RITMOS DIFERENTES. HARMONIAS PERFEITAS

EO 2017 Testemunho | Escrito por Joana Soares
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Relembro o dia em que uma voz doce me disse: “Mãe, eu acho que o Tiago vai ser um menino diferente!”.

Senti o chão fugir-me. As mãos gelaram. As palavras calaram-se. Entre as lágrimas que não contive e as palavras duras que gritavam na minha cabeça e que teimavam em não sair, senti a minha pequenez, a minha mais completa incapacidade. Mas relembro também que este dia foi decisivo.

Estava longe, sei-o hoje, de imaginar o que teria pela frente. Mas percebi que tinha de começar tudo de novo. Tinha de aprender. Tinha de perceber. Arrumei o que sabia das coisas mais banais e mais intelectuais que me tinham ocupado horas, anos da minha vida e parti para um mundo que desconhecia. Era outro o rumo. Outra a viagem. Para um destino que tem apenas um ritmo mais calmo, diferente, bem diferente, mas que merece bem a viagem. Reinventei-me, por isso.

O que é fundamental perceber é que a diferença, o ritmo mais calmo, não nos retira do mundo. Continuamos cá, com todos os outros que têm um ritmo alucinante e que ziguezagueiam por entre nós. A diferença só tem a peculiaridade de não nos permitir andar ao ritmo aparentemente perfeito da maioria. A diferença não impede de percorrer os mesmos caminhos, de sentir as mesmas coisas, de ver e desejá-las. A diferença tem prazer, a diferença tem alegria, tem sorrisos, tem música, tem cócegas, tem fome de hamburgers e pizza, tem sede de mar, tem vontade de brincar, de fazer castelos de areia, de rebolar na relva, de dar um chuto na bola, de fazer festas, de dar as mãos, tem vontade de dar uma volta de bicicleta e de mergulhar.

E a diferença tem também vontade de ganhar, de se superar. Mesmo quando é mais difícil. Mesmo quando é aparentemente impossível. E o que é fantástico é que há harmonia perfeita nessa vitória.

Há então que experimentar. Experimentar tudo. Levar ao extremo as experiências mais banais e simples. Há que fazer sentir e mostrar que se sente como os outros, que se faz o que os outros fazem, mesmo que de outra maneira, mesmo que de forma diferente, imperfeita, mesmo que a custo. E há que percorrer os mesmos caminhos, mesmo que se passem horas a fio a tentar sarar o “cérebro ferido”.

São estas experiências, as mais variadas – desde a simples ida a um parque, à ida a um museu, desde o simples brincar com a areia às grandes construções de uma Casa Inacabada, desde o simples trautear à ida a um concerto. Estas experiências enriquecem e enriquecem todos e a todos os níveis. Pela proximidade com o que é dito “normal”, pela criatividade que põem a fervilhar, abrindo espaços, caminhos, interesses, gostos, moldando personalidades, pelo desafio que lançam, pela vontade instigante de superar os limites da diferença.
Mas estas experiências enriquecem também porque envolvem outros. Envolvem uma dinâmica. Envolvem pares.

E aqui é fulcral o papel das atividades lúdicas e desportivas. É aqui que se lançam os desafios. É aqui que se tem sede de superação dos limites e é aqui que se joga a harmonia perfeita daqueles que têm apenas alguns traços diferentes. É aqui que se trabalha a autoestima e a autoconfiança. E é tudo válido. Mesmo as experiências mais improváveis.

Quem imaginaria que o Judo, por exemplo, seria pensável, adequado sequer a uma criança com dificuldades motoras, com problemas de equilíbrio? E a dúvida desaparece com o enorme gigante sorriso quando pisa o tapete, com o olhar feliz com que, à sua maneira, exibe os truques que aprendeu, quando faz cair os outros e cai. É a sua vitória. Tecnicamente imperfeita. Harmoniosamente perfeita.

Viajemos então pelo mundo das experiências. Só temos de caminhar com eles. E divertimo-nos. Divertimo-nos imenso.

Texto escrito por Joana Soares,
Mãe do campeão Tiago.