DINOSSAUROS VS ANIMES E MANGAS – QUAL O VENCEDOR DO ÓSCAR?

EO 2020 Educação | Fonte: Pin - Centro de Desenvolvimento
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Até há pouco tempo, talvez os dinossauros ganhassem o óscar de melhor enredo e argumento adaptado por larga maioria, se as votações para os óscares fossem feitas por crianças, mais especificamente por crianças e adolescentes com Perturbação do Espetro do Autismo (PEA).

Antes da generalização das tecnologias e do acesso facilitado a conteúdos nacionais e internacionais, a maior parte destas crianças e adolescentes demonstrava interesse por colecionismo de dinossauros e de conhecimento acerca destes, com especial enfoque nas suas características, nomes científicos, alimentação e localização a nível continental. Há cerca de 30 anos, obtinha-se informação sobre estes animais através de livros, enciclopédias, exposições, museus, documentários televisivos e filmes.

Porém, com a chegada da internet, o rápido e fácil acesso à informação acerca dos dinossauros, mas não só, fez com que, nesta corrida a estes óscares, estes tivessem um grande adversário: os animes (isto é, estilo de animação original do Japão, caracterizado por cores brilhantes, alto contraste e temas de fantasia e ficção científica) e mangas (isto é, estilo de bandas desenhas e de novelas gráficas originais do Japão, caracterizadas por expressões faciais exageradas e cores brilhantes), que fazem parte da cultura japonesa.

Ainda que a cultura japonesa, particularmente os animes e mangas, tivesse começado a ser difundida através de filmes, já no século XX, a verdadeira atração começou a surgir no final deste, com a chegada de algumas séries de mangas tais como Dragon Ball, Sailor Moon e Pokemon. Nessa altura, as crianças e adolescentes só poderiam aceder a estes conteúdos através da televisão ou de cassetes de VHS, contudo, atualmente, podem aceder não só a estes como a uma variedade ilimitada de outros conteúdos.

Porque considero que os animes e mangas estão na corrida para os óscares?
Porque na prática clínica com crianças, adolescentes e jovens adultos com Perturbação do Espetro do Autismo tem sido cada vez mais frequente o interesse pela cultura japonesa. Tanto rapazes como raparigas manifestam interesse em partilhar vídeos, falar sobre as personagens dos animes, reproduzir os desenhos dos mangas, assim como também demonstram preferência por certas músicas, pelos jogos, pela comida e cada vez mais pela aprendizagem da língua japonesa. Em alguns casos, os/ as jovens que gostam de fazer cosplay (isto é, representar uma personagem através das suas roupas e acessórios) apresentam uma maior tendência para escolherem personagens japonesas, de jogos ou animes e mangas.

Muitas vezes é nos eventos de cosplay, que estes/ as jovens com PEA encontram outros com as mesmas características, os mesmos interesses e, por vezes, também as mesmas dificuldades, seja de socialização, de integração ou outras. É por isso que estes eventos, por tudo o que envolvem e permitem, se tornam tão atraentes para adolescentes e jovens com PEA, que estão dispostos a ir a estes encontros sozinhos, desenvolvem competências a planear e a preparar as suas roupas e conseguem sentir-se incluídos, nestes locais.

Uma outra oportunidade que a internet viabiliza é o contacto com outros jovens com os mesmos interesses através de aplicações e comunidades, onde estes podem partilhar fotografias, imagens, vídeos, assim como conversar em chats públicos e privados. Este tipo de comunidades de animes e mangas, muito atraente para jovens com PEA, é, por vezes, o único ou um dos poucos contextos em que estes conseguem socializar, não só pelo facto de ser uma socialização virtual que retira muitas componentes ansiógenas existentes no contacto interpessoal, mas também pelo facto de envolver uma interação sobre temas que são dominados pelos/ as jovens e que, por isso, facilitam a interação entre estes.

Muitos/ as jovens demonstram interesse por este tipo de desenhos animados, pelo facto deste tipo de desenho ser mais atraente, a expressão das emoções ser mais clara e «dramática», como dizem alguns jovens, mas também pelo facto de abordarem temas com os quais estes/ as jovens se identificam, tais como as relações amorosas, situações de conflitos escolares ou socialização entre pares.

Atualmente, esta relação entre as Perturbações do Espetro do Autismo e os animes tem também sido explorada por alguns investigadores, que identificaram que as crianças com o diagnóstico (atualmente em desuso) de Autismo de Alto Funcionamento são capazes de reconhecer emoções a um nível muito próximo dos jovens com desenvolvimento neurotípico. Isto significa que a informação que os jovens retiram destes desenhos animados lhes permite compreender melhor a interação que existe entre as personagens e por isso conseguem envolver-se mais na trama e no enredo do desenho animado.

E se os pais quiserem votar, nessa corrida aos óscares?
Aos pais é sempre recomendado que acompanhem o tipo de desenhos animados que os filhos estão a seguir. Este acompanhamento é importante porque os animes e mangas poderão envolver conteúdos pouco apropriados para a idade; poderão, também, dar a ilusão de que alguns problemas deverão ser vividos com a mesma intensidade com que os animes e mangas os ilustram; e também porque poderão levar ao desenvolvimento de crenças erradas acerca dos relacionamentos sociais e amorosos. O envolvimento dos pais, neste tipo de atividade, poderá ser benéfico por permitir não só uma maior vigilância e ajuda na compreensão dos enredos dos desenhos animados, como também por permitir uma maior aproximação aos seus filhos, na medida em que se tornam mais conhecedores acerca dos seus temas de interesse, algo que é importantíssimo na relação entre pais e filhos.

Recomenda-se também que os pais estejam atentos ao tipo de aplicações e comunidades em que os seus filhos estão envolvidos. Estas, tal como todas as outras app’s, envolvem o risco das crianças, adolescentes e jovens poderem estar a falar com pessoas que apresentem uma identidade falsa, que tenham intenções maldosas ao iniciarem este contacto interpessoal, e que possam também introduzir conteúdos inapropriados (muitos deles pornográficos).

Este tipo de cuidados que todos os pais deverão ter, deverá ser duplicado quando se falam de crianças, adolescentes e jovens com PEA, pelo facto destes apresentarem mais dificuldades na compreensão da intenção do outro, na antecipação da consequência de algum comportamento virtual (desde o envio de uma fotografia sua, à partilha da sua localização) e por terem dificuldade em compreender o verdadeiro conceito da amizade, podendo facilmente considerar como amigos todos/ as aqueles/ as que partilham o mesmo interesse e que estejam a seguir o mesmo anime ou manga.

Ainda que este interesse não seja comum a todas as crianças, adolescentes e jovens com PEA, tal como nenhum é, a tendência é que este interesse seja cada vez mais frequente e apreciado cada vez mais cedo no desenvolvimento da criança. É por isso que os pais, assim como outros elementos da família, mas também os terapeutas e outros técnicos, deverão estar por dentro deste tipo de desenhos animados, para que se possa retirar o melhor desta cultura e proteger do pior.

E O ÓSCAR VAI PARA …

Artigo desenvolvido por:

Carla Oliveira, Psicóloga Clínica