GAGUEZ

EO 2016 Saúde | Fonte: Pin - Centro de Desesnvolvimento
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A gaguez é uma das perturbações da fluência que surge normalmente durante o período de desenvolvimento linguístico da criança, podendo instalar-se mais tarde ou ocorrer no seguimento de lesões neurológicas adquiridas.

Pode ser entendida como uma dificuldade em manter o rítmo e a fluência durante a fala, seja em momento de discurso ou em palavras isoladas. Manifesta-se, na idade infantil, como disfluências do tipo repetição (mãe quequequero um bolo), prolongamento (ffffffiz um desenho para ti) ou, associado a tensão muscular da laringe, lábios ou língua, os bloqueios. Tem como possíveis causas para o seu aparecimento componentes neurobiológicas, genéticas e psicossociais. É considerada uma perturbação da comunicação devido ao impacto que esta pode apresentar na vida da criança.

As disfluências podem ser entendidas como transitórias se surgirem entre os 2 e os 5 anos de idade e se não se manifestarem por mais de 6 meses. Normalmente a criança não tem consciências das suas alterações de fluência e não traz grandes preocupações aos pais por não se revelar demasiado frequente nem grave. Nesta fase, é possível fazer-se um trabalho de prevenção, com vista à recuperação, de uma forma muito aligeirada e em tom de brincadeira para a criança. O objetivo de intervenção especializada é orientar os pais sobre estratégias e modos de atuação perante os diferentes cenários e contextos de comunicação do seu filho. Passados 8 meses a 1 ano, se estas disfluências persistirem, podemos estar perante uma gaguez. Aqui, podem surgir comportamentos mais graves, como os bloqueios, os movimentos associados às disfluências devido à tensão (cerrar o punho, por exemplo) e sentimentos negativos sobre o próprio e sobre situações de fala.

Nenhum ser humano vive, cresce e aprende sozinho. Diariamente, as nossas crianças desenvolvem o seu caráter, personalidade e compreensão da sua identidade não apenas pelos seus marcadores biológicos e construto de personalidade mas também pela interação que estabelecem com tudo aquilo que está ao seu redor, família, pares, escola, natureza. Crianças propensas a serem mais ansiosas, exigentes com o seu próprio desempenho, temperamentais e perfecionistas, entre outros fatores prepetuantes, estão em risco de agravamento de sintomas tanto visíveis ao parceiro comunicativo como de caráter  intrínseco.

Quando a gaguez se instala de forma permanente, a perceção da ausência de controlo no momento em que quer e tem algo para comunicar oralmente tendencialmente é uma experiência assustadora para a criança. Não saber o porquê da dificuldade que sente ao falar, como e qual o impacto e reação que provocará em quem a ouve, o que fazer para resolver, são razões suficientes para o aumento progressivo de tensão devido ao medo, muito em parte originado por fenómenos de ansiedade antecipatória devido a experiências vividas anteriormente de valor negativo para a criança. Dependendo da idade da criança, desenvolvimento cognitivo e emocional, ela poderá percecionar ou não as dificuldades de fluência de forma diferente. Está estudado que é a experiência que gera novas aprendizagens, tanto a nível cognitivo, motor como emocional. Isto significa que eu, enquanto indivíduo, assumo que se eu fizer algo de determinada maneira, ou estiver perante determinada situação e o resultado for frequente ou semelhante, então dou como certo, por exemplo, que irão rir-se de mim sempre que tiver de falar perante a minha turma, ou os meus pais vão sentir-se irritados porque não consegui explicar claramente o que queria dizer ou, ainda, sempre que quero ir comprar um saco de gomas à mercearia, já sei que as palavras não me vão sair da boca. Provavelmente, como mecanismo de defesa e de forma inconsciente, vou preferir não falar, não partilhar, não comprar, não ser eu...

Numa perpetiva parental ou do cuidador, a sensação de sermos incapazes de alterar a dificuldade ou circunstância sentida pelo outro, especialmente se esse outro é o nosso filho, pode ser avassaladora. O pais são o elemento central dos fundamentos para o desenvolvimento saudável da criança. Torna-se, por isso importante que os pais conheçam e entendam comportamentos e ações que promovam o bem estar do seu filho enquanto comunicador e que sejam bons modelos comunicativos. Isto significa, por exemplo, falar com uma velocidade considerada normativa, ouvir com os sentidos da visão e audição, promover um ambiente onde a criança se sinta segura e confiante para comunicar, respeitar os turnos de conversação, valorizar em vez de criticar.

Imagine-se, muito rouco, num dia de trabalho. Como se sentiria se alguém insistisse consigo para que falasse mais alto, porque não o conseguia entender; ou estava constantemente a mandá-lo beber água; ou, pior, se se sentisse inquieto e desconfortável pela qualidade da sua voz e estivesse frequentemente a completar as suas frases, interrompê-lo ou a pedir-lhe para repetir? Da mesma forma, a reflexão deve ser feita do ponto de vista da criança com uma perturbação da fluência.

Ensinar e ajudar a criança a compreender quem ela é enquanto indivíduo que gagueja e estimulá-la a adaptar e adotar estratégias que promovam a redução de tensão e aumento da fluência, poderá representar um fator preponderante na construção saudável da sua identidade e aumento da qualidade de vida em todos os seus contextos.


Artigo desenvolvido por
Ana Beirão, terapeuta da Fala

PIN - Centro de Desenvolvimento