O ESTRANHO FENÓMENO DOS “GRUPOS DE MÃES”

EO 2021 Opinião | Sónia Gaudêncio, Psicóloga Clínica
  • slider

Os grupos de mães que surgem nas redes sociais, de fácil adesão, chegam cheios de boas intenções e são (ou deveriam ser) um espaço de partilha de vivências e experiências relacionadas com os filhos e com o exercício da parentalidade.

Um lugar ideal para as mães encontrarem respostas para algumas das suas dúvidas e inseguranças (sim, porque todas nós as temos). As vantagens desses grupos são efetivamente, a ajuda que se pode conseguir em alguns assuntos, tão simples como: referências de locais para festas infantis; quem faz os melhores bolos de aniversário; onde encontrar determinados artigos, brinquedos; dicas de atividades para fazer com os filhos, ou até algumas referências e recomendações de escolas e pediatras. 

No entanto, nem sempre os temas de conversa são tão simples ou pacíficos nestes grupos. E, infelizmente, muitas vezes, assiste-se, rapidamente, a uma enorme discussão e troca de insultos, muitos deles pessoais, entre pessoas que nem se conhecem, mas que se julgam e se criticam… só porque sim, ou porque se sentem “protegidas” atrás de um ecrã de telemóvel ou de um computador. 

Verdade que vivemos numa democracia e num país onde existe liberdade de expressão, mas é importante não confundir essa liberdade de expressão com julgamentos atrozes, maior parte das vezes sem sentido, só porque não partilhamos da mesma opinião. 

Nesta altura de pandemia, com a “fadiga pandémica” a vir ao de cima, julgo que a tolerância e a paciência das pessoas diminuíram e, consequentemente, os níveis de agressividade têm aumentado nesses grupos de mães. O que é uma pena, porque algo que foi criado com propósitos nobres e úteis, para partilha de informações, troca de vivências, que levaria a um sentimento de pertença e de identificação (ex.: afinal não sou a única a passar por esta ou aquela experiência), rapidamente se transformou num “campo de batalha” onde todas querem ter razão e argumentar, até não existirem mais  argumentos lógicos e/ou racionais, e passar para o insulto pessoal (mesmo sem se conhecer a outra mãe). 
 
É importante partilhar opiniões e até defendê-las (até um certo limite…. Não vale tudo…. Não vale insultar os outros, mesmo que até tenhamos razão. Se não acabamos por a perder.). 

É importante não embarcar na proliferação de fake news ou desinformação (a pandemia da ignorância pode ser das mais graves e perigosas). Só devemos partilhar informação que temos certeza que é fidedigna e de fontes credíveis. E há temas que, não sendo da nossa área de formação e/ou especialização, devemos deixar para os especialistas nessas matérias. 

É importante escolher as “guerras” que se quer ter. Por vezes, quando já sabemos que um comentário vai levar a uma troca de mensagens “gigantesca” e sem levar a lugar nenhum, onde se vão juntando outros elementos à “desconversa” (sim, porque muitas vezes já não é uma conversa, um diálogo) que defendem um lado ou outro, consoante a simpatia, empatia e a identificação com um ou outro argumento… será que vale a pena perder esse tempo…. Investir e gastar energias nisso? 

É importante não perder a calma…ninguém é perfeito…. Logo também nenhuma mãe é perfeita… todas têm as suas inseguranças, dúvidas, preocupações. Disseminemos mais amor, mais compreensão e mais empatia em vez de mais discriminação, mais julgamentos, mais críticas.

É importante perceber que, às vezes, também podem existir mal-entendidos na mensagem que se queria passar e que podem (e devem) ser esclarecidos. 

Reservemo-nos o direito a não comentar, quando achamos que não vale a pena, ou que aquilo que vamos “ganhar” é inferior ao que vamos “perder” … tempo, paciência, serenidade e boa disposição. Da “discussão” nasce realmente a luz e é na diversidade de opiniões que também “crescemos” e podemos aprender coisas novas, mas só se a argumentação for lógica e racional… se passar para o insulto e não tiver nexo nenhum, ou pior, se (no caso de assuntos validados pela ciência) não tiver validação científica, só leva à proliferação da desinformação…. Ter sempre atenção que uma opinião é uma opinião, mas não necessariamente um facto ou uma verdade absoluta. 

O que é efetivamente um facto é que estes grupos de mães podem ser bastante úteis, mas a partir do momento em que começam a ser uma fonte de discórdia e conflitos, é porque está na hora de “sair do grupo” ou então ignorar esses diálogos acesos e passar à frente. Problemas já cada uma tem nas suas vidas, não vale a pena “alimentar” outros. 

Fica um conselho: foquem-se no essencial e “alimentem” as Boas partilhas nos “grupos de mães”!!! 

Sónia Gaudêncio, Psicóloga Clínica e Diretora da ESTIMA +

Mais informações: Email | Facebook