O QUE SE VÊ NUM PREMATURO? SINAIS A VIGIAR

EO 2018 Desenvolvimento | Fonte: Pin - Centro de Desenvolvimento
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Quando se olha para um prematuro, provavelmente o que mais se destacará é a capacidade de sobrevivência. Nascido com um desenvolvimento, peso e tamanho muito abaixo dos esperados, este bebé encontra inúmeros obstáculos pela frente.

Com maior ou menor número de semanas de gestação, a maioria consegue ultrapassar as adversidades da neonatologia e vai para casa. No entanto, o que se pode ver num prematuro é também o resultado de uma imaturidade em vários órgãos e de um processo longo de internamento com muitos procedimentos dolorosos e invasivos. Esta combinação pode trazer sequelas a curto, médio ou longo prazo e obriga a um olhar cada vez mais atento por parte da família, dos médicos e educadores. Ter à nossa frente uma criança que nasceu prematura deverá conduzir-nos a uma atenção redobrada.

Independentemente do ritmo de cada um, as consequências da prematuridade no desenvolvimento podem ser reais. Assim sendo, há sinais nos primeiros anos de vida, aos quais se deverá estar atento. Deixamos aqui alguns desses sinais:

- Observar se o bebé direciona o corpo, a cabeça, o olhar para a voz dos pais e para outros outros sons.

- Se produz diferentes tipos de choro conforme as necessidades (fome, sono, desconforto) e se produz sons para transmitir prazer. À medida que cresce, o bebé começa a fazer sons cada vez mais diferenciados e comunicativos, até começar a esboçar as primeiras palavras com cerca de um ano de idade e as primeiras frases por volta dos dois.

- Para além da fala, importa observar a comunicação não verbal. Antes de falar, o bebé começa a usar formas de comunicar através de gestos como o apontar, o fazer adeus, o “não há”, o acenar que sim ou não com a cabeça, atirar beijinhos, fazer adeus, entre muitos outros.

- À medida que o sistema visual se vai desenvolvendo o bebé vai sendo capaz de estabelecer contacto ocular, é importante estar atento a esse contacto nos momentos de interação (o bebé segue os pais com o olhar? Olha-os nos olhos nos momentos de interação?).

- O sorriso social é também um marco importante que surge a partir do primeiro mês de vida (corrigido) e deverá ser frequente nos momentos de brincadeira e de proximidade com os pais ou outros cuidadores.

- O bebé vai progredindo no seu estado de alerta, ficando progressivamente menos tempo a dormir e mais disponível para interagir com o adulto. Muitas vezes o sono, pela vivência dos ruídos, luzes e ritmos de uma neonatologia, pode vir a ser uma área afetada no prematuro.

- À medida que os meses passam, o bebé vai conseguindo fazer um controlo motor cada vez maior (segura a cabeça, senta-se sem apoio, agarra os brinquedos, levanta-se agarrado, anda sozinho). É importante vigiar estes grandes marcos e observar se o bebé parece demasiado “mole”, como se tivesse pouca força, ou se pelo contrário se mostra muito rígido nos seus membros superiores e/ou inferiores. Será também importante estar atento à simetria (se por exemplo consegue agarrar os objetos com ambas as mãos).

- A progressão do padrão alimentar evolui de acordo com as suas competências motoras globais e oromotoras e também gástricas. O bebé prematuro pode ter sequelas ao nível alimentar (dificuldades na deglutição, hipersensibilidade a texturas, vómitos frequentes, recusa de sólidos...).

À medida que o bebé vai crescendo e começa a frequentar o infantário, é ainda importante observar como é que decorre a sua integração. A comunicação entre os pais e o contexto escolar será essencial na sinalização de sinais preocupantes, tais como:

- Isolamento das outras crianças ou recusa de interação; Se parece desinteressada do que a rodeia (não reage ao nome, não se aproxima do grupo)
- Comportamentos repetitivos (alinhamento excessivo dos brinquedos; fixação no mesmo brinquedo; movimentos repetitivos com o corpo, tais como abanar as mãos.
- Dificuldades na aprendizagem (se parece não adquirir ou memorizar os conceitos que são esperados dentro da sua faixa etária)
- Se apresenta aparentes “birras”, que se distinguem das normativas pela sua elevada frequência e intensidade.
- Se mostra dificuldades ao nível da motricidade (quer na motricidade global, quer na motricidade fina, nomeadamente nas tarefas pré-académicas como os grafismos).
- Se mostra alterações ao nível sensorial (exemplo: tapa os ouvidos perante determinados sons; leva os objetos à boca numa idade em que já não é espectável; apresenta recusa em tocar em determinadas texturas...)

Cada um destes sinais pode, por si só, não ser significativo. Pode ter um carácter transitório ou pode apenas representar uma ligeira demora na aquisição das etapas normativas. Estar atento não significa viver em ansiedade, nem prolongar infinitamente o sofrimento vivido numa neonatologia. É importante valorizar todas as conquistas feitas pela criança prematura e compreender as diferenças entre idade cronológica e idade corrigida. O objetivo da vigilância prende-se com a possibilidade de agir atempadamente e encaminhar para uma avaliação e intervenção especializadas, se necessário.

Quanto mais precoce for a intervenção, melhores serão as probabilidades de reduzir as sequelas a longo prazo. Independentemente desta observação atenta dos sinais de alerta, o olhar para um prematuro é sempre um olhar de admiração. Para ele, para a sua família, para a sua enorme, incomparável e admirável resiliência.

Artigo desenvolvido por:

Ana Paris Leal – Terapeuta da Fala
Carla Almeida – Técnica de Educação Especial e Reabilitação (mãe de 2 prematuros)