INTEGRAÇÃO SENSORIAL NA CRIANÇA

EO 2018 Desenvolvimento | Fonte: Pin - Centro de Desenvolvimento
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O mundo chega-nos das mais variadas formas… pela luz, pelo som, pelos cheiros… pelo sentir.

Se fizermos o exercício de fechar os olhos, e por um momento pensar num parque infantil e formos detetives, conseguimos leigamente classificar as crianças de acordo com as suas conquistas… o que sobe o escorrega ao contrário, o que evita sequer trepar um degrau, o que não consegue tocar na relva… o que anda no baloiço de cabeça para baixo… vemos e gravamos o que eles conseguem ou não conseguem fazer…. Mas jamais no passa pela cabeça, o complexo processo interno de resposta a desafios… de input e output.

Drª Jean Ayers terapeuta ocupacional, psicóloga educacional e neurocientista, desenvolveu o conceito de Integração Sensorial, nos anos 60 foi a primeira a defender que a Integração Sensorial influencia o comportamento e aprendizagem complexa. O trabalho pioneiro da Drª Ayers, propõe que a Integração Sensorial é um processo em que o cérebro organiