O MEU FILHO ESTÁ A GAGUEJAR... MAS PODE SER QUE PASSE!

EO 2017 Educação | Fonte: Pin - Centro de Desenvolvimento
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É tido como parte do desenvolvimento da criança que esta passa por momentos ou fases em que gagueja.

Aparece em alguns livros já um pouco antigos: gaguez do desenvolvimento. O que leva a perpetuar a crença que a gaguez faz mesmo parte do desenvolvimento, tal como gatinhar – Não faz!

Mito 1 - A gaguez deve-se a um susto
Esta crença traz dois problemas. Por um lado gera facilmente um sentimento de culpa na família, "se eu tivesse tomado melhor conta", "se eu tivesse estado mais atento e ajudado a lidar com a situação"...; Por outro lado, se a criança fosse mais forte e não tão frágil e/ou sensível não teria ficado com esta sequela.
Nenhum dos dois é uma mais-valia para o funcionamento familiar. Sustos ou traumas não provocam ou despoletam gaguez.

Apenas 5% das crianças, quer meninos, quer meninas, experiência uns dias ou mesmo meses em que são audíveis: repetições de palavras; repetições de sílabas; repetições de fonemas (sons de fala); palavras partidas (ex.: que · ro); bloqueios, i.e. comportamentos primários. E podem ser visíveis, por vezes, quando fala: piscar os olhos; esgares faciais; bater o pé, a mão, os dedos, entre outros, i.e. comportamentos secundários. Ou ainda poderão notar-se alterações como: falar com uma voz tipo desenho animado; evitar falar; abandonar a frase que iniciou, entre outros.

Nem todas as crianças apresentam todos os possíveis sinais e sintomas referidos anteriormente. Se são observados algum(ns) dos dois últimos, isso é um sinal de alarme pois significa que conscientemente, ou não, a criança está a desenvolver estratégias que podem não ser as mais adequadas para que falar não seja "tão difícil".

As crianças podem apresentar uma gaguez transitória que pode vir a desaparecer espontaneamente, tal como apareceu, como pode vir a ser uma gaguez permanente.

Quais são os fatores de risco?
- Historial familiar – há pessoas na família que gaguejam
- Género
- Idade em que surgiu
- Tempo desde que surgiu e permanece
- Outras alterações do Desenvolvimento da linguagem e/ou fala
- Temperamento
- Observação de comportamentos secundários

Mas não é demasiado pequenino para fazer terapia da fala?
Não. Não fazer nada é que não é solução. O terapeuta da fala pode esclarecer dúvidas e responder a perguntas de modo a que informado, monitorize o que observa na fala da criança. Pode esclarecer como se podem prevenir determinados aspetos menos adequados e que esses sim podem ser responsáveis por uma gaguez que era transitória vir a ser permanente. Tais como o ambiente: as pessoas que estão mais frequentemente com a criança têm uma responsabilidade e um papel crucial no modo como interagem com a criança.

O ambiente em que a criança está inserida é determinante. É fundamental o adulto saber como reagir quando uma criança gagueja e gerir as reações das outras crianças.

O que não dizer ou fazer:
Dizer “Tem calma!”, “Respira!”, “Fala devagar!”, “Pensa antes de falar!” ou “Quando tu queres falar bem consegues”, desviar o olhar, remeter a conversa para mais tarde.

Como reagir:
- Não interromper ou terminar as palavras ou frases
- Manter o contacto ocular
- Ouvir até ao fim
- Falar mais devagar sem que seja tão lento que parece pouco natural i.e. robótico
- Quando a criança pergunta algo, aguardar uns segundos antes de responder isto vai dar-lhe a sensação que tem tempo
- Tente não responder de modo que parece que está chateado/a se eventualmente a gaguez é mais evidente, pois vai dar-lhe a sensação que o modo como fala não é aceitável. A sua atitude vai ajudar.
- Se a criança está frustrada porque está num momento em que "as palavras custam a sair", ajude-a dizendo-lhe que por vezes isso acontece a outras crianças e até a outras pessoas, porque falar, por vezes, é difícil.

