FATORES CULTURAIS QUE INFLUENCIAM O DIAGNÓSTICO DO MUTISMO SELETIVO

EO 2021 Opinião | Dr.ª Maria João Silva, Psicóloga e Especialista em Perturbações da Ansiedade
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O Mutismo Seletivo é caracterizado pela ausência consistente de linguagem verbal em determinados contextos em que falar é socialmente esperado, por exemplo, na escola.

Apesar desta ausência de expressão verbal, a criança é capaz de desenvolver o discurso de forma adequada noutras situações. Uma criança com Mutismo Seletivo (MS) pode, por exemplo, não falar com professores ou colegas de escola, mas falar fluentemente em casa.

Talvez esteja a pensar que, tendo em conta estas características, o MS é facilmente identificado e diagnosticado… mas, na verdade, nem sempre é assim! Há vários fatores que podem contribuir para que o diagnóstico seja tardio, sendo alguns deles fatores socioculturais. Desde logo, a dificuldade que a maioria de nós tem em aceitar/tolerar, no outro, estados emocionais mais intensos. De forma subtil, é muitas vezes passada a mensagem de que sentir medo/zanga/ansiedade é errado e que estas são emoções negativas. Estados emocionais mais intensos ou dificuldades emocionais são, muitas vezes, desvalorizados e criticados. Quantos de nós nunca disseram “não fiques assim!”, “já passou”, “não é preciso estar nervoso…”, ou “o gato comeu-te a língua?”. Quando dizemos isto a alguém, estamos – mesmo que sem intenção – a desvalorizar o que a outra pessoa está a sentir e, no limite, a contribuir para que não seja pedida ajuda.

Para além disto, há um conjunto de crenças e estereótipos que também podem condicionar o diagnóstico e tratamento do MS. São eles:

“Cada criança tem o seu ritmo” e, por isso, “há-de passar naturalmente”. É óbvio que cada criança faz aquisições no seu tempo e ritmo e é importante respeitar isso, considerando sempre a etapa de desenvolvimento em que se encontra. Contudo, o processo de aquisição não pode durar indefinidamente. Se uma criança fala em casa, mas, ao entrar no pré-escolar, não usa essa competência e isto se mantém por meses, não procurar ajuda não é respeitar o ritmo da criança, é sim impedir que ela possa ser apoiada… é impedir que ela ganhe novas competências e, no limite, impedir que se aborde um problema.

“Timidez” é sinónimo de “bom-comportamento” e até “boa educação”! Esta ideia faz com que, muitas vezes, os profissionais de saúde/educação acabem por desvalorizar o silêncio, sobretudo nas meninas, apesar da preocupação dos demais. Sendo mais prevalente em raparigas, há, contudo, muitos rapazes que chegam à consulta em fases mais precoces, talvez por não ser tão “expectável” que um menino seja “caladinho”.

Inibição e perfeccionismo são virtudes. O MS esconde-se muitas vezes por detrás destes traços, que sendo frequentemente elogiados, acabam por reforçar (e consequentemente manter) o próprio mutismo.

Felizmente, o MS é uma perturbação cada vez mais reconhecida, quer por pais, quer por profissionais de saúde e de educação. Cabe a todos nós consciencializar para esta perturbação. Nesse caminho, é importante manter presente que: o MS não é uma escolha, não é má educação, nem é uma fase. O MS é uma perturbação de ansiedade e, como tal, requer ajuda especializada!

Maria João Silva, Psicóloga, Especialista em Perturbações da Ansiedade e Coordernadora Internacional da SMA (Selective Mutism Association), com interesse específico em Mutismo Seletivo.

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