O JOÃO JÁ NÃO É TRAPALHÃO – UMA HISTÓRIA DE ACORDAR

EO 2018 Desenvolvimento | Fonte: Pin – Centro de Desenvolvimento
  • slider

Todos nós já ouvimos falar da criança trapalhona, que cai por tudo e por nada, que parece um boneco desarticulado. Então vou-vos contar uma história, igual a tantas outras.

Era uma vez o João, uma criança muito desejada e com um desenvolvimento dito normal. O João sempre foi desastrado, andava com nódoas negras a toda a hora, caía muito, esbarrava sempre em algum objeto.... mas como era muito curioso, inteligente, simpático, meigo, ninguém se preocupava com este lado mais desengonçado… "vai crescer, isso vai passar" e enquanto crescia mais trapalhão ficava.

O João foi crescendo com as suas lutas diárias nas tarefas quotidianas de vestir, despir, abotoar, cortar os alimentos, calçar sapatos, pintar… tudo era muito difícil e muito demorado. Os pais do João, ajudavam-no muito. Como grande parte dos pais dos amigos do João também se queixavam destes detalhes da vida familiar, o tempo foi passando e o João, foi crescendo num corpo cada vez mais descoordenado.

Um dia, numa festa de aniversário com o tema "mostra o ginasta que há em ti" os pais do João, puderam ver além do que alguma vez tinham visto: o seu filho, não conseguia fazer os mais simples exercícios. Era o único que não se conseguia equilibrar, não conseguia saltar ao pé coxinho, não conseguia apanhar a bola se estivesse a correr, ate descer o escorrega era bizarro. Esta festa, ocorreu na mesma semana da reunião com a educadora do João. A educadora mostrou algumas preocupações com a criança. O João não conseguia cortar, colorir dentro dos traços, o João pegava nos lápis duma forma esquisita, os desenhos eram muito confusos e pouco elaborados, o grafismo era de má qualidade -  tendo em conta a idade e todas as outras competências da criança. A educadora acabou a reunião a dizer "se eu não visse, não acreditava que eram trabalhos do João, ele é um menino tão inteligente".

Os pais do João, estavam confusos porque por muito que insistissem com o João, e treinassem com ele, tudo era uma tortura, toda a família estava em esforço permanente, mas os resultados teimavam em não aparecer.

Contra a opinião da família alargada, que achava que o João era desajeitado, que precisava era de fazer muita ginástica, que deveria era ter menos tempo de iPad e jogos de computador e logo ficaria melhor... os pais do João procuram ajuda especializada. O João foi avaliado por uma equipa multidisciplinar num centro de desenvolvimento infantil e os sinais acima descritos enquadravam-se no diagnóstico de Perturbação do Desenvolvimento da Coordenação Motora.

Na entrevista clínica, os pais do João, referiram que o João sempre foi uma criança que a nível motor não atingia, dentro da idade normativa, as tarefas normativas do desenvolvimento, isto é o Desempenho Motor, sempre foi significativamente abaixo do esperado. O João aos 18 meses ainda não andava, gatinhava de forma estranha, subir e descer escadas sempre foi uma aventura, pois o João demorava muito tempo. Não gosta de andar de bicicleta, nos intervalos não joga à bola com os colegas, nunca foi muito bom a fazer legos... entre outras dificuldades diárias, em atividades significativas e fulcrais do seu crescimento. Apesar de não falar muito nestas dificuldades, a verdade é que as noções de auto eficácia e Auto competência do João, estão comprometidas, pois cada vez mais o João diz, "eu não consigo".

A Perturbação do Desenvolvimento da Coordenação Motora, é uma entidade nosológica que tem sido estudada de forma mais intensiva nas últimas décadas. Atinge mais os rapazes que as raparigas, e surge em cerca de 6% das crianças entre os 5 e os 11 anos.

Os sinais de alarme estão diretamente ligados a tarefas motoras básicas do desenvolvimento, como sentar, gatinhar, andar, subir escadas, atar atacadores, saltar ao pé coxinho, atirar, andar de bicicleta, colorir, cortar, escrever... As dificuldades podem surgir de forma subtil, mas têm sempre um grande impacto no desempenho ocupacional destas crianças, isto é, as repercussões nas atividades da vida diária são significativas, interferindo diretamente no rendimento escolar, nos processos de autonomia e até mesmo nas relações sociais.

Os sintomas surgem durante o período inicial do desenvolvimento, porém é muito frequente que as queixas se tornem mais evidentes na entrada para a pré-primária ou primária, uma vez que a exigência do trabalho de motricidade fina em contexto de sala é maior, e a criança que até então era vista como trapalhona, começa a não acompanhar os pares nas tarefas académicas. Pelo que é frequente o diagnóstico ser formulado após os 5 anos.

É muito importante referir que esta Perturbação não está associada a outra condição médica, nem surge com compromisso cognitivo. Estas crianças têm dificuldades nas motricidades grosseira, fina e orofacial, com impacto significativo na funcionalidade da criança. É necessário encaminhar para intervenção especializada, pelo um técnico de saúde que saiba avaliar e criar um programa de intervenção específico para otimizar os recursos e diminuir as dificuldades.

Nem todas as crianças trapalhonas têm um diagnóstico de Perturbação do Desenvolvimento da Coordenação Motora, é muito importante reforçar que têm de existir alterações qualitativa e quantitativas do desenvolvimento, que há um impacto na funcionalidade da criança, que os sintomas surgem no início do desenvolvimento e que não há uma condição medica associada.

O João tinha 5 anos, e até esta avaliação era apenas uma criança trapalhona, desajeitada que tentava e não conseguia. Certamente conseguimos imaginar o curso de vida deste menino caso ele não tivesse sido orientado para um centro de desenvolvimento infantil onde a página da trapalhice foi virada, e surgiu um novo capitulo desta história. O João quer ir para os escuteiros, quer aprender a fazer ‘aqueles nós das tendas’… ainda bem que o João não desistiu só porque é difícil, ainda bem que os pais do João juntaram as peças do puzzle e procuraram ajuda.


Texto desenvolvido por Mafalda Correia
Terapeuta Ocupacional e Terapeuta Familiar.







PIN - Centro de Desenvolvimento
Acompanhe também o Facebook.