Crianças que gaguejam e o Bullying
A possibilidade da criança que gagueja ser vítima de gozo e/ou bullying é uma grande preocupação dos pais.

E com razão! De facto, a criança que gagueja tem um risco acrescido de ser gozada, pois trata-se de uma diferença mais ou menos evidente para quem convive com ela. As crianças que gostam de gozar com os outros procuram sempre diferenças - que até podem parecer inofensivas para o adulto mas que têm grande impacto na criança: "trinca-espinhas", "caixa de óculos", tem telemóvel de "teclinhas"... Não lhes basta assinalar a diferença, o agressor procura a reação negativa. Neste aspeto, a gaguez, se for uma diferença positiva ou neutra já não terá o mesmo efeito: "Sim gaguejo, e então?".

Este tipo de atitude, embora difícil, tem de começar em casa com os pais. Se em casa a gaguez não for defeito e se puder ser discutida francamente está aberto o caminho para a auto afirmação. Além destes momentos de discussão permitirem descobrir formas de responder às crianças e adultos que não sabem nada sobre gaguez e até combater os seus preconceitos. Esta atitude de afirmação tem de ser cultivada desde cedo, pois o preconceito não termina com a escola. Afinal, porque não haveria uma criança que gagueja poder fazer tudo?

Como podem os pais ajudar?
⁃ Importante: não culpabilizar a criança!

Frases como: "Queixinhas", "És mesmo sensível, não podes ouvir nada", "Não foi nada de especial", "Esquece lá isso", "Grande coisa", "Não tinhas nada que ficar chateado, não foi nada de mais", "E então, gaguejas, estavas à espera de quê?", "E não fizeste nada?"... Até que ponto estas e outras frases (que até podem ser bem intencionadas) ajudam criança? Que dizem sobre ela própria?

⁃ Serem confidentes calmos e sem julgamentos
Em todas as situações, e não só quando houve gozo, permite que a criança se sinta segura para desabafar sobre qualquer coisa sem ter medo que os pais diminuam ou exacerbem os seus sentimentos. É importante ser um bom ouvinte e ajudar a criança a perceber se estavam com curiosidade sobre a gaguez ou se tinham má intenção para que a reação seja mais adaptada. As crianças devem aprender a criar e a manter laços, sem se isolarem.

⁃ Conversarem com os professores sobre a gaguez
Esta conversa permite conhecer as dúvidas do professor em relação à gaguez e assim ajudar a uma melhor adaptação dos desafios da aula ao aluno. A atitude positiva ou neutra do professor face à gaguez e ao gozo é extremamente importante para dar o modelo à turma e, assim, prevenir o gozo/bullying, pois ao ficar esclarecido desde o início que a gaguez não é nenhum problema, mas sim uma característica e que ninguém deve ser gozado por isso. Uma apresentação sobre a gaguez para a turma com o consentimento do aluno pode ser útil na prevenção do bullying.

Uma outra sugestão é propor à professora a possibilidade da criança poder confidenciar com ela em privado sobre os colegas e juntos decidirem como agir.

Outro assunto a discutir é, em caso de gozo/bullying, o que a criança deve fazer. Algumas escolas têm um protocolo para estes casos, mas é aconselhável discutir qual o nível de gravidade suficiente para acionar e a que pessoa(s) se deve dirigir.

Se permanecer há mais de seis meses a um ano quais serão os objetivos da intervenção em terapia da fala?

Os objetivos irão sempre envolver a família e o que o próprio nota como mais difícil quando fala, mas também o impacto na qualidade de vida da criança. O que deixa de dizer de modo a gaguejar menos; aponta em vez de falar, entra calado na escola e sai sem dizer quase nada e participar nas conversas.

Tem questões para as quais gostava de obter respostas? Pode contactar-nos por e-mail.

Conteúdos desenvolvidos por: Jaqueline Carmona, Joana Caldas & Rita Santos - Terapeutas da Fala no PIN, European Clinical Fluency Specialization – com Especialização em Perturbações da Fluência (Gaguez).



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