DE VOLTA A CASA... E À PANDEMIA DENTRO DE CASA!

EO 2020 Educação | Fonte: Pin - Centro de Desenvolvimento
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Mais tarde ou mais cedo, um amigo da escola do filho mais novo ficou infetado e todos os alunos da sua turma foram para casa, e volta a escola à distância, o teletrabalho e todos os desafios que acompanham a quarentena forçada. Já sabemos o que aí vem, mas mesmo assim continuamos sem saber qual a melhor forma de gerir os desafios da casa cheia, principalmente quando acontecem todos ao mesmo tempo.

Não é possível indicar estratégias milagrosas, panaceias que resolverão todos os problemas de uma vez por todas e que “resultam sempre”. Parte de nós, adultos e educadores, ter bem assentes as nossas necessidades, limites, e prioridades e, com base nisso, responder às necessidades, limites e prioridades dos nossos filhos.

As estratégias certas vêm sempre de um lugar de compreensão e respeito mútuo, de calma e sensatez para a resolução dos problemas, e de alguma aceitação de que há momentos mais difíceis em que não é possível fazer tudo aquilo que o nosso julgamento nos diz ser o que devíamos fazer.

Assim, é essencial ter uma visão realística da nossa situação atual, não esperando que seja fácil e natural a alteração das rotinas para todos e que não surjam desafios quando viramos o mundo dos nossos filhos do avesso. É natural que os desafios surjam, o importante é saber como os gerir. Para isso, deixamos alguns pontos de partida.

É assim tão importante ter uma rotina estruturada?
Este pode ser o ponto de partida mais importante. Uma rotina estruturada (isto é, com horários para a realização das diferentes tarefas e atividades ao longo do dia), permite antecipar como o dia vai ser, criando uma expectativa realística do que vai acontecer quer para a criança quer para os pais.

Esta rotina deve ser o mais semelhante possível à rotina que tinham em condições normais, fazendo os ajustes necessários à organização familiar. Deve incluir tanto as atividades letivas obrigatórias (e.g., assistir a aulas online, realização de trabalhos escolares) como atividades lúdicas que são realizadas preferencialmente no final das atividades obrigatórias.

A rotina deve ser transmitida de forma clara à criança (por exemplo, colocando o horário em papel num local visível da casa), assim como aquilo que deve esperar dos pais a cada momento (quando estão a trabalhar, e quando não estão a trabalhar). Muitas vezes acreditamos que os nossos filhos têm a obrigação de perceber o que podem fazer quando veem que estamos a trabalhar, contudo o que eles veem é a mãe ou o pai em casa, perto deles, em frente ao computador. Se não lhes comunicamos de forma aberta os nossos limites e necessidades, como devemos esperar que eles os consigam adivinhar?

É, pois, muito importante ter uma comunicação aberta com os seus filhos, explicando-lhes claramente como devem agir quando veem os pais a trabalhar (ou seja, deve ser explicado que deverão permanecer em silêncio nos horários de trabalho, quais as situações estritamente necessárias em que poderão interromper e de que forma o deverão fazer, combinando um sinal não-verbal com eles para quando precisarem de interromper os pais).

Como gerir o tempo livre das crianças?
Outro dos grandes desafios é como gerir o tempo livre das crianças. Apesar de ser livre, seria importante seguir algumas ideias. Em primeiro lugar, o planeamento, ou seja, é importante que as crianças saibam quando irão ter esses momentos e que todas as atividades tenham um momento marcado de início e de fim. Estas premissas contribuirão para manter as crianças organizadas no tempo e para dar uma sensação de previsibilidade e segurança.

Durante o fim-de-semana, estabeleça com os seus filhos um plano semanal, permitindo que as crianças antecipem e prevejam como será a ocupação do seu tempo livre, com e sem os pais.

Para os mais novos, pode incluir atividades como ver um filme, uma vez que tem um tempo estabelecido e evita que estejam sempre a mudar de canal e a solicitar a ajuda dos pais. Poderão também ter uma área dos legos ou outros jogos que poderão explorar sozinhos ou com o apoio dos pais.

Outra ideia seria verem e organizarem os álbuns de fotografias da família. Esta atividade talvez necessite de algum apoio dos pais e poderão aproveitar para contar histórias engraçadas sobre a família. Também poderá ser interessante integrá-los em algumas rotinas domésticas como, por exemplo, ajudar a pôr a mesa ou tirar a roupa da máquina de lavar. Outros dos momentos interessantes e que poderão ser securizantes para os mais novos são: o “Brincar ao faz de conta”, ouvir música, cantar e dançar.

Com os mais velhos, talvez seja importante um momento de “reunião familiar” para pensar e organizar quais as atividades que poderão fazer fora do horário escolar, com atividades estabelecidas pelos pais e outras propostas pelas crianças ou jovens.

