PAIS À BEIRA DE UM ATAQUE DE NERVOS

EO 2020 Educação | Fonte: Pin - Centro de Desenvolvimento
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Ser pai/mãe é inequivocamente uma das experiências mais enriquecedoras que a vida pode proporcionar, mas igualmente uma jornada repleta de desafios. Temos muito poucas certezas, quando educamos. Aprendemos a preencher um árduo currículo de tentativas e erros.

Não há mapas suficientes que nos orientem nesta expedição. Cada filho é diferente do outro, cada idade é uma fase única e distinta da anterior. Nenhum pai ou mãe tem 100% de certezas de que o faz e decide é realmente o melhor a fazer. Nenhum pai ou mãe sabe tudo, nem nenhum deles é sempre igual e consistente ao longo da sua própria história de vida. Por isso, a grande maioria dos pais tenta e esforça-se para que os seus filhos sejam bons seres humanos, para que tenham sucesso e bem-estar, para que nada lhes falte, mesmo durante tempestades e intempéries.

Há um ano atrás, nenhum pai ou mãe imaginaria que a sua vida, e a de milhares de tantas outras famílias, mudaria tão drasticamente. No primeiro trimestre de 2020, todas foram apanhadas de surpresa pela pandemia por coronavírus que, rapidamente, se alastrou pelo mundo inteiro. Medidas de segurança atropelaram-se desde então, umas atrás das outras. Pela primeira vez na nossa história, fomos obrigados a ficar em casa em prol do bem comum. Pais ficaram sem poder estar com os filhos, avós não abraçaram os netos. Tivemos de viver fechados, isolados, a metros de distância uns dos outros com receio de contaminar ou ser contaminados por quem amamos ou por quem nem sequer conhecemos.

Apesar dos receios e dúvidas, fizemos o que o Ser Humano tão bem aprendeu e aperfeiçoou ao longo de 350 mil anos de evolução: adaptámo-nos. Os pais de crianças e adolescentes foram dos primeiros a mobilizar-se. Encheram as despensas de comida e papel higiénico, organizaram horários e rotinas dentro de quatro paredes, negociaram regras e rotinas alternativas, inventaram formas de manterem o contacto com amigos e familiares, descobriram brincadeiras criativas, esforçaram-se para acompanhar a telescola, as aulas online, as novas regras de avaliação, a gestão da conexão da internet, (as tentativas de fazer) atividade física, as brigas entre irmãos, o aborrecimento… Cada família enfrentou desafios únicos, mas todas foram obrigadas a esforços extra, empurradas para a mudança. Com todas as suas particularidades únicas, à sua maneira, cada família foi, assim, garantindo o “novo normal”.

Durante este processo, e logo que se viram confinados, muitos pais e filhos procuraram fazer um exercício essencial: “O que podemos aproveitar para fazer agora que estamos fechados em casa? O que nos faz falta? Do que temos saudades? Do que nos queixávamos quando, na correria do dia-a-dia, não nos sobrava tempo para nada? O que gostaríamos que acontecesse neste período em que estamos todos em casa?”

Para muitos pais, esta foi uma oportunidade para voltarem a “estar” com os seus filhos. Viveram-se muitos, pequenos e deliciosos momentos, como se voltassem a conhecer-se e a conectar-se, como se pudessem voltar às férias de verão. Porém, não eram férias e não puderam ir para o Algarve. Estiveram junto de uns, afastados de outros, porque as circunstâncias assim obrigaram. Foram, pois, procurando o outro lado da moeda. De novo, a conexão, comunicar, reajustar valores, relembrar da importância de nos cuidarmos e de protegermos quem é mais vulnerável, mesmo quando os afetos e a saudade apertavam.

