AINDA HÁ HERÓIS

EO 2019 Partilhas por Catarina Furtado
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Denis Mukwege tem denunciado as atrocidades contra meninas e mulheres na RDC e, por isso, a sua vida corre perigo. Todas as noites, 25 dessas mulheres, mesmo depois de todos os horrores que viveram, garantem a segurança da sua casa.

Foi um privilégio entrevistar o Nobel da Paz 2018, o ginecologista congolês Denis Mukwege, que se tem dedicado a salvar mulheres vítimas de extrema violência sexual no seu país, devolvendo--lhes a saúde, a dignidade e a vida. Pedi-lhe uma entrevista enquanto Embaixadora da Boa Vontade do Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA) e estive perante um homem incrivelmente humilde e grandioso.

A República Democrática do Congo (RDC), uma das regiões mais conturbadas do mundo, tem vivido uma guerra civil horrenda, motivada por interesses económicos, e na qual as milícias praticam violações sistemáticas de mulheres e a destruição dos seus órgãos genitais. Denis Mukwege já salvou mais de 40 mil mulheres no hospital de Panzi, em Bukavu, e criou um centro de apoio, City of Joy, onde 180 mulheres por ano recebem ajuda psicológica, social e legal, para que a sua dor se transforme em força e o sofrimento em poder. Todos os dias, chegam ao hospital seis a 10 vítimas num estado tão difícil de descrever que, quando recuperam, levam o médico a acreditar em milagres. Aconselho vivamente a verem o documentário “City of Joy”.

Por denunciar estas atrocidades na RDC, Denis Mukwege corre perigo de vida. Quando a família foi ameaçada de morte, teve de sair do país, mas foi surpreendido por muitas das mulheres que salvou, que tudo fizeram para o ter de volta, inclusivamente vendendo o pouco que tinham para lhe comprar o bilhete de avião. O médico percebeu, então, que não podia desistir. E regressou. Todas as noites, 25 dessas mulheres, mesmo depois de todos os horrores que viveram, garantem a segurança da sua casa.

Em 2010, a Alta Comissária para os Direitos Humanos apresentou um relatório sobre situações sórdidas de crimes de guerra e de genocídio, mas nada foi ainda feito pela comunidade internacional. Denis Mukwege não se conforma. Diz que a justiça é a única solução para a defesa dos direitos destas mulheres, que não são tratadas como seres humanos, e que a continuação desta violência perpétua se deve à impunidade. Por outro lado, teme o pior com o regresso em força de movimentos conservadores e a respetiva falta de investimento na igualdade de género, saúde sexual e reprodutiva e no planeamento familiar. Mas promete: “Eu não as vou abandonar”.

Gratidão é o mínimo que podemos sentir por alguém como Denis Mukwege. Um herói, sem qualquer exagero.

Catarina Furtado