OS “CONTÁGIOS” DA ANSIEDADE

EO 2021 Opinião | Sónia Gaudêncio, Psicóloga Clínica
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O aumento dos casos de ansiedade, a nível mundial, é uma das consequências desta pandemia que muito tem afetado a nossa Saúde Psicológica. O estudo “Saúde Mental em Tempos de Pandemia (SM-COVID19)” revelou que cerca de 25% dos participantes apresenta sintomas moderados a graves de ansiedade, depressão e stress pós-traumático.

Estes resultados confirmam-nos o que já calculávamos: as alterações provocadas pela covid-19 no quotidiano das pessoas tiveram impactos na sua saúde mental e bem-estar. No nosso dia a dia também nos vamos apercebendo disso, tendo conhecimento de pessoas de todas as idades (crianças, jovens, adultos) que relatam mais insónias, mais irritabilidade, mais sintomatologia ansiogénica, depressiva e psicossomática (ex.: dores de cabeça, de barriga, de estômago, sem causa médica que o justifique).

Focando-me hoje na ansiedade, quero abordar algumas das preocupações dos pais e sugerir formas de poder lidar com elas, ajudando as crianças a saberem gerir a sua ansiedade, para que esta “não tome conta da sua vida”.

Será a ansiedade “contagiosa”? Será que os meus filhos se apercebem da minha ansiedade e ficam perturbados com isso? Será que os prejudica? A que sinais devo estar atento(a)? Que estratégias podemos utilizar para diminuir essa ansiedade?
Sentir ansiedade em algum momento do nosso dia ou da nossa vida é extremamente natural, por exemplo em momentos de mudança (seja de casa, de emprego), momentos de avaliação e/ou de preocupação com algum percalço, alguma notícia menos boa, que são momentos que geram sempre incertezas, inseguranças e, por isso mesmo, criam alguma angústia. Mas quando essa angústia se torna quase permanente e prejudica o nosso desempenho diário, a nossa qualidade de vida, ou nos impossibilita de fazer várias coisas, é preciso perceber o que se passa e pedir ajuda. Até porque efetivamente, uma ansiedade exacerbada dos pais pode ser prejudicial ao desenvolvimento infantil, não só a nível físico como emocional.

E, como já referi, as situações de ansiedade têm-se potenciado, quer em pais, quer em filhos, face à situação de instabilidade e insegurança gerada por esta pandemia. Logo é importante estarmos atentos para podermos intervir atempadamente e pedir ajuda profissional, quer para pais quer para filhos, se for caso disso.

É que, efetivamente, a ansiedade dos pais também pode “contagiar” os filhos. Nunca nos podemos esquecer que os pais são exemplos/modelos para os filhos e que as crianças absorvem muito do que nos veem fazer enquanto pais, atentando na forma como reagimos às situações. Isto é, se as crianças virem os pais a reagir, de forma mais descontrolada ou desajustada, a determinadas situações e a não saber gerir as suas preocupações, manifestando uma ansiedade exacerbada, a mensagem que vão captar é que o mundo não é um lugar seguro para viverem e que ninguém, nem mesmo os seus pais, serão capazes de protegê-los dos “perigos” da vida. O que leva a que também elas desenvolvam sintomatologia ansiogénica.

Ou seja, apesar de poder haver uma predisposição genética, os comportamentos ansiosos podem ser aprendidos, bem como o comportamento ansioso de uma criança também pode aumentar o comportamento ansioso dos pais.

E quais são os sinais a que os pais devem estar atentos?
É sempre importante quando ocorrem mudanças de comportamento das crianças, principalmente que se mantenham por algum tempo, conversar com elas e perceber o que se passa. Mais ainda quando é algo que interfere com o funcionamento diário (na escola, em casa ou com os amigos).

Alguns desses sinais podem ser:
- Alterações no padrão do sono;
- Alterações na alimentação (comer em demasia ou comer menos do que o habitual);
- Queixas sistemáticas de dores de cabeça, de barriga ou de estômago;
- Preocupação exacerbada com coisas que habitualmente não os preocupavam;
- Perfecionismo e autocrítica excessiva;
- Sensibilidade exagerada às críticas;
- Fazer birras mais frequentes e andar mais irritável;
- Chorar com mais facilidade;
- Isolar-se ou, pelo contrário, ter medo de estar sozinho (mesmo em situações que era habitual ficar só);
- Estar mais calado.

Mas que estratégias podem utilizar para ajudar o seu filho a controlar a ansiedade?
Quando os pais são exemplos e demonstram estratégias saudáveis para lidar com o stress e a ansiedade, as crianças aprendem que também podem lidar com os seus fatores stressantes e tornam-se mais confiantes.

Algumas dessas estratégias são:
- Ensinar técnicas de relaxamento (existem vários vídeos no YouTube a que pode recorrer ou simplesmente incentivá-los a contar até 10, respirando profunda e calmamente; utilizar técnicas de imagética, ou seja, imaginar-se num local que o deixa calmo e seguro; ensinar a recorrer à respiração abdominal);
- Utilizar técnicas de mindfulness (existem vários jogos que já recorrem a estas estratégias);
- Fazer exercícios de ioga para crianças com eles e proporcionar momentos divertidos em família;
- Fazer caminhadas;
- Encontrar, em conjunto, atividades que os “distraiam” das suas preocupações;
- Fazer um mural da gratidão, focando nas coisas boas e positivas do dia;
- Criar uma “caixa ou frasco das preocupações” onde vai colocar as preocupações do dia para se conseguir desapegar delas (pode aproveitar esses momentos para falar um pouco sobre isso, perceber o que os preocupa e ajudar a encontrar solução ou formas mais adequadas de gerir cada uma dessas preocupações);
- Incentivar a criar um registo dos “pensamentos ansiosos”, tentando encontrar pensamentos alternativos que os possam “derrotar” (é um trabalho mais a nível cognitivo, mais difícil de fazer com crianças mais pequenas).

Acima de tudo, é essencial que os pais mantenham a calma.

Já percebemos que a ansiedade pode ser “contagiosa”, mas a boa notícia é que os pais podem ter um papel ativo na redução da ansiedade dos seus filhos, mudando, caso sejam também ansiosos, o seu próprio comportamento e modelando estratégias eficazes de coping. Isso será meio caminho andado, pois se os filhos observarem que os pais conseguem manter a calma, irão com mais facilidade imitar esses comportamentos.

A ansiedade, não é apenas o estar nervoso ou preocupado. Esses sentimentos todos nós temos em várias situações do nosso dia-a-dia, fazem parte das nossas vivências e até podem ser benéficos e ajudar-nos a focar, a ser mais responsáveis, etc. A ansiedade é muito mais que isso e é um assunto sério que deve ser encarado e tratado como tal, pois pode afetar tudo, desde a escola, o trabalho, a saúde (física e psicológica), os relacionamentos.

Aprender a identificar os sinais e encontrar estratégias de coping que funcionem, consigo e com os seus filhos, pode fazer uma enorme diferença na vossa qualidade de vida. E, não se esqueça, em algumas situações, a solução mais acertada é pedir ajuda profissional. Nesses casos, não hesite. A sua saúde psicológica e a dos seus filhos deve ser, cada vez mais, uma prioridade. Não deixe que a ansiedade “contagie” a sua vida e a sua família!

Sónia Gaudêncio, Psicóloga Clínica e Diretora da ESTIMA +

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