Muitos pais, mesmo fatigados e assoberbados, foram, de forma muito sábia, lidando com tudo isto da melhor forma. Uns criaram horários de sono e planos de alimentação saudáveis, inventaram atividades criativas e de expressão, criaram novas regras e limites para que o respeito e o espaço de cada um fossem mantidos, alguns promoveram exercício físico, muitos voltaram aos jogos de tabuleiro, outros voltaram simplesmente a conversar uns com os outros.

Paralelamente, a vida não parou e nem todos conseguiram manter-se tranquilos e adaptados. Vários atingiram mesmo o ponto de rutura. Para muitos cuidadores, todas as mudanças que a pandemia exigiu, trouxeram consigo cansaço, stress e, até exaustão. As exigências do teletrabalho, a conciliação família-trabalho, a incerteza do lay-off, a gestão da casa, a falta de apoio de familiares, amigos e instituições, a necessidade de continuarem a manter os seus filhos saudáveis, bem-dispostos e motivados… Ouvi várias queixas nesta fase. Alguns pais tinham tempo a mais para preencher, outros tinham tempo a menos (mesmo estando em casa). Uns tinham de ajudar os filhos a lidarem com o stress, muitos tinham de auto-regular o seu próprio stress. Imensos, tiveram a preocupação acrescida que cuidarem ou acompanharem de melhor forma possível os seus próprios pais, alguns deles doentes ou deprimidos. Uma mãe partilhou num estudo que realizámos: “Tenho de ser mãe, mulher, doméstica, pseudo-educadora, tenho de trabalhar em casa o tempo todo”. Como ela, muitos pais se sentiram (ou ainda sentem) à beira de um ataque de nervos!

Hoje, caros leitores, não vos quero trazer soluções ou dicas, mas sim reflexões. O que nos trouxe a pandemia efetivamente de diferente? E como é que ela revelou padrões que não sabemos se ainda nos fazem felizes? A maior parte dos pais quer proteger os filhos do impacto da pandemia. Muitos desejam manter a vida que tinham anteriormente, as mesmas rotinas e objetivos, os mesmos padrões de exigência, como se esta imensa crise global não nos pudesse afetar. Mas será mesmo possível fazê-lo? Podemos impedir completamente o sofrimento dos nossos filhos? E se o fizermos, estaremos mesmo a ajudá-los?

A vida não é fácil. O mundo nem sempre é um lugar seguro. A certeza muitas vezes não é mais do que uma ilusão de controlar a real incerteza do futuro. Então, pensemos: Que pai ou mãe quero eu ser? Como quero que os meus filhos se recordem de mim?
Talvez seja importante deixarmos de tentar ser pais “perfeitos” e super-heróis. Podemos simplesmente ser pais genuínos, verdadeiros. Não precisamos de pintar o mundo de cor-de-rosa e, por exemplo, escondermos dos nossos filhos que a avó está doente, que estamos preocupados ou mesmo que, infelizmente, está mal e não sabemos ao certo o que pode acontecer. Podemos sim, com verdade e abertura, lembrar que estar tristes e ansiosos, que está a ser difícil, o que é natural já que gostamos tanto dela.

Sublinhar que estamos juntos nas adversidades e que temos esperança no trabalho de cientistas e profissionais de saúde que todos os dias dão o seu melhor.

A pandemia trouxe desde cedo a necessidade de pensarmos melhor na vida “em piloto automático” que temos, enquanto pais. É importante deixarmos as expectativas que nos impõem ou que nos impusemos a nós durante anos, acerca do que é ser “bom pai/boa mãe”. Não é possível ser tantas coisas, durante todo o tempo, muito menos durante uma pandemia. Podemos eliminar ideais e padrões de exigência que já não nos servem. Também podemos delegar. Delegar não é uma tarefa fácil para muitos pais, talvez porque achem que se estão a demitir das suas responsabilidades.

