TERAPIA OCUPACIONAL – MAS O QUE É AFINAL?

EO 2019 Saúde | Fonte: Pin - Centro de Desenvolvimento
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Na minha prática profissional já perdi a conta ao número de vezes que expliquei, traduzi e clarifiquei o que faço… por vezes é difícil simplificar uma profissão tão complexa. Frequentemente uso provérbios ou definições de pessoas que já usufruíram dos cuidados de um Terapeuta Ocupacional, o que mais gosto é o seguinte: “Dê a um homem um peixe e você o alimentará por um dia, ensine-o a pescar e você o alimentará a vida toda” (provérbio chinês)

Este texto, surge como resultado da minha reflexão sobre os tempos e as vozes que falam das crianças que já não brincam - ocupação principal significativa; dos adultos em burnout – desequilíbrio ocupacional; e dos idosos isolados e sem nada para fazer privação ocupacional… ouvem-se também vozes que falam em casas que não educam e escolas que não ensinam – papéis ocupacionais indefinidos.

Questionam-se premissas, dietas, hábitos e rotinas; em busca de dias mais calmos e serenos, que sejam vividos com mais felicidade e mais significância para cada um. Criam-se novas regras, para reencontrar velhos hábitos – escolas que proíbem o uso de telemóvel e os alunos encontram novas formas de se relacionarem. Ou seja, há uma crescente vontade de fazer mais, melhor, por forma a conseguir algo que nos faz sentir bem…. E esse fazer é feito através da Ocupação.

A Organização Mundial de Saúde definiu a Terapia Ocupacional como:

“A ciência que estuda a atividade humana e a utiliza como recurso terapêutico para prevenir e tratar dificuldades físicas e/ou psicossociais que interfiram no desenvolvimento e na independência do cliente em relação às actividades de vida diária, trabalho e lazer. É a arte e a ciência de orientar a participação do indivíduo em actividades seleccionadas para restaurar, fortalecer e desenvolver a capacidade, facilitar a aprendizagem daquelas habilidades e funções essenciais para a adaptação e produtividade, diminuir ou corrigir patologias e promover e manter a saúde.”

A Terapia Ocupacional, ao longo dos últimos anos (nos EUA) tem surgido sempre no Top 10 das profissões mais importantes e com futuro mais promissor. Existem inúmeros estudos que validam os benefícios económicos para as equipas de saúde e mais estudos ainda, que mostram a redução significativa do impacto da doença na vida das pessoas após intervenção com um Terapeuta Ocupacional. Há dados que mostram que nas escolas, os Terapeutas Ocupacionais contribuem para uma inclusão eficaz e para diminuição do abandono escolar, e são identificados como elementos chave nas equipas multidisciplinares. Infelizmente essa não é a realidade portuguesa… faltam Terapeutas Ocupacionais em todos os setores.

Pensar em Ocupação, leva-nos invariavelmente para ocupação de tempos livres; e porque escolheria eu um Terapeuta que me faz lembrar tempos livres?!? Ora, vou lançar um desafio:

Desafio 1
Imagine-se sem conseguir executar algumas das ocupações que faz diariamente?
Agora imagine-se nesse lugar por alguns dias, semanas, meses…?
É isso que as pessoas portadoras de alguma doença, ou desempregadas sentem… incapazes de fazer o que querem o que devem e até o que se espera delas.

Desafio 2
Imagine que o seu filho não consegue escrever com uma letra legível? Imagine que todos os dias recebe recados na caderneta que ele perde o material, morde as canetas…porque não consegue parar quieto na cadeira…
O seu filho passa todo o dia na escola, a sentir-se frustrado pelo insucesso numa tarefa “supostamente” simples no contexto ocupacional que compromete o papel de aluno, naquela que é a sua ocupação significativa principal – aprender. A noção de competência eficácia do seu filho esgota-se e fica em saldo negativo… e é bem provável que no seu papel de pai/mãe se sinta também frustrado.

Desafio 3
Imagine um dia no seu local de trabalho, onde não conseguiu atingir os objetivos a que se propôs, não havia café na máquina, a chefia estava de mau humor… e parece que tudo aquilo que fazia de forma automatizada, competente ficou assustadoramente difícil e inalcançável … vai para casa e a caminho de casa só pensa num banho quente… mas ainda tem que ir à escola buscar os miúdos, preparar o jantar e felizmente hoje não há atividades extra.
O seu dia está cheio de ocupações… mas só deu conta disso quando não as conseguiu realizar, ou quando não as fez de forma célere e automatizada. Talvez assim seja possível compreender que a ocupação dá sentido à vida.
O Terapeuta Ocupacional foca-se na pessoa enquanto ser ocupacional, no seu perfil e caraterísticas únicas, intervindo nas ocupações (das mais diversas formas) podendo e sempre que possível intervir ao nível do contexto.

Quando procurar um Terapeuta Ocupacional para o meu filho?

Algumas pistas:
1. Trapalhão nos movimentos, tropeça, cai frequentemente, tropeça nele próprio;
2. Brinca sempre a mesma maneira, não tem novas ideias;
3. Não consegue ficar sentado direito na cadeira, é feito de gelatina;
4. Confunde noções de esquerda/direta…
5. Não tem movimentos fluidos, vira-se todo para ir buscar um objeto;
6. Não consegue pintar, cortar com limites;
7. Escrita desorganizada, letra ilegível, muita pressão no lápis, pega estranha;
8. Dificuldades em vestir-se, calcar-se;
9. Não consegue apanhar objetos em movimento;
10. Não aguenta festas de anos, porque há muito estímulo, muito barulho;
11. Faz birras muito intensas, ‘do nada’;
12. A nível alimentar tem imensas dificuldades em variar a alimentação;
13. Nos momentos de transição de tarefas, demora algum tempo até ficar organizado;
14. É muito agitado, as pernas não param, fica sempre a ver TV de cabeça para baixo.
15. …

Creio que de uma forma global, deverá procurar um Terapeuta Ocupacional:

Sempre que sentir que o seu filho não está a desenvolver as competências normativas para a idade;
Sempre que a autonomia está comprometida;
Sempre que o insucesso nas tarefas for mantido, apesar de todos os seus esforços para o ajudar e os dele para concretizar;

“the doctor save my life, but the OT make it worth living” – O médico salvou-me a vida, mas foi o Terapeuta Ocupacional que fez valer a pena viver – são palavras duma pessoa que usufruiu de TO

PS.:
último desafio…
Na maior parte das vezes em que nos apresentamos a alguém, imediatamente após dizer o nome dizemos o que fazemos… a nossa Ocupação principal, aquela que nos dá um papel, uma identidade ocupacioinal.


Artigo desenvolvido por:

Mafalda Correia, Terapeuta Ocupacional