10 DE OUTUBRO: CELEBRA-SE O DIA MUNDIAL DA DISLEXIA

EO 2021 Opinião | Aurora Lopes, Psicóloga Clínica
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O facto de existir uma data que assinale uma perturbação do neurodesenvolvimento, pretende dar maior visibilidade a um problema de aprendizagem que afeta cada vez mais crianças em idade escolar.

Uma turma normalmente tem um ou mais alunos com esta perturbação. O facto de uma criança não conseguir aprender pode dever-se a inúmeros fatores e um deles é uma dificuldade de aprendizagem específica.

Conhecer qual a sintomatologia associada, entender como a perturbação de aprendizagem pode comprometer não só o desempenho escolar da criança como também a sua aprendizagem, é fundamental.

A perturbação de aprendizagem específica com défice na leitura, escrita ou cálculo, comummente conhecida como dislexia, disortografia ou discalculia. Manifesta-se sob a forma de dificuldade de leitura, maior lentidão da criança ou um esforço exagerado para realizar tarefas que deveriam ser de simples execução, fragilidades na compreensão leitora, dificuldades na interpretação de textos e enunciados. Na escrita, pode afetar a caligrafia, a correção ortográfica, a forma como a criança recebe e processa a informação. No cálculo pode comprometer o próprio raciocínio matemático. Para além disso, também pode ser impactante a nível emocional, levando ao desenvolvimento de baixa autoestima, desmotivação pela escola e mesmo resistência em aprender, torna-se, assim, fulcral que seja detetada o mais cedo possível, para que o prognóstico seja o mais positivo. Iniciando a intervenção precocemente, levará a resultados, mais céleres e evidentes, poupando anos de sofrimento e sentimento de incapacidade nas nossas crianças.

Esta perturbação do neurodesenvolvimento é o resultado da incapacidade do cérebro para executar funções de leitura, escrita e/ou cálculo. O facto de ser específica, significa que em nada neste processo está envolvido o perfil cognitivo ou capacidades intelectuais das crianças, aliás,
a criança pode ser inteligente e ter esta dificuldade. Não é sinal de preguiça, nem é um problema visual, não existindo medicação ou dispositivos que a possam tratar.

Existem sinais de alerta durante a infância ou idade escolar que, se detetados pelo educador, pais ou professor, devem conduzir o encaminhamento da criança para uma equipa especializada e com experiência na área que realizará o despiste, numa avaliação completa.

Quanto a sinais der alerta na infância, entre outros, podemos observar atraso no desenvolvimento da linguagem. A criança começou a falar mais tarde que o normal, sendo que quando iniciou a fala apresentava frequentes omissões ou substituições de fonemas, ou algumas frases não faziam sentido. Dificuldades em memorizar músicas, lengalengas ou partes do seu próprio nome e fragilidades ao nível da realização de rimas.

Já na escola, podem verificar-se sinais de alarme, como alguma lentidão na aprendizagem e memorização das letras, assim como na autonomização dos processos de leitura e escrita. É por este motivo, que o diagnóstico formal não pode ser atribuído antes do 2.º ano de escolaridade. Não obstante, é importante trabalhar as lacunas identificadas. A criança demora a realizar tarefas escolares, denota-se desconforto na realização de trabalhos que envolvam leitura ou escrita e até, em alguns casos, grande resistência em realizá-los. A velocidade da leitura fica aquém do esperado em comparação com a restante turma, apresenta dificuldades na compreensão, na segmentação, divisão e manipulação de sílabas. A criança terá dificuldades em responder a questões como: Quantas sílabas tem a palavra “sapato”? Divide a palavra por sílabas. Se se tirar a sílaba ‘sa’, que palavra fica?). O mesmo acontece com os sons das letras, os fonemas. Estas fragilidades na consciência fonológica são um forte indicador de que algo pode não estar bem. Na escrita denotam-se incorreções ortográficas, dificuldades em realizar textos criativos, com estrutura, planeamento e organização. No cálculo, dificuldades na interpretação de problemas, no sentido do número e no raciocínio matemático. Existem mais sinais, alguns mais específicos, mas no geral, são estes pormenores que devem chamar a atenção do educador.

Relembrando, que mesmo que o diagnóstico seja atribuído mais tarde, podem ser trabalhadas desde cedo competências, inclusive, na pré-escola que ajudem a criança a ultrapassar muitas dificuldades que quanto mais tardiamente forem trabalhadas, mais difícil será para a criança
recuperar.

No Dia Mundial da Dislexia, deixamos a tónica na necessidade de estar atento aos sinais o mais precocemente possível, informação é poder, da mesma forma que ignorância levará à manutenção das dificuldades de aprendizagem, aumentando o gap do aluno disléxico e o aluno sem dificuldades. Ao mesmo tempo que traz outras consequências como desmotivação, ansiedade, resistência, que podem ser mal interpretadas como sendo preguiça, negligenciando um problema cada vez mais presente e real no nosso dia a dia.

Aurora Lopes, Psicóloga Clínica.

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