SAÚDE VISUAL DA CRIANÇA EM TEMPO DE PANDEMIA

EO 2021 Saúde
slider

O que devemos fazer para a saúde ocular em tempos de confinamento covid-19? O uso de dispositivos digitais faz mal aos olhos das crianças?

Estas questões são recorrentemente colocadas pelos pais e educadores nas consultas de Oftalmologia, traduzindo uma preocupação crescente em paralelo com o aumento do uso de ferramentas digitais por crianças, quer para atividades de lazer, quer de aprendizagem. Apesar das recomendações da Sociedade Americana de Pediatria indicarem prudência no seu uso por razões que em muito ultrapassam as questões visuais e até o desaconselharem em crianças com idade inferior a 18 meses, é sabido que muitas são expostas a “écrans” desde tenra idade.

Os bebés nascem com um sistema visual muito imaturo, cujo desenvolvimento se estende ao longo de toda a infância, necessitando dos estímulos apropriados para que o seu desenvolvimento se processe da melhor maneira.

A atual pandemia covid-19 que se iniciou há um ano obrigou a medidas extremas, com imposição de períodos de confinamento com durações variáveis, com profundo impacto no estilo de vida. As famílias tiveram de se adaptar à restrição dos contactos sociais, ao distanciamento físico, à proibição de poderem sair das suas residências e realizar atividades no exterior e à necessidade imperiosa de recorrer às interfaces informáticas como janela para o mundo, para as atividades profissionais e para as atividades escolares.

Neste contexto, o que podemos então fazer pela saúde ocular e visual das crianças?

Fatores prejudiciais à saúde ocular e visual
A imposição do uso de máscaras está associada ao aumento de queixas de olho seco e à maior incidência e gravidade das doenças da superfície ocular. Sendo uma ferramenta imprescindível para ajudar a controlar a propagação do Sars-COV-2, o seu uso não é negociável, mas podem e devem ser adotadas medidas que o torne menos penoso. Assim, devem ser ensaiados vários modelos de máscara e usado o que melhor se adapte ao rosto da criança. Ainda, a máscara deve ser ajustada o melhor possível à volta da região do nariz e olhos de maneira a minimizar a saída de ar e o contacto com patógenos que normalmente só habitam nas regiões da boca e nariz.

As atividades dentro de casa, a focagem a curtas distâncias (<20-30 cm), o uso de lâmpadas LED e as baixas luminosidades são conhecidos fatores prejudiciais, pelo que devemos promover o máximo de atividades possíveis no exterior (no jardim, na varanda, à janela), aproveitando a luz natural.

Não é consensual se o uso de dispositivos digitais é prejudicial para a saúde ocular, dado que os múltiplos estudos publicados não apresentam uma coerência científica total que permita concluir se são maus por si só. Em casos muito específicos podem até ser usados de maneira controlada com apoio pelo Oftalmologista como ferramenta para estimulação e reabilitação visual. No entanto, a emissão de raios de curto comprimento de onda, o uso a curta distância (mais associado aos smartphones e tablets) com aumento do esforço acomodativo (de focagem), com associação eventual a aumento do cansaço visual e potencial para induzir estrabismos (desalinhamento dos eixos oculares) agudos e a associação à diminuição do ritmo de pestanejo, promovendo o olho seco são sem dúvida preocupações que devemos ter em mente. Por último, existem evidências crescentes da associação entre o uso dos dispositivos digitais e o aparecimento e evolução da miopia (incapacidade de ver nítido ao longe). A chave está no uso racional das ferramentas digitais, com supervisão pelos pais dos conteúdos e do tempo despendido neste tipo de atividades.

Fatores protetores/promotores da saúde ocular e visual
O principal fator para um desenvolvimento saudável é a avaliação periódica em consultas de Oftalmologia, sempre que possível um oftalmologista pediátrico. A primeira consulta deve ocorrer preferencialmente antes dos três anos de idade, na ausência de queixas e ainda mais precocemente na suspeita de alterações oftalmológicas ou antecedentes familiares relevantes. A avaliação das visões com cada um dos olhos e eventual correção dos erros refrativos com uso de óculos quando assim se impuser e a deteção e correção das alterações do equilíbrio oculomotor, além da avaliação da normalidade das restantes estruturas e funções da visão é de capital importância na infância.

A promoção de atividades ao ar livre, em espaços abertos e aproveitando a luminosidade natural, são fatores promotores de boa saúde ocular. Por exemplo, a probabilidade de desenvolver miopia diminui em um terço quando se aumenta de até 5h/exposição por semana em ambientes ao ar livre para um mínimo de 14h/semana.

A luz natural promove a libertação pelas células da retina (zona nobre do olho, onde se localizam as células que captam as imagens) de dopamina, que diminui o ritmo de crescimento do olho, ajudando a estabilizar a graduação.  Paralelamente a luz solar potencia igualmente o aumento de concentrações de 25-hidroxivitamina D, estas também associadas a menor risco de desenvolver miopia.
As pausas periódicas das atividades realizadas a curta distância, como a leitura ou o uso de smartphones ou tablets, é igualmente uma medida de extrema importância. A regra 20/20/20, (20 minutos de atividades ao perto/ 20 segundos mínimos de pausa/ desvio do olhar para uma distância mínima de 20 pés (6 metros)), deve ser adotada sempre que possível. Estas pausas permitem melhorar a lubrificação ocular e relaxar a acomodação, isto é, o esforço muscular que o olho faz para conseguir focar os objetos ao perto.

Em resumo,
A saúde ocular e visual das crianças está em estreita dependência do equilíbrio entre vários fatores. Durante o confinamento, as ferramentas digitais devem ser geridas racionalmente, devendo o seu uso ser contrabalançado sempre que possível com as medidas promotoras de um estilo de vida ocular saudável, como a exposição ao ar livre e à luz solar.

Independentemente da existência ou não de queixas, as crianças devem ser observadas periodicamente em consultas de Oftalmologia Pediátrica, de forma garantir a melhor saúde ocular e visual possíveis.

Autor: Ana Vide Escada, Médica Oftalmologista Pediátrica, Coordenadora do Departamento de Oftalmologia Pediátrica e Estrabismo do CRIO-HGO - CUF Tejo e CUF Almada, Secretária Geral Adjunta da Sociedade Portuguesa de Oftalmologia

Pub
Pub