AS IDADES DA INOCÊNCIA

EO 2020 Partilhas por Catarina Furtado
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Foi incrível testemunhar o renascer do brilho nos olhos dos mais velhos e a entrega total das crianças a cada um dos seus novos amigos. O isolamento social faz com que muitos idosos se sintam entregues a si próprios – as crianças contrariam esse sentimento.

Certa vez, o meu filho João Maria, com 6 anos na altura, enterrado no banco de trás do carro e esticando-se para ver a rua, perguntou-me: “Mãe, podemos levar aquele velhinho para casa? Deve sentir-se sozinho...” O senhor estava sentado num banco, a olhar para o vazio.

Expliquei ao João que não tínhamos a certeza de que quisesse vir para nossa casa ou de que se sentisse sozinho... Mas acrescentei que as hipóteses de se sentir sozinho eram maiores.

Tive o privilégio de conduzir o programa televisivo “As Idades da Inocência” (que pode ser visto na RTP Play). Durante cinco semanas, provámos que a junção da sabedoria dos mais velhos com a energia das crianças, através de atividades lúdicas que estimulem o físico e o intelecto e combatam a solidão, traz enormes benefícios.

Foi incrível testemunhar o renascer do brilho nos olhos dos mais velhos e a entrega total das crianças a cada um dos seus novos amigos.

Portugal é um dos cinco países da Europa que pior trata as pessoas mais velhas. Nove em cada 10 idosos que frequentam consultas médicas mostram sinais de tristeza provocada pela solidão. O isolamento social faz com que muitos percam a vontade de viver e sintam que, com os seus baixos níveis de vitalidade, estão entregues a si próprios – as crianças contrariam este sentimento.

O programa, um formato inglês, durou seis meses em Inglaterra, e obviamente que os resultados foram muito mais expressivos; no entanto, em Portugal, bastaram essas cinco semanas para que os técnicos (psicóloga, psicomotricista e gerontólogo) registassem entre os mais velhos que os indicadores de depressão tinham baixado consideravelmente, a vontade de maior autonomia crescido e o sentimento de utilidade regressado. “Afinal ainda sirvo para alguma coisa” foi uma das frases mais comoventes que ouvi nesses dias.

Depois dos programas recebi centenas de mensagens de pessoas a elogiar a iniciativa e a fazer votos para que esta ideia tão eficiente e humanista salte da televisão para a realidade de cada terra de Portugal.

Na unidade de saúde, a ASFE, onde gravámos, o projeto continuou depois de desligarmos as câmaras. Agora só desejo que aconteça o mesmo em todo o País e que este tipo de descriminação, o “idadismo”, que não existe entre as crianças, seja substituído por afeto e pelo orgulho nos mais velhos.

Catarina Furtado