Os pais poderão estabelecer atividades relacionadas com as rotinas domésticas, responsabilizando as crianças ou jovens por algumas delas, como fazer a cama ou pôr a mesa. Também poderão pensar em momentos criativos, como trazer temas para serem pensados e refletidos pela família (podem ser os pais a propor ou os filhos).

A família poderá ter também projetos que foram adiados e que podem realizar nestes momentos, como organizar materiais, selecionar livros ou arrumar o quarto dos brinquedos. Entre os momentos propostos pelas crianças ou jovens poderá ser englobado o tempo de ecrã e o tempo de conversa com os amigos.

Todas as propostas que surgirem deverão ser depois organizadas num horário, com tempo de duração estruturado. Por fim e não menos importante, passear ao ar livre quando possível e respeitando as regras de segurança, deverá fazer parte da nossa lista de programas para o tempo livre.

Devo ser mais criativo?
Sabemos que a criatividade se expressa na maneira como resolvemos os problemas, que promove a saúde mental em diferentes ambientes e situações, e por isso tem neste momento um papel importantíssimo. Sobre a criatividade gostaríamos de propor outras atividades que tenham por base o desenvolvimento emocional e que poderão ajudar os seus filhos e a sua família não só na resolução de problemas como a passarem momentos diferentes, agradáveis e que contribuam para o aumento do bem-estar familiar.

Praticar 5 minutos de relaxamento com os seus filhos, sem ecrãs. Promover estes momentos permitirá não só desligar-se de todos os estímulos a que estamos sujeitos, mas também proporcionar à criança um momento para parar e poder apenas sentir-se e conectar-se com aquilo que está a pensar ou a sentir, possibilitando a regulação emocional.
Durante o jantar, pedir a cada elemento da família que diga algo que o deixou feliz e triste durante esse dia.
Interpretar uma emoção (a expressão facial, o tom de voz, o tipo de mensagem verbal e não verbal) e os outros elementos tentam adivinhar qual é. Depois poderão inventar uma história para acompanhar cada sentimento, ou dizer em que situações cada um se sente daquela forma.
Um dos elementos da família conta uma história onde surge um problema e cada elemento partilha a forma como o resolvia e como terminava a história.

Apesar de compreendermos a necessidade instintiva dos pais em ocupar todos os tempos livres dos filhos, já que isso permite a previsibilidade, a organização e a segurança para as crianças e para os próprios pais, poderá ser importante permitir-se a aceitar que o seu filho pode também ter um momento livre, sem qualquer atividade pré-definida. Isto poderá ser potenciador da criatividade do seu filho, ao ser confrontado com a possibilidade de poder escolher como se vai entreter naquele momento. Ser criativo não é arriscar fazer diferente?

Como gerir o acumular de tarefas por fazer e as emoções à flor da pele?
Nunca se falou tanto na importância da “resiliência”, e nunca esperámos que esta pudesse estar tanto nas tarefas do dia-a-dia. A capacidade que demonstramos em nos adaptar às alterações que nos são impostas pode realmente colocar-nos à prova, trazendo as emoções à flor da pele (numa manifestação de negação ou evitamento do que está a acontecer) ou potenciar aprendizagens que nos trarão um sentido de autoeficácia e de resiliência.

A diferença entre a primeira experiência e a segunda está nas expectativas que colocamos em nós próprios. Se esperamos que ao fazer quarentena obrigatória, o trabalho vai estar sempre em dia, as refeições serão servidas à hora na mesa, a casa estará limpa e organizada, e os filhos vão ter os trabalhos da escola em dia, o banho tomado e vão seguir todas as instruções que nós lhes dissermos, estaremos a condenar a nossa sentença.

Para potenciar a nossa capacidade de resiliência, é importante ajustar as nossas expectativas de forma realística, aceitando os limites da condição humana, o que significa, aceitar que não somos perfeitos e que não estará tudo feito no tempo desejado. Implica compreender que há momentos em que as exigências são mais que os recursos que temos para lhes responder, e que isto automaticamente gera uma resposta de stress. E tudo isto é normal.

Cabe-nos a nós perceber e aceitar esta experiência de stress, e definir o que queremos fazer com ela. Defina prioridades, e não deixe de fora o seu bem-estar e o bem-estar de todos em casa nessas prioridades.

O mundo pode virar do avesso, mas continua a girar e os seus filhos a crescer, mesmo que num mundo ao contrário. Todas estas alterações e adaptações vão criar possibilidades de aprendizagens, entre outras, na autonomia, autorregulação e capacidade de resolução de problemas dos seus filhos. Potencie estas aprendizagens dos seus filhos, não negligencie o tempo de qualidade com eles e assista em tempo real ao seu crescimento.

Autor:
Maria João Gouveia e Teresa Carvalho, Psicólogas Clínicas