AMAR NÃO É CONTROLAR

EO 2019 Partilhas por Catarina Furtado
  • slider

Faço uma viagem aos meus tempos de namoros de liceu, dos beijos escondidos (e roubados!) nos recantos do Passos Manuel, e penso no que estará a acontecer aos afetos das raparigas e dos rapazes.

Fala-se muito pouco sobre a violência no namoro, que normalmente ocorre numa fase da vida plena de sensações e sentimentos novos, de descoberta de nós próprios e dos outros. Na adolescência, os conceitos baralham-se e podem ganhar contornos estranhos, feios, por vezes potenciados pela tecnologia e as redes sociais. O que é publico? O que é privado? Íntimo? Partilhável? Confundem-se verbos com facilidade: amar com controlar, cuidar com manipular.

Faço uma viagem aos meus tempos de namoros de liceu, dos beijos escondidos (e roubados!) nos recantos do maravilhoso Passos Manuel, e penso no que estará a acontecer aos afetos das raparigas e dos rapazes. Não querendo ser fatalista nem moralista, os dados que recebo enquanto presidente da Corações Com Coroa, são, no entanto, muito preocupantes.

Há três anos pusemos em prática o projeto “CCC Vai à Escola”, validado pela Direção Geral de Educação e dirigido às turmas do 9º ano. Partindo da peça “Elfos e Anões”, com texto de Jorge Palinhos e encenação de Natália Luiza, inclui um debate que pretende identificar as problemáticas da violência e estimular a reflexão conjunta de alunos, professores, psicólogos e técnicos de serviço social sobre relações de intimidade saudáveis e não saudáveis, igualdade de género, bullying e a importância de comportamentos seguros nas relações afetivas.

Têm sido demasiados os casos que nos saltam à vista (e que são depois encaminhados) quando passamos pelas escolas. A cada estudante é oferecido um cartão (com contactos de linhas de apoio) que poderá assinar, numa espécie de compromisso pessoal, para que nunca se esqueça de que: por amor não se faz isto e por amor não se sofre isto.

Os dados da Associação UMAR não deixam dúvidas sobre a violência no namoro em Portugal:
1) a vitimação apresenta valores entre os 6% (violência física e sexual), 19% (violência psicológica) e 28% (comportamentos de controlo); 2) em ambos os sexos há uma elevada legitimação dos comportamentos de controlo, cerca de 28%; 3) 5% das raparigas e 22% dos rapazes encaram com normalidade a violência sexual; 4) a dimensão íntima da violência nas redes sociais tem uma taxa de vitimação de 11% (e 24% dos jovens consideram-na legítima); 5) há uma elevada legitimação da perseguição (33% dos rapazes e 19% das raparigas).

Sonho com um país onde cada jovem reconheça os seus direitos e tenha a coragem de apontar o dedo ao mal. Por isso, dia 19 de novembro, pelas 15h, na Gulbenkian, o tema “Adolescência – com riscos se traça o futuro” irá estar em destaque na Conferência CCC. Conto convosco!


Catarina Furtado