FRUSTRAÇÃO: EVITAR OU LIDAR COM?

EO 2020 Opinião | Sónia Gaudêncio, Psicóloga Clínica
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Sabemos que manter o contacto com os familiares mais velhos traz benefícios para a saúde física e mental de todos, mas esta pandemia alterou os hábitos e rotinas de muitas famílias.

Vivemos num mundo de imediatismo, onde quase tudo está à distância de um click, o que tem as suas vantagens, mas pode não ser benéfico em muitas situações. Nomeadamente, quando as coisas não correm tão bem e fogem aos nossos planos, expectativas ou, simplesmente, quando não conseguimos o que queremos. E, principalmente quando, estamos “habituados” a ter tudo o que queremos no imediato, é aí que aparece a frustração. O problema é que, nem sempre lidamos com este sentimento da melhor forma possível.

No entanto, o nosso foco não deve ser evitar todo o tipo de frustrações… Também, no fundo, é difícil de evitá-las, pois elas surgem naturalmente no nosso dia-a-dia. O importante mesmo é aprender a lidar com elas, pois isso torna-nos mais resilientes, mais autoconfiantes e, em última instância, mais preparados para enfrentar os desafios da vida e as adversidades.

Então, quando as coisas não correm como imaginamos, nada como ser positivo e tolerante à frustração que sentimos. Mas nem para os adultos, isso é fácil, quanto mais para as crianças.

Como promover a tolerância à frustração nas crianças?

1- Em primeiro lugar, deve deixar que elas se frustrem... não propositadamente, claro! Mas não lhes retirando todos os obstáculos do caminho ou “facilitando-lhes” a vida para evitar dissabores e/ou conflitos e birras. Acredite que não os contrariar agora, irá trazer-lhe dissabores a longo prazo. A vida colocá-los-á, inevitavelmente, perante algumas contrariedades. Para além disso, expô-los à frustração também ajuda ao desenvolvimento emocional e, assim sendo, é importante que as crianças saibam lidar com emoções desagradáveis. Elas fazem parte da vida.

2- Não resolver os problemas todos pelos seus filhos. Os pais, ao fazerem isso, embora sejam bem-intencionados, não estão a promover a sua autonomia e não os estão a ajudar a desenvolver capacidades que lhes vão permitir encontrar soluções para os seus problemas. Pelo contrário, caso as crianças o façam sozinhas, aumentam a sua autoconfiança e autoestima. Mesmo que o resultado não seja “brilhante”, não faz mal… há muitas aprendizagens que se fazem por tentativa e erro.

3- Estabelecer regras e limites é importantíssimo. Ajuda-os a perceber que nem sempre se consegue o que se quer. Transmite-lhes segurança.

4- Não esquecer a educação emocional. Deixá-lo chorar quando está triste ou frustrado é importante. Todas as emoções são válidas e é essencial saber expressá-las e lidar com todas elas. Por isso, deve resistir à tentação de dizer: “Vá não chores”. Substitua, por exemplo, por: “Percebo que estejas triste por não te ter comprado aquele brinquedo que querias… eu também ficava quando a avó não me dava o que eu queria…queres falar sobre o que estás a sentir? Achas que um abracinho ajuda?”.

5- Procurar estratégias para lidar com a frustração em conjunto. Seja o modelo.

6- Ajudar a encontrar estratégias de relaxamento e a praticá-las com regularidade é uma boa prática e ajuda no autocontrolo e regulação emocional.

Fundamentalmente, não se esqueça que o fracasso, o insucesso, as adversidades e a frustração fazem parte da vida. Então porquê evitar que o seu filho se sinta frustrado? Porquê evitar contrariá-lo? Certamente, fá-lo com a melhor das intenções, mas saiba que isso lhe pode trazer muitos problemas no futuro. Por isso, invista agora em ganhos a longo prazo e, saiba que ao ajudar o seu filho a lidar com a frustração estará a contribuir para que ele seja mais feliz, mais confiante e mais resiliente!

Sónia Gaudêncio, Psicóloga Clínica e Diretora da ESTIMA +

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