COMUNICAÇÃO E LINGUAGEM NAS PERTURBAÇÕES DO ESPECTRO DO AUTISMO

EO 2019 Educação | Fonte: Pin - Centro de Desenvolvimento
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Algumas crianças com Perturbação do Espectro do Autismo (PEA) podem não procurar a comunicação com o outro. Podem não falar ou produzir apenas algumas palavras isoladas. No entanto, muitas crianças podem apresentar dificuldades de linguagem ligeiras ou moderadas. A gravidade pode então ser muito variável, apesar de a PEA poder englobar um conjunto de traços conhecidos e comuns a muitas crianças. Conheça algumas das caraterísticas da comunicação na PEA.

- Ecolália
Consiste na repetição do discurso do interlocutor. Por exemplo, perante a pergunta “queres água?” a criança poderá responder “queres água?” em vez de dizer “sim” ou não”. A repetição pode não ocorrer no momento imediato, ou seja, a criança pode repetir também palavras ou frases que ouviu muito tempo antes. A ecolália pode não ter uma função comunicativa, mas pode também ocorrer como uma tentativa de a criança se manter na conversação, embora o faça de uma forma linguisticamente desadequada.

- Uso persistente das mesmas perguntas
Por vezes as crianças fazem as mesmas perguntas de uma forma repetida, mesmo que já saibam a resposta para as mesmas. Estas repetições podem funcionar como um ritual, trazendo o conforto de uma rotina conhecida.

- Expressões idiossincráticas e/ou neologismos
Correspondem à linguagem com significados privados, ou que só faz sentido para aqueles que com ela estão familiarizados. Podem ser “palavras inventadas”, por exemplo dizer “cultivador” em vez de “agricultor”.

- Confusão no uso de pronomes pessoais
Crianças com PEA apresentam por vezes dificuldade na compreensão dos pronomes, como “eu” e “tu”. Podem referir-se a si mesmos na terceira pessoa (por exemplo, “o João quer” em vez de “eu quero”) ou apontarem para si mesmo enquanto dizem “tu…”.

- Linguagem sofisticada
Apesar de muitas vezes se falar de dificuldades linguísticas, é muito comum crianças com PEA utilizarem vocabulário complexo para a sua idade. Por exemplo, uma criança com 4 anos pode dizer que uma sobremesa é “extremamente agradável”. Pode também conhecer muitos termos associados aos seus interesses, por exemplo, saberem todos os termos técnicos relacionados com automóveis se este for um tema de que gostam.

- Discurso pouco coerente e conversação pouco recíproca
Para além de poder ser repetitivo, o discurso pode ter ideias “soltas”, pouco interligadas entre si. Pode ser, por isso, incoerente e difícil de compreender. Muitas vezes, a troca de turnos na conversação é também um desafio para estas crianças, podendo não esperar pela sua vez de falar ou centrarem-se muito em si mesmas.

- Dificuldades em ler pistas não-verbais
As dificuldades em compreender a informação não-verbal podem originar situações de desajuste social ou mal-entendidos. Por exemplo, se uma criança de 5 anos conversar sobre os seus conhecimentos de astronomia, os colegas poderão fazer uma expressão facial de desinteresse. Se a criança não conseguir compreender, poderá continuar a falar sobre o tema exaustivamente.

- Compreensão literal da informação
É também frequente crianças com PEA terem dificuldade em compreender frases ambíguas, segundos sentidos, discurso irónico/sarcástico ou expressões populares. Por exemplo, a expressão “ter a cabeça na lua” pode ser ouvida com indignação.

Os exemplos correspondem a alguns traços conhecidos da PEA. No entanto, todas as crianças apresentam caraterísticas individuais que exigem intervenção personalizada. É importante realizar uma avaliação específica e desenhar uma intervenção ajustada a todas as necessidades identificadas.

A promoção de competências linguísticas e comunicativas irá permitir um melhor desempenho académico e um maior sucesso na interação social e na autonomia da criança.

Artigo desenvolvido por:

Ana Rita Santos, Terapeuta da Fala