GAGUEZ & PANDEMIA

EO 2022 Opinião | Jaqueline Carmona & Mónica Rocha, Terapeutas da Fala
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Durante os confinamentos houve um aumento exponencial de casos de gaguez que foram encaminhados para a Terapia da Fala, não só em Portugal mas a nível internacional.

Muitos pais referem que os filhos começaram a gaguejar no pico da pandemia e quem gagueja refere um aumento relevante das suas disfluências. Ora bem….será que o SARS-CoV-2, mais conhecido por Covid-19 para além de todos os sintomas que todos nós entretanto tão bem conhecemos, também causa gaguez?

Não! Este tipo de situações por vezes pode deixar-nos confusos relativamente às causas da gaguez. E leva-nos a pensar: Será que…foi!

Existe muitas vezes a crença de que a gaguez tem uma causa psicológica, contudo hoje em dia está bem estabelecido que não existe UMA causa, mas sim diversos fatores responsáveis pela etiopatogenia da gaguez e por isso dizemos que tem uma etiologia multifatorial. Já existe evidência suficiente que comprova que a gaguez tem uma base genética e estão identificados 4 genes, os quais explicam a causa em 66% da população que gagueja. Naturalmente que a genética vai originar alterações no funcionamento neurológico e desencadear alterações na linguagem que é uma função superior. É essencial desmistificarmos esta questão que relaciona o aumento de encaminhamentos com um aumento da incidência de gaguez ou a relação entre a causa da gaguez e momentos de stresse.

Muito se fala sobre stresse desde que paira sobre o mundo esta pandemia. Este stresse afetou em larga escala pais e cuidadores que tiveram de gerir o trabalhar e o cuidar dos seus filhos ao mesmo tempo, sobretudo nas fases de confinamento. As crianças que passavam quase todo o dia nas creches e escolas, ficaram o tempo todo em casa o que pode ter originado maior número de oportunidades para os pais olharem, escutarem e analisarem características comunicativas que antes não tinham reparado ou não lhes tinha causado tanta preocupação. Para além disso, mais tempo em casa significou mais interação entre a família – ora se tiveram um maior número de oportunidades comunicativas, provavelmente também produziram um maior número de disfluências atípicas (vulgo gaguejar – repetições, bloqueios e prolongamentos entre outras possíveis) e, mais uma vez, isto poderá levantar ou exacerbar preocupações.

Para além de muito stresse vivido por muitas famílias, muitas rotinas se alteraram. Sabemos que grandes alterações de rotina, na vida das crianças podem influenciar a variabilidade da gaguez, fazendo com que a criança gagueje mais ou menos.  Até a forma como comunicávamos diariamente se alterou. Passámos a falar com a família, amigos, colegas de trabalho e outros através de um ecrã de computador. Mais uma vez, estas alterações são desafiantes para qualquer criança e ainda mais para quem gagueja.

Reconhecemos ainda outro fator que se relaciona com a ausência ou diminuição da terapia da fala durante os confinamentos, o que poderá ter tido um efeito negativo na fala da criança e ter tido algum impacto na família por se sentir menos apoiada.

Há uma questão crucial a reter: a principal característica de disfluências tipo gaguez ou gaguez persistente é a sua variabilidade, a qual é um desafio sempre, para o próprio, para a família. Ficamos a pensar: “Se há minutos estava tão bem, como é que agora está a gaguejar tanto?”. Então é fácil de compreender porque tentam procurar uma causa/culpado para o acentuar das disfluências atípicas. Mas não há culpado – disfluências tipo gaguez ou gaguez persistente é SEMPRE variável.

Disseminar informação válida, e substituir crenças antigas, que gaguez não se deve a qualquer razão psicológica é uma das formas de promover bem-estar, pois reduzimos culpa -  foi porque ralhei com ele; foi porque a coloquei de castigo; foi porque não tive cuidado e assustou-se com o cão; foi porque a educadora não deixou…; foi porque a professora disse…Não foi por nada disso, se sustos, traumas e momentos de stresse fossem a causa para a gaguez o número de pessoas que gaguejam era sem sombra de dúvida muito maior. É muito mais construtivo e obviamente terapêutico apoiar sem culpa. E os pais, os educadores, os cuidadores e os professores podem apoiar os alunos sem receio.

Quando a sociedade civil tem acesso a conhecimento atual é possível compreender e atuar de modo diferente em vez de perpetuar crenças que podem levar a estigma, os tempos que vivemos já são suficientemente desafiantes.

Jaqueline Carmona, Terapeuta da Fala, European Specialist in Fluency Disorders
Email: jaqueline.carmona@pin.com.pt

Mónica Rocha, Terapeuta da Fala, Doutorada em Ciências da Cognição e da Linguagem

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