UM ESTIGMA INACEITÁVEL

EO 2019 Partilhas por Catarina Furtado
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Estigmatizar a menstruação é aumentar o fosso da desigualdade de género, pois impede que as raparigas e as mulheres ocupem o seu espaço no mundo e assumam um papel afirmativo na sociedade – não podemos permiti-lo.

Custa a acreditar, mas é verdade: em 2019 são centenas de milhões as adolescentes que deixam de ir à escola, algumas para sempre, mal têm a menstruação. Esta discriminação com base no preconceito e na desinformação está instituída em muitos lugares. Numa recente visita de trabalho ao maior campo de refugiados do mundo, Kutupalong, no Bangladesh, fui testemunha de como o estigma do período menstrual e a falta de pensos higiénicos comprometem o futuro das raparigas, algumas das quais são forçadas a casar precocemente. As jovens do povo rohingya com que me encontrei, além de expulsas do seu país, Myanmar, e de sobreviverem em condições indignas no Bangladesh, sofrem na pele as consequências nefastas deste estigma.

O Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA), do qual sou Embaixadora de Boa Vontade, distribui os chamados kits de dignidade, que incluem um sabonete e um penso higiénico reutilizável em tecido, a mulheres em situação de emergência. Muitas, porém, têm vergonha de lavar os pensos em locais públicos, porque denunciam o seu estado.

A ONU reconhece a higiene menstrual como uma questão de saúde pública mundial e de direitos humanos. Por razões sociais e biológicas, as mulheres são mais dependentes das instalações sanitárias do que os homens. Em lugares onde existe uma só casa de banho partilhada, como campos de refugiados, as violações são comuns. Por outro lado, a carência de saneamento está ligada ao atraso escolar. E é sabido que um terço da população mundial não tem acesso a água potável e mais de metade a saneamento básico.

Pobreza menstrual é uma expressão que resume bem o estigma, isto é, a combinação entre a falta de condições financeiras e o peso do tabu. Na India, por exemplo, só 12% das mulheres conseguem comprar produtos para a menstruação; no Reino Unido mais de 90% das raparigas receiam ir à escola menstruadas e 27% já perderam aulas por esse motivo.

Estigmatizar a menstruação é aumentar o fosso da desigualdade de género, pois impede que as raparigas e as mulheres ocupem o seu espaço no mundo e assumam um papel afirmativo na sociedade – não podemos permiti-lo. Sugiro que vejam “Period. End of Sentence”, que recebeu um Oscar de melhor curta metragem documental. Um filme sobre menstruação a ganhar um prémio tão importante? Sim, porque é urgente derrubar as barreiras que violam os direitos humanos.

Catarina Furtado