INTEGRAÇÃO ESCOLAR DE CRIANÇAS COM PEA – GUIA PRÁTICO PARA PROFESSORES

EO 2018 Saúde | Fonte: Pin - Centro de Desenvolvimento
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As crianças passam cerca de oito horas diárias na escola. Isto significa que o papel dos professores nas suas vidas não é de todo negligenciável, pelo contrário, é essencial que a relação com os professores prime pela confiança, segurança, empatia e conforto. Para isso, é preciso algo que por vezes é tão difícil, que é conhecer o seu aluno com PEA.

Conhecer estes alunos implica saber dar resposta a algumas questões. Quais são as coisas que o entusiasmam? Quais são os estímulos que o incomodam? Quais são os colegas que conseguem cativá-lo melhor? Quais são as situações, ou os momentos do dia, em que é provável que surjam dificuldades? Somente com base nesta informação, poderá estruturar o ambiente dentro e fora da sala de aula de forma a ir ao encontro das necessidades do seu aluno.

1.
Conhecer os pais – o início do ano letivo é um momento que pode gerar muita ansiedade também nos pais, por não conhecerem a equipa docente, por não saberem se alguém irá compreender o seu filho, por não saberem se vai correr tudo bem, por tantas outras dificuldades que já enfrentaram no passado e temem que se repitam numa nova escola… Por todas estas razões, e mesmo que já tenha tomado conhecimento do processo do aluno e do seu historial, é essencial que exista uma reunião com os pais o mais cedo possível. Os pais são os melhores especialistas nas características deste seu novo aluno e são uma fonte incomparável de informação essencial para si. Pergunte-lhes tudo, partilhe as suas preocupações, permita que coloquem as suas questões…. Sintonizem-se como uma equipa. Peça-lhes as estratégias que utilizam em casa para acalmar o aluno em caso de desregulação, quais são os seus interesses, se tem aversão a algum estímulo específico. Os pais são o seu manual de instruções sobre aquele aluno. Aproveite-os! Isso também irá mostrar aos pais que está preocupado em proporcionar uma experiência escolar positiva ao seu aluno e ajudará a tranquilizá-los.

2. O primeiro contacto – se possível, tente organizar com os pais um momento fora da sala de aula para conhecer o seu aluno. Isto irá ajudar a que ele o reconheça e identifique como referência e generalize esta experiência para a sala de aula. Estabeleça interações positivas, mostre-se interessado nele e no que tem para lhe contar. Evite o contacto físico, este tipicamente não é bem aceite pelas crianças com PEA, e não lhe dê abraços ou beijos. Em vez disso, respeite o seu espaço físico e deixe que seja ele a aproximar-se, quando assim o quiser. Dirija-se a ele com uma voz baixa e firme, utilize uma linguagem simples e concreta, evitando simbolismos. Mostre-se simpático, calmo e recetivo!

3. Na sala de aula – Introduza o aluno aos colegas com naturalidade. Ajude-o a interagir com os outros de forma positiva, procurando atividades que vão ao encontro dos seus interesses (informação que recolheu junto dos pais!) e que possam ser realizadas com um ou dois colegas, de forma a estabelecer uma rede de suporte e de motivação para permanecer no recinto escolar. Quanto à sua posição na sala de aula, verifique onde o aluno se sente mais confortável, não o exponha logo desde início (ex. chamar para ir ao quadro ou dirigir-lhe perguntas orais logo nos primeiros dias), dê-lhe tempo para se ambientar e para fazer a sua própria leitura do que está a acontecer.

4. Elogiar - Deverá recorrer-se, sempre que possível, ao reforço positivo das conquistas progressivas do aluno, ainda que possam parecer pequenas, elogiando o seu esforço e a capacidade de lidar com a ansiedade, de permanecer sentado, de interagir com os colegas, de responder a instruções simples. Evitar repreender, especialmente em público.

5. Instruções - Quando se dirigir ao aluno, utilize uma linguagem concreta e objetiva, de forma a que o mesmo compreenda de forma clara e inequívoca o que é esperado dele em cada momento. Explique as tarefas numa voz calma e segura, evite gritar, fazer movimentos bruscos ou criticar, promova um ambiente seguro, estruturado e previsível.

6. Tarefas - Na fase inicial, permitir que o aluno realize em sala de aula atividades de baixa exigência e que vão ao encontro dos seus interesses (ex. fichas que incidem em conteúdos que já domina), aumentando o nível de exigência à medida que o aluno se for sentindo mais confortável e integrado na turma.

7. Suavize o ambiente - Permita que o aluno utilize tecnologias alternativas de forma a diminuir o seu desconforto no contexto escolar, por exemplo, a utilização de fones nos ouvidos para eliminar o ruído exterior.

8. Antecipação - Sempre que possível, antecipar com o aluno as transições ou mudanças que irão acontecer, de forma a eliminar a imprevisibilidade. Por exemplo, explicar-lhe antecipadamente que vão ter aula de inglês e no fim vão para o intervalo, ou que daqui a 15 minutos vão sair para almoçar, etc. Evite, dentro do possível, situações imprevistas ou mudanças repentinas quer da rotina diária, quer do ambiente.

9. Validação - Permitir que o aluno expresse o seu desconforto e valorizar o mesmo, mantendo uma postura que lhe transmita confiança e segurança, reforçando a sua capacidade de o ultrapassar. Permaneça disponível e acessível para responder às suas perguntas, dúvidas ou preocupações de forma a tranquilizá-lo.

10. Compreensão - Tenha em conta as características particulares do aluno nas ocasiões especiais fora da rotina ao longo do ano (ex. carnaval, teatros, festa de final do ano, visitas de estudo), uma vez que estas são suscetíveis de gerar ansiedade/desconforto pela alteração de rotina, pelo aumento de ruído ou exposição social do aluno. Atribua-lhe papéis que vão ao encontro dos seus interesses ou encontre junto dele qual o papel que se sentiria confortável em desempenhar. Inclua-o sempre, dentro do possível, mas, na impossibilidade de promover o seu conforto, jamais obrigar o aluno a participar contra a sua vontade!

Trabalho em equipa. Esta é a resposta ideal para que as crianças com PEA tenham o suporte que precisam para o seu sucesso. Dentro dos diferentes graus de funcionamento que podemos encontrar nestas crianças, e na variabilidade imensa de características, todas elas merecem o nosso esforço. Merecem que sejamos nós, adultos, a explorar o mundo delas, de forma a trazermos à superfície algo que possamos replicar no nosso dia-a-dia. É um desafio imenso, que em alguns dias nos desanima, noutros dias deixa-nos incrédulos. Mas assim mesmo é o caminho! Preparemo-nos, também, para sermos maravilhados com o efeito imenso que pequenos ajustes podem ter no seu sucesso, na sua felicidade e na sua integração.

Obs.: Este artigo tem uma primeira parte.


Artigo desenvolvido por:
Inês Afonso - Psicóloga Clínica

PIN - Centro de Desenvolvimento