção e comunicação. Fonte inesgotável de material atraente para ensinar História, Biologia, Geografia… Antevejo a vantagem de o TPC não ser estudar páginas 23 a 28 do Manual de Física, mas sim ver as apresentações “x” e “y” do canal do “you tube”.

Na internet encontram-se as melhores aulas sob as formas mais atraentes. Caberá aos professores ajudar os alunos a encontrá-las. Harvard está à distância de um dedo.

Temos, contudo, um problema: A proficiência digital dos professores é muito variável, e os que se aproximam da idade da reforma e os menos motivados, poderão não ter o entusiasmo ou vontade para imergir nesse novo mundo. O que levanta outra questão: A enorme distância de meios entre as diferentes famílias e estratos económicos.

É uma dificuldade que a minha peregrinação mensal pelo país bem documenta. Quantas famílias não têm computador, ou apenas um telemóvel disputado por diversas crianças? Outras há que nem de TV dispõem. E a variabilidade na qualidade da internet? A desigualdade atravessa todo o planeta: Na Europa do Leste 1/3 dos habitantes não tem acesso à rede, tal como 40% dos africanos.

Conheço razoavelmente o interior algarvio e alentejano, e as terras do Norte, e sei bem a diferença que existe para os centros urbanos e, mesmo aí, entre as diversas zonas residenciais. A Escola aproxima, a tecnologia distancia, não por si mesma (pelo contrário), mas porque não é servida à mesa de todos.

E as múltiplas outras funções que a escola providencia e que o ensino à distância não fornece? É que a internet informa, mas a escola educa, alimenta e protege.

Entre as centenas de crianças que acompanho, a escola em casa foi, para alguns, uma bênção, para outros, uma tortura. Faríamos bem em tentar perceber porque tantas crianças vêm a escola como local inseguro, e mudar o que é inaceitável.

As situações de crise interrogam os nossos hábitos e rotinas. Que o drama da doença, da morte, do desemprego e queda de rendimentos nos faça olhar para a nossa sociedade, e se transforme na grande oportunidade para um impulso de aperfeiçoamento e justiça.

Dr. Nuno Lobo Antunes
Neuropediatra
Diretor Clínico do PIN-Em Todas as Fases da Vida

Nota: Este artigo foi escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico