HUMOR EM TEMPOS DE ISOLAMENTO SOCIAL

EO 2020 Educação | Fonte: Pin - Centro de Desenvolvimento
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O papel do humor no desenvolvimento da comunicação e linguagem de crianças pequenas.

Nestes dias de isolamento social é claro para qualquer um que “dê um passeio” pelas redes sociais que o humor tem um papel regulador para os adultos.

Para as crianças será igual? E como se relaciona o humor com o desenvolvimento?

O desenvolvimento do que chamamos de “sentido de humor” depende do desenvolvimento cognitivo e das competências sociais, mas também alimenta a evolução do conhecimento nestas áreas. Situações humorísticas permitem a partilha com outra(s) pessoa(s), a tomada de perspetiva na interação, potenciam a compreensão de linguagem e a imaginação.

Quase todos os tipos de humor implicam que tomemos consciência de uma incongruência entre um conceito e uma situação. Ou seja, alguma coisa é engraçada se não faz sentido e consequentemente nos surpreende.

O que uma pessoa acha engraçado, independentemente da idade, está muitas vezes relacionado com os desafios com que se depara em cada etapa de desenvolvimento e/ou situação de vida.

Entre o ano e o ano e meio, os bebés começam a conseguir perceber que as coisas escondidas não desaparecem. Assim, acham hilariante jogar ao “cu-cu” porque perceberam que eventualmente a outra pessoa vai reaparecer.

Quando se apropriam de um conceito começam a divertir-se com a ideia. Acham piada a situações relacionadas com o uso de objetos. Adoram que coloquemos uma meia na orelha ou um copo a fazer de chapéu e começam a imitar estes comportamentos, testando as suas próprias “piadas”.

A minha afilhada, agora com 21 meses e que começa a dizer as primeiras frases de combinações de duas e três palavras, mostra que compreende o seu papel na interação social e novos conceitos através de brincadeiras. Os pais começaram a brincar com palavras: “Quem é o maior?”. O pai respondia “É o papá!” e a mãe contrapunha “É a Alice!”. A pequenita começou a perceber a incoerência da situação porque ela é claramente mais pequena que o pai. Agora quando alguém pergunta quem é o maior, ela ri-se como quem soubesse um segredo e responde “Alice!”.

Também é por volta desta idade que as crianças começam a achar graça a brincadeiras com sons, adorando música com sons repetitivos. Não deve haver um único pai, mãe ou profissional que trabalhe com crianças pequenas que não saiba de cor o “Baby Shark”.

Com a crescente compreensão de linguagem, as situações absurdas e os jogos de palavras ganham relevo. Não é por acaso que as premissas dos livros infantis nos parecem tão disparatadas ou que os poemas para crianças usem rimas de palavras com significados não relacionados.

As piadas são simples e facilmente aborrecem os adultos. Por exemplo: A professora de matemática explica um problema ao Joãozinho. “- Se eu te der 2 chocolates hoje e te der 3 amanhã, tu vais ficar com, com,…- Con…tente!”

Mas lidam com tarefas de reflexão sobre o som das palavras…

“Como se chama um cão que atravessa a rua no Porto? É um CãoPeão.”
… ou sobre a lógica dos enunciados…

“Que animal consegue saltar mais alto que uma casa? Qualquer animal porque as casas não saltam.”

São todas estas brincadeiras com situações sociais e com linguagem que demonstram o desenvolvimento da metalinguagem e da metacognição, ou seja, da capacidade de refletir sobre a forma como comunicamos e sobre o nosso conhecimento. Estas competências são a base da aprendizagem.

A mensagem mais importante é: Divirtam-se com as vossas crianças! Elas precisam tanto de rir como vocês.

Artigo desenvolvido por:

Ana Sofia Lopes, Terapeuta da Fala.