ANO NOVO, VIDA NOVA?

EO 2021 Educação | Fonte: Pin - Centro de Desenvolvimento
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Resoluções de ano novo no meio da pandemia.

A passagem de ano é a altura em que tipicamente todos tomamos decisões de mudança. Como que por magia, tudo o que se tentou fazer durante todo o ano (se não mesmo durante vários anos) e que, por motivos reais ou imaginados, não foi concretizado, parece subitamente mais fácil de alcançar só porque o calendário passa de Dezembro para Janeiro. É no próximo ano que vou perder peso; é desta que começo a juntar dinheiro para a entrada da casa; preciso mesmo de passar menos tempo no trabalho e mais tempo em casa com a família, deste ano não passa! Mas se parece tão fácil no dia 31 de Dezembro, porque é que tantas vezes as resoluções de ano novo acabam frustradas?!

Este ano, o caso é ainda mais complicado. O ano de 2020 foi dominado pela pandemia pelo novo coronavírus e isso tornou-o diferente de muitas maneiras diferentes. E embora seja verdade que as condições altamente atípicas do ano que agora termina nos tenham impedido de atingir vários objetivos, o facto é que em anos anteriores, por outras razões, também houve resoluções por cumprir.

Tenho ouvido frequentemente, por estes dias “é tão difícil fazer promessas de ano novo quando estamos no meio de uma pandemia e ainda não sabemos quando acaba… quando percebemos que o que se está a passar agora vai ainda continuar nos próximos tempos…”. Porém, coloca-se a pergunta: não é sempre assim? Não é sempre verdade que a passagem de 31 de Dezembro para 1 de Janeiro, de quaisquer dois anos consecutivos, não muda rigorosamente nada, apenas por magia?

Talvez esta constatação nos possa fazer refletir sobre as resoluções de ano novo e sobre as razões que as fazem falhar - não será pela pandemia que um determinado objetivo não será cumprido, mas sim pelos mesmos motivos de sempre, sejam eles de ano novo ou não. É por isso importante estar atento à forma como formulamos as nossas resoluções. Devemos fazê-lo: de forma realista, delineando o nosso plano de ação com os meios que já dispomos ou de que previsivelmente iremos dispor; de forma faseada, porque para atingir um objetivo final é muitas vezes necessário resolver questões intercalares, que são muitas vezes ignoradas no plano inicial e que podem gorar o seu cumprimento; de forma recompensadora, porque se o objetivo for difícil ou demorado de atingir, e se pelo caminho não houver “prémios” ou “recompensas” que mantenham a motivação para o cumprimento dos planos, mais facilmente eles fracassam.

Paralelamente a estes aspetos, há ainda a considerar que não atingir as metas traçadas por nós próprios pode trazer-nos bastante sofrimento. O ser humano é mesmo perito em sofrer com o que já não pode mudar ou com o que ainda nem sequer aconteceu. Por isso é importante que, durante todo este processo, neste ano e em todos os próximos, apliquemos ao nosso dia-a-dia estratégias (é possível aprendê-las!) que nos permitam viver “aqui e agora”, tentando não acrescentar às dificuldades inerentes aos nossos planos, outras tantas, lançadas pelas nossas próprias emoções.

Bom ano a todos! E boas resoluções.

Autor:
Gustavo Jesus, Médico Psiquiatra - Diretor Clínico PIN Lisboa

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