SONHOS SIMPLES E TÃO DISTANTES

EO 2019 Partilhas por Catarina Furtado
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Entre os adolescentes que visitei no Bangladesh, deparei-me com uma sede de aprendizagem que me paralisou. É comovente assistir a jovens de 15 anos a fingirem ser professores de crianças pequenas nas tendas onde vivem, cujas condições são péssimas.

“Só quero estudar, ajude-me a estudar!”. Tinha 16 anos e um desespero que me impressionou. Ali, no Bangladesh, no campo de 24 km2 onde se abrigam um milhão de refugiados Rohingya em fuga ao genocídio do exército do Myanmar, os jovens foram o grupo que mais aflição me provocou.

Isto porque a falta de esperança é a única realidade que conhecem. Eles têm acesso à net e às notícias do que se passa no mundo, mas tudo lhes falta, até mesmo o reconhecimento do estatuto de refugiado por parte do governo do Bangladesh, que, no entanto, acolhe este povo perseguido desde o primeiro grande êxodo, em 2017.

Há mais de 50 anos que esta minoria muçul-mana é perseguida num país maioritariamente budista. Os que sobreviveram viram morrer muita gente e assistiram a horrores indescritíveis, como pessoas queimadas vivas em fogueiras. A sobrevivência faz com que o ser humano descubra a sua força e desenvolva a criatividade.

Entre os adolescentes que visitei no Bangladesh, deparei-me com uma sede de aprendizagem que me paralisou. É comovente assistir a jovens de 15 anos a fingirem ser professores de crianças pequenas nas tendas onde vivem, cujas condições são péssimas.

Cheguei há pouco do Líbano, o país com o maior número de refugiados do mundo face à população total. Vêm sobretudo da Síria. Desde 2011 têm encontrado asilo no país vizinho, que também não lhes atribui estatuto de refugiados. São mais de 1,5 milhões de pessoas que não conseguem um emprego decente, uma habitação digna, cuidados de saúde e educação. O Líbano está a atravessar uma gigante crise financeira e, por isso, às crianças e jovens sírios não lhes é garantida a permanência no ensino formal.

Mais uma vez, foram os adolescentes que me deixaram sem palavras que pudessem atenuar a angústia. Com as crianças brincamos, os adultos abraçamos, mas aos jovens não há gesto ou argumento que possa confortar. Estão no auge de tudo. E foram tantos os que me pediram para os ajudar a estudar.

Regresso a Lisboa e recebo um e-mail que me enche de orgulho. Mais uma bolseira da Corações Com Coroa, a Sara defendeu a sua tese, na área Farmacêutica, e obteve 18 valores. Dizia-nos: “Esta vitória é muito vossa, CCC, porque acreditaram em mim e deram-me o empurrão necessário”. Quem me dera que os nossos braços chegassem ao Bangladesh, ao Líbano e a todos os lugares onde precisam de nós.

Catarina Furtado