Porém, podemos sempre ver a outra face deste puzzle. Não fazemos melhor quando fazemos juntos? Inclusive, não estamos a ensinar aos nossos filhos que delegar é partilhar responsabilidade para que o fardo seja menos pesado sobre uma ou duas pessoas? Delegar tarefas sobre outros adultos ou mesmo nos nossos filhos, é importante forma de ensinarmos como trabalhar em equipa, a ser generoso.

Por sua vez, é importante também aprendermos a priorizar o que é efetivamente fundamental. Em tempos de pandemia, talvez não seja assim tão necessário estarmos obcecados com as notas dos nossos filhos ou se estamos a ser bons “explicadores”, por exemplo. Num momento global de incerteza e em que a saúde é um bem primordial em risco, importa cuidarmos do bem-estar físico, psicológico, emocional e social dos que mais amamos. Reorganizarmos as nossas prioridades, alinhando-nos com os nossos verdadeiros valores, talvez nos ajude a lidarmos melhor com esta fase tão desafiante.

E, por último, não tenhamos receio de fazer o que sentirmos estar certo. Talvez os nossos filhos não precisem de pais exaustos, a correr desenfreadamente para que nada lhes falte. Não precisam de pais perfeitos, nem de se sentirem pressionados para o serem. Possivelmente, os nossos filhos precisam, acima de tudo, de pais que estejam disponíveis para comunicarem e para se ligarem a eles. Pais que também cuidam deles, que sentem que têm o direito de tirar algum tempo e a tratar bem de si. Pais que, em vez de reagirem e imporem rigidamente o seu ponto de vista, toleram a sua frustração, irritação, tristeza, zanga ou ansiedade sem se deixarem consumir por elas.  Mas como podemos fazer isso num dia-a-dia tão preenchido? Podemos parar, respirar, fazer pausas conscientes, criarmos momentos para estarmos em verdade com eles, mas também connosco (a sós). Em vez de estarmos sempre em esforço ou a gritar, podemos ser sinceros e admitir que estamos a passar por um momento duro. Podemos reconhecer também que não temos todas as respostas. Que nem sempre percebemos o que é melhor e como agir, mas que, acima de tudo, estamos a dar o nosso melhor. Podemos ainda aceitar a incerteza sem nos sentirmos ameaçados ou diminuídos por não termos a resposta para tudo.

Pais genuínos não são frágeis, são verdadeiramente corajosos, pois conseguem dizer o que sentem, partilhá-lo com os seus filhos e envolvê-los num plano para que todos fiquem bem. Não tenhamos dúvidas: os nossos filhos são atentos e perspicazes, e precisam de pais que saibam confiar neles e os envolvam. Não há receitas e cada pai agirá de acordo com o que o seu sentir lhe ditar.

Todavia, podemos aconselhar-vos a modelarem sinceridade, a empatizarem e escutarem genuinamente os vosso filhos, a cultivarem o respeito e a generosidade, a serem flexíveis, a valorizarem os esforços que todos estão a fazer, a nomearem o que cada um está a sentir, a ouvirem em vez de dizerem o que acham que “é suposto”, a trabalharem com todos para resolverem os vossos problemas, e a agradecerem... Mesmo em tempos de nevoeiro há tantas coisas que tomamos como adquiridas, às quais nem sempre prestamos atenção e que nos vamos esquecendo a agradecer…

Se a dor faz parte do crescimento, então estamos juntos para abraçar os nossos filhos em todos os momentos difíceis. Porém, não tenhamos medo da nossa própria dor. Somos os cuidadores dos nossos filhos, aprendamos a cuidar de nós, a acolher as nossas dificuldades e emoções mais difíceis, a generosamente pedir ajuda quando também nós precisamos dela. Queremos todos educar bons seres humanos. Comecemos por nos educar e nós, cuidando-nos.

PS: Se é pai ou mãe de menores entre os 2 e os 18 anos e deseja colaborar no estudo sobre esta temática, abra o link que se encontra abaixo e dê o seu contributo.

Autor:
Ana Beato, Psicóloga Clínica