AS CRIANÇAS E O RISCO

EO 2017 Desenvolvimento | Fonte: Pin - Centro de Desenvolvimento
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A procura de sensações novas, intensas e diversas é algo que funciona, especialmente em idades precoces, como o principal motor de desenvolvimento.

O risco é inerente à vida humana. A procura de sensações novas, intensas e diversas é algo que funciona, especialmente em idades precoces, como o principal motor de desenvolvimento - a procura do boneco estendido numa altura acentuada, o descer de escadas pautado pela insegura coordenação motora, a bicicleta que cai muitas vezes até ser “domada”, a velocidade e a adrenalina do primeiro namoro ou saída noturna - imagens do mundo que vamos montando para construir as nossas próprias possibilidades e o conhecimento sobre o que nos rodeia.

O risco pela sua definição é uma medida limite de avaliação de uma situação e das suas possíveis consequências, uma forma de comparação entre o o valor da ação  para a pessoa e a probabilidade da ocorrência do impacto negativo da mesma. Esta avaliação que constantemente fazemos do risco das nossas ações é um processo que nós vamos aprimorando ao longo do desenvolvimento e se torna cada vez mais imediato, o que não implica que não seja influenciado por um conjunto inúmero de variáveis que nem sempre levam a que a melhor decisão seja tomada.

Se na generalidade das crianças existe um intrínseco desejo de explorar e “desbravar” o mundo à sua volta, correndo inerentes riscos, noutras esta procura pela estimulação que a ação arriscada lhes provoca acaba por ser excessiva e levar a um maior número de acidentes físicos. A nível neurobiológico existe um nível ótimo de estimulação aquando a realização de uma atividade, sendo que depois desse nível o receio, ansiedade e insegurança, levam a que a ação  seja interrompida ou modificada para bem de quem a realiza. O que se pode observar em algumas crianças é que este nível só é atingido quando a ação que está a ser realizada já acarreta elevado risco de acidente ou contrariedade.

Quando este traço comportamental está presente além do maior número de acidentes físicos, existe também repercussão indireta nos pais, que se tornam naturalmente mais vigilantes e com maiores níveis de stress face à exploração do contexto por parte da criança.

A associação deste traço comportamental a algumas perturbações do desenvolvimento é bastante frequente, destacando-se a perturbação de hiperatividade e défice de atenção, em que entram em interação a necessidade de estimulação mais intensa e a impulsividade/pouco planeamento da ação característica deste quadro clinico.

Pela sua prevalência e importância torna-se cada vez mais importante realizar uma avaliação cuidada deste traço e perceber que riscos pode acarretar no comportamento da criança. Como sinais de alerta para os pais, podemos destacar:

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Necessidade da criança de levar ao extremo as atividades que realiza.
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Procura constante de novas experiências, em atividades nunca experimentadas, sem modelo prévio de comparação.
-  Sensação de bem-estar e satisfação evidente mesmo perante atividades de perigo.

Em suma, perceber que se existe um instinto explorador de espécie que nos torna mais felizes e capazes de nos relacionarmos com o mundo, este ímpeto para o fazermos pode ter uma expressão excessiva e intensa que pode fazer o limite ficar demasiado longe para uma segurança que se quer perto.


Texto desenvolvido por,
Luís Fernandes Técnico Superior de Reabilitação Psicomotora


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