UM RANGER DE DENTES A QUE CHAMAMOS BRUXISMO

EO 2020 Opinião | Sónia Gaudêncio, Psicóloga Clínica
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De vez em quando, os pais queixam-se que os seus filhos “rangem” os dentes enquanto dormem. A isto chamamos “Bruxismo”.


Sabia que o bruxismo é um hábito parafuncional involuntário, que se caracteriza por movimentos estereotipados e periódicos de ranger e/ou cerrar de dentes, decorrentes da contração rítmica de vários músculos? Pois é, o bruxismo pode acontecer a crianças e a adultos e ocorre, mais frequentemente durante a noite, mas pode também ocorrer durante o dia.

O bruxismo noturno ocorre durante as primeiras etapas do sono e, normalmente, termina quando a criança entra no sono profundo.

Qual a prevalência?
Os estudos relatam uma prevalência de 40% em crianças em idade pré-escolar (3 a 6 anos de idade), de 17% na faixa etária dos seis aos sete anos e 24% nas crianças dos oito aos nove anos.

Quais as causas?
Pensa-se que o bruxismo tem uma etiologia multifactorial. A única causa provada conhecida do bruxismo infantil relaciona-se com as vias respiratórias. Ao que parece, crianças com uma combinação de alergias e vias aéreas comprometidas podem ranger os dentes, já que o movimento da mandíbula abre a trompa de Eustáquio (canal entre ouvido e faringe) e produz uma sensação de alívio.

Todas as outras causas possíveis do bruxismo nas crianças podem estar relacionadas com fatores emocionais: uma fase de maior stress ou angústia, como por exemplo, uma mudança de escola, o nascimento de um irmão, exames escolares ou até mesmo o divórcio dos pais. Podem ainda estar relacionadas com fatores alimentares inadequados, causados pelo facto da criança não mastigar alimentos consistentes e não usar, corretamente, a função mastigatória ou com fatores oclusais, quando existem interferências nos dentes que impedem um correto encaixe aquando da mordida.

Como se faz o diagnóstico?
Para um bom diagnóstico deve recorrer-se ao pediatra e ao dentista, visto que, a maioria das vezes, o diagnóstico é feito tendo em conta sobretudo o desgaste dentário e o relato dos pais de episódios de ranger ou apertar os dentes. E é importante que o dentista faça a avaliação dos possíveis estragos na dentição, provocados por esse desgaste dentário.

Qual o tratamento?
Normalmente, por volta dos 10 anos, as crianças deixam de ranger os dentes sem que este problema tenha trazido qualquer dano. Mas, se o problema persistir na altura da adolescência e o médico dentista reconhecer sinais de desgaste excessivo nos dentes permanentes ou alterações na articulação entre maxilares, devem ser tomadas medidas preventivas para evitar futuros danos nos dentes e articulação. O tratamento pode incluir uma goteira de relaxamento, para se utilizar durante a noite, ou passar por outras medidas terapêuticas, sendo necessárias algumas vezes, recorrer ao psicólogo e ao terapeuta da fala.

O psicólogo poderá ajudar, através da realização de técnicas e exercícios de relaxamento para a criança aprender a lidar adequadamente com o stress, ansiedade ou hiperatividade.

O Terapeuta da Fala ajuda, através de exercícios que permitam aliviar as dores que algumas crianças sentem ao acordar, principalmente ao nível da mandíbula e ajudando na adequação das funções da mastigação.

Quais as estratégias que os pais podem utilizar?
Podem tentar proporcionar um ambiente tranquilo antes do sono, através ou de uma música relaxante e/ou da leitura de uma história. Devem também evitar que a criança se envolva em atividades estimulantes no período imediatamente anterior à hora de deitar.

Outras sugestões passam por não prolongar o uso da chucha e do biberão, pois podem interferir no desenvolvimento dos dentes e criar alterações musculares e ósseas e que incentivem, desde cedo, a ingestão de alimentos consistentes que exijam uma correta utilização da função de mastigação.

Sónia Gaudêncio, Psicóloga Clínica e Diretora da ESTIMA +



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