MULHERES COMO ANEMO

EO 2020 Partilhas por Catarina Furtado
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Uganda foi o país escolhido para encerrar a série Príncipes do Nada, que estreia em abril na RTP. Tenho a sensação de que aprendi mais sobre a vida nestas viagens do que em muitos anos de existência.

A 8 de março, celebra-se o Dia Internacional da Mulher. Tenho amigos que o questionam com argumentos do tipo: “se o que se pretende é a igualdade, não faz sentido haver um dia para as mulheres e nenhum para os homens”.

Nada mais errado. Todos os dias pertencem aos homens e, felizmente, são muitos os homens que se dedicam às causas da igualdade de género, de oportunidades, ao combate ao assédio, às práticas nefastas que atentam a saúde das mulheres com justificações culturais, à diferença nos salários, enfim...

Depois do Bangladesh, Líbano, Grécia e Colômbia, Uganda foi o país escolhido para encerrar a série Príncipes do Nada, que estreia em abril na RTP.

Tenho a sensação de que aprendi mais sobre a vida nestas viagens do que em muitos anos de existência.

Constatei no terreno a enorme capacidade de superação das mulheres nas situações mais adversas.

Falei com pessoas extraordinárias de todos os géneros, mas é perante as mulheres e as raparigas em particular que me curvo e sinto a obrigação de falar em nome de todas as que não conseguem fazer ouvir a sua voz...

… Como Anemo, uma mulher de 26 anos do Sudão do Sul, vítima de um casamento forçado aos 17 que a obrigou a abandonar a escola. O pai morreu quando era pequena, a mãe foi morta na guerra.

Assim que engravidou, o marido desapareceu. Ficou sem ninguém. Para proteger a filha de três anos, em 2017 fugiu a pé para o Uganda. Caminharam seis dias, sem comer nem beber - mas resistiram.

Desde então, vive no campo de refugiados onde a conheci. Há ano e meio, depois de voltar a confiar no amor, engravidou de outro homem, mas ele desapareceu e a história repetiu-se.

Hoje o que mais deseja é ver as duas filhas felizes e poupá-las a tudo o que já viveu: “Vi muito sangue, pessoas a gritar de dor e desespero, outras mortas no meio da estrada. Dou graças a Deus por ter passado a fronteira e chegado aqui. Agora só quero Paz.”

A 6 de fevereiro, celebrou-se outra data importante: o Dia Internacional da Tolerância Zero à Mutilação Genital Feminina. Não se trata de uma questão de religião, mas de um costume de certas comunidades que é imperativo erradicar.

Se nada fizermos, serão mais 68 milhões de vítimas até 2030. Na Corações Com Coroa trabalhamos para isso na Guiné Bissau. Os resultados estão à vista para quem quiser saber.

Catarina Furtado