TIRAR A MÁSCARA À SÍNDROME DE ASPERGER NO FEMININO

EO 2018 Desenvolvimento | Fonte: Pin - Centro de Desenvolvimento
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O Autismo é um diagnóstico esmagadoramente masculino. A investigação epidemiológica para as Perturbações do Espetro do Autismo (PEA) indica que só uma em cada quatro das pessoas diagnosticadas com uma PEA é mulher.

E se nos focarmos no extremo menos grave do espectro do autismo, no qual podemos enquadrar a Síndrome de Asperger (SA), esta diferença é ainda maior, sendo os rapazes 10 vezes mais diagnosticados do que as raparigas. Mas são as raparigas realmente menos propensas a ter uma PEA ou estão apenas a “passar pela peneira”? Será que elas são apenas melhores que eles na adaptação a situações sociais ou simplesmente são mais habilidosas em fingir não ter autismo? Ainda sem respostas empiricamente validadas, a nossa experiência clínica sugere-nos que as raparigas são menos diagnosticadas com uma PEA porque as suas características não são reconhecidas como tal.

As mulheres com SA são diferentes, não apenas em termos da manifestação das características essenciais, mas também em termos da sua reação a ser diferente. Em geral, a expressão das características é mais subtil, não se enquadrando nas descrições mais comuns do que é a SA, que se prendem mais com um perfil de características masculino.

Parecem ser vários os factores que contribuem para a discrepância Rapazes vs. Raparigas, entre eles: genéticos, o estereótipo do comportamento feminino e masculino, a subtileza na expressão das características e a capacidade das raparigas em camuflar as mesmas, e outras perturbações que mascaram o problema essencial.

Para evitarmos correr o risco de deixar uma rapariga com SA “passar pela peneira”, ser mal-diagnosticada ou não diagnosticada de todo e assim lhe ser vedado o caminho para um suporte e terapêutica adequados, é fundamental estarmos alerta para os sinais desta síndrome no feminino.

As raparigas com SA habitualmente têm maior motivação para estabelecer interações sociais. Contudo, apesar do seu esforço neste sentido, denota-se a sua imaturidade social devido às lacunas nas competências sociais, dificuldade em compreender e resolver conflitos com pares e manter estas relações ao longo do tempo. Podem ter poucas relações de amizade, na maioria das vezes, uma ou duas, mas muito intensas.  Facilmente se tornam vítimas da sua ingenuidade e honestidade, sendo um alvo mais fácil de humilhação pelos pares. Podemos encontrá-las mais isoladas, não obstante a vontade que têm em fazer amigos. Nas raparigas em geral, as relações de amizade estabelecem-se em torno da partilha de pensamentos, emoções e atividades, sendo que a conversação assume um papel importante, focando-se mais em temas sociais e partilhas pessoais. As raparigas com SA interessam-se menos por estes tópicos (ex. relações com rapazes, moda, música, maquilhagem) e têm grande dificuldade em acompanhar as conversas e enredos típicos da adolescência.

Os interesses especiais, que nos rapazes com SA são frequentemente invulgares (ex. editoras, bandeiras, aviões, dinossauros, etc.) e com pouca utilidade social, nas raparigas com SA não diferem muito do que é típico entre os seus pares. No entanto, estes interesses são vivenciados de modo distinto, por exemplo, uma menina pode gostar de brincar com Barbies, mas em vez de brincar ao faz-de-conta, está mais interessada em colecionar as bonecas, vesti-las e despi-las repetitivamente, arrumá-las de modo especial em categorias segundo um critério, alinhá-las, etc.

Se olharmos atentamente para o modo como brincam, as meninas com SA podem denunciar algumas particularidades associadas à síndrome. A “olho nu” parecem brincar ao faz-de-conta, no entanto, as suas brincadeiras são frequentemente uma reprodução da realidade, bem ensaiadas e repetidas vezes sem conta, onde podem ser mais competentes a utilizar objetos segundo a sua função específica (jogo funcional) do que a atribuir-lhes novos significados/utilidades (jogo simbólico). As brincadeiras podem desenrolar-se em torno da organização dos objetos, mais do que a elaboração criativa de histórias. É-lhes difícil abrir a brincadeira a outros agentes, e serem recíprocas numa interação conjunta. Podem ser muito controladoras nas brincadeiras com os outros, o que pode aparentar uma atitude de liderança, mas na realidade refletir a sua dificuldade em seguir as ideias e regras dos outros e em colocarem-se na perspectiva destes. Quando a brincadeira não decorre como imaginaram, tendem a sentirem-se perdidas, a entrarem em conflito ou a afastarem-se.

Outras meninas com SA não chegam a brincar ao faz-de-conta, preferindo atividades que apelam mais à lógica e raciocínio, sendo fãs de puzzles, Lego, jogos e em aprender coisas novas.

Muitas raparigas com SA interessam-se por um mundo de fantasia, lendo ou escrevendo histórias, que podem permitir criar um mundo alternativo, ficcionado, que serve de escape à vida real, na qual se confrontam com adversidades, como a dificuldade em fazer ou manter amigos, interagir com quem não se conhece, lidar com mudanças na rotina, etc. Por vezes, imaginam histórias, ficando “no seu mundo”, por longos períodos, como se um filme estivesse a ser exibido na sua cabeça. Estes momentos fazem parte da sua rotina, funcionando como uma forma de relaxar e processar informação. Por vezes, esta elaboração de histórias é acompanhada de movimentos estereotipados.

As pré-adolescentes e adolescentes com SA podem seguir a “moda” das séries televisivas, cantores(as) ou bandas de música, no entanto, comparativamente com as suas colegas, o seu interesse é excessivamente intenso, obsessivo e até limitativo da sua atenção a outras atividades.

Habitualmente apresentam grande motivação e esforço para o sucesso académico. Contudo, os resultados não são condizentes com esta mesma dedicação, por exemplo, pelas interpretações literais que lhes são características. Algumas alunas conseguem ter boas notas em todas as disciplinas, excepto Educação Física, devido à sua falta de habilidade e coordenação motora, típicas da SA. Em sala de aula apresentam um comportamento adequado, seguindo as regras previamente (e explicitamente) estabelecidas. Contudo, os professores e pares tendem a considera-las “estranhas”, mas sem conseguir definir em que se traduz esta estranheza. São geralmente mais hábeis do que os rapazes a mimetizar comportamentos e a serem “bem-educadas” numa situação formal, por exemplo com adultos, mas começam a revelar dificuldades numa interação mais espontânea, menos orientada por um “guião”, como acontece com alguém da sua idade.

As características da SA nas raparigas podem também ser escondidas por outros sintomas e diagnósticos. A ansiedade é um deles. A dificuldade em saber como se integrar num grupo, participar numa conversa, aceitar ou não um convite para um evento social, etc., podem ser vários dos factores por detrás da sintomatologia ansiosa. As meninas com Mutismo Seletivo devem ser avaliadas considerando-se a suspeita de SA, uma vez que, a ansiedade excessiva em situações sociais pode contribuir para não falar em determinados contextos, como forma de evitar a exposição e envolvimento social. Os sinais de um humor deprimido numa rapariga adolescente, em simultâneo, com dificuldades nas relações sociais poderão também mascarar outras características de um diagnóstico mais abrangente do que uma perturbação do humor, como a depressão.

Dada a sobreposição de algumas características entre a Anorexia Nervosa e a SA, particularmente nas raparigas, os sinais e sintomas da primeira devem alertar-nos também para despistarmos a segunda. As hipersensibilidades sensoriais típicas de uma PEA, que se refletem em seletividade alimentar em conjunto com a tendência para a rotina e obsessões podem conduzir a uma perturbação do comportamento alimentar, vista apenas como tal, encobrindo uma PEA.

Assim, é fundamental estarmos atentos aos sinais de uma possível PEA nas raparigas, de modo a realizar uma avaliação específica e permitir a uma intervenção terapêutica adequada, tão precocemente quanto possível, com vista a minimizar as dificuldades e promover as suas competências.


Artigo desenvolvido por,
Inês Leitão – Psicóloga Clínica
Joana Terra – Psicóloga Clínica




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