A IMPORTÂNCIA DO RECREIO

EO 2016 Educação | Fonte: Dr. Lobo Antunes (pin)
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Ainda hoje me lembro das preposições simples, dos cognomes da maioria dos reis, e sei enunciar na perfeição o princípio de Arquimedes.

Todas estas coisas têm uma função: peças de cultura geral, pequenas rodas dentadas que se põem em funcionamento para acionar rodas maiores.

Também me lembro da amizade profunda que me ligava ao Luís Marinho dos Santos, das habilidades do Coelho, capaz de andar sobre as mãos com as pernas repousadas em cima dos ombros, como gigantesco caranguejo. Dos imensos desafios de cada intervalo de aulas, fosse nos jogos de “caricas” ou berlindes, fosse na resposta a desaforos em lutas corpo a corpo que terminavam quando um dos contendores tombava. Raramente havia sangue, mas a vitória ou derrota eram mais do que simbólicas: fortaleciam carateres  e definiam valores como a coragem, lealdade, amizade e os seus opostos.

Não posso afirmar que um destes ensinamentos fosse superior a outros. Todos formaram a pessoa que sou. Sem uma dessas experiências, do teorema de Pitágoras até à derrota no jogo de andebol, seria uma pessoa diferente, amputada de experiência, empobrecida no conhecimento da vida.

Vejo com tristeza o encurtamento progressivo do tempo de recreio e a sua substituição por aulas que se prolongam para além da duração razoável. As razões da minha preocupação são duas: não é possível reaver o tempo perdido enquanto encurtamos a infância, e a minha convicção de que o recreio é palco de ensaio para a vida de relação, cenário de aprendizagem da teia interativa que a todos nos liga.

A História exalta heróis como modelos, A Física as leis fundamentais do funcionamento do universo, as línguas abrem janelas de cultura, mas é no recreio que se praticam os valores que a Educação forma.

Texto de Dr. Nuno Lobo Antunes
Neuropediatra e Diretor do PIN