NATAL 2020

EO 2020 Saúde | Opinião: Dr. Nuno Lobo Antunes
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No momento em que escrevo desconheço as limitações impostas este Natal. De qualquer forma, é um Natal em que o medo se senta à mesa, e em muitas famílias há cadeiras vazias.


Para um número crescente de pessoas o carácter religioso do Natal dissolveu-se para dar lugar à festa da família. De todo o lado congregam-se parentes cuja afinidade consiste num apelido comum e na partilha de memórias. É uma festa de clãs que reforça a rede de laços, momentos de intersecção de vidas que no quotidiano se distanciam, e no Natal convergem. Não é indiferente o ponto de reunião. Onde o Natal se celebra é, nesse dia, o centro do universo.

É uma festa sobretudo das crianças e dos velhos. Os primeiros representam a euforia das novas vidas que prolongam gerações, os velhos são acolhidos com especial cuidado por serem a génese do rebanho. É a corrente da vida.

Este ano a sombra da doença e da morte paira nos encontros fugazes, quanto mais em celebrações em espaços exíguos que o frio mantém fechados. O Natal é a festa da proximidade, mas como festejá-la se a distância é quem reina? E depois há tanto a temer: o emprego incerto, a crise anunciada, a angústia entre o risco de contrair a doença e a vacina cuja segurança é uma incógnita.

Os velhos a quem não restam muitos natais ver-se-ão excluídos da celebração que merecem, eles a quem o corpo que definha retira lentamente a alegria de viver. A sua fragilidade, que no Natal é acolhida com particular ternura, vai acentuar este ano o esquecimento.

É assim, vai ser assim. A verdade é que este Natal não vai haver Natal. E mesmo que haja não é a mesma coisa. Nem coisa parecida. Este ano o medo circula nos corredores, está presente na desconfiança da proximidade de um corpo que se toca. Seremos menos, estaremos mais longe. Se assim não for pagaremos com vidas a imprudência.

Em boa verdade não há solução. Temos de nos resignar como muitas outras vezes em que na vida as expectativas foram desfeitas.

Passei uma vez a época natalícia no Rio de Janeiro. Fiquei perplexo com o Pai Natal a tocar sineta para raparigas em bikini. O anacronismo fazia sorrir. Imagino que o carioca também estranhe um Natal de frio e chuva.

Talvez pudéssemos este ano trocar de lugar. Confundir Norte e Sul. No fundo, se houve alguma coisa que esta pandemia teve de bom foi fazer-nos perceber que estamos todos ligados.

Proponho mudar este Natal para Agosto, e invocar então o Papai Noel e a sua Amazon finlandesa. Imagino a pandemia controlada e, de novo, a luz e o mar a celebrarem a alegria de viver. Reúna-se então a família, novos e velhos, troquem-se presentes, misturem-se rabanadas e gelados. Esqueçam-se preocupações. Os abraços serão mais fortes, os beijos mais sentidos. A verdade é que não se sabe quando o menino Jesus nasceu, mas tenho para mim que foi num dia de sol.


Dr. Nuno Lobo Antunes
Neuropediatra
Diretor Clínico do PIN-Em Todas as Fases da Vida

Nota: Este artigo foi escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico