RESIDÊNCIA ALTERNADA

EO 2016 Divórcio | Fonte: Up To Kids®
  • slider

Residência alternada – instabilidade pré-concebida ou altruísmo equilibrado?

Pedem-me com cada vez maior frequência que me pronuncie sobre o Regime de Residência Alternada.

Que explique porque é que agora parece estar na moda, porque é que de repente tem tantos defensores e parece ser um modelo ideal após a decisão de separação por parte dos progenitores.

Pois bem, a Residência Alternada pressupõe que após a separação dos pais, os menores estejam com ambos por períodos de tempo equiparados.

Não falamos de apenas dar o mesmo tempo ao pai e à mãe. Mas falamos idealmente de uma rotina em que os menores convivam com o pai e com a mãe, trazendo desta forma a possibilidade de ambos estarem envolvidos no seu dia-a-dia, como alegadamente acontecia enquanto eram casados.

Pressupõe que as crianças vivam por períodos de tempo iguais e alternados em casa da mãe e em casa do pai.

Se à partida este cenário parece ser o ideal? – Sim, sem dúvida – diremos todos.

Mas fora idealismos cabe-nos a consciência da realidade, aquela que cada uma das nossas crianças vive no seu dia-a-dia, de facto.

Da experiência no trabalho diário com crianças e com os pais observo grandes dificuldades de manutenção de rotinas adequadas e equilibradas em famílias ditas estruturadas... Observo muitas dificuldades de comunicação nos casais cuja missão de educar se torna cada vez mais complexa com as exigências profissionais e com a multiplicidade de tarefas que a sociedade impõe a cada elemento da família desde os mais novos aos mais velhos…

Observo cada vez mais a fragilidade emocional dos pais, que confrontados com a necessidade de darem resposta a todas as áreas da vida pessoal, familiar e profissional delegam para ultimo plano, de forma inconsciente, aquilo que de mais relevante se apresenta para o pleno desenvolvimento das crianças – a estabilidade relacional e emocional familiar.

Ora, perante a separação/divórcio, toda a dinâmica se torna ainda mais complexa, e quando sou questionada acerca da Residência Alternada, invariavelmente caio do pedestal do ideal para a dura realidade do concreto.

Defendo que a Residência Alternada tem que ser uma opção e um ponto de partida sempre que os adultos envolvidos se dediquem a um permanente exercício de altruísmo, onde deixam de parte as raivas e se predispõem a educar em equipa. Deixa de haver espaço à tradicional educação em casal mas mantém-se a necessidade de um trabalho coordenado com o outro progenitor, a bem dos filhos, a bem da sua estabilidade.

Exige que ambos acordem em rotinas diárias semelhantes e que ambos comuniquem entre si de forma assertiva; exige que consigam estabelecer e manter com os seus filhos uma relação de confiança e segurança que os conduza de forma estável.

O que cria instabilidade não é o facto de passarem a viver alternadamente em duas casas, estou convicta.

O que desestabiliza é a alternância de rotinas e de expectativas; é a oscilação entre ambientes securizantes e outros desorganizados ou confusos.

Com isto, quero apenas concluir que na minha perspetiva a Residência Alternada pode e deve ser um ponto de partida. Muito mais exigente do ponto de vista da organização e da disponibilidade dos progenitores.

Será sempre bom partirmos do princípio que as crianças se adaptam bem a novas dinâmicas familiares e a novas rotinas, sempre que os adultos que as rodeiam estejam bem e seguros dos seus papéis, e não podemos defender um modelo único para todas as famílias, pois cada uma delas é singular.

O pai e a mãe separam-se e para agravar tudo atribuíamos um papel de pouca competência à figura paterna, como se o pai tivesse perdido a capacidade de o ser só porque deixou de viver na mesma casa que a mãe…

Agora que estão separados, ambos têm que proporcionar aos filhos o seu pleno direito a manterem os laços e a sentirem-se acompanhados por ambos, pai e mãe, independentemente das exigências que as novas rotinas possam trazer. Cabe aos pais definirem em conjunto em que condições.

A casa da mãe e a casa do pai podem muito bem ser o equilíbrio que antes nenhum dos elementos da família conhecia; mas para que este modelo funcione é preciso que seja desejado por ambos, pai e mãe. E da experiência que tenho é quase que obrigatório que esta adaptação se faça com acompanhamento especializado, que oriente e guie os pais neste novo desafio.

Sempre que não haja a capacidade de cumprir estas regras básicas a opção pelo modelo de Residência Alternada fica comprometida, e com ela toda a possibilidade de êxito no pleno desenvolvimento dos menores.

Por Maria Portugal, Divorcio.com.pt



Conteúdo publicado originalmente em Up To Kids®
Consulte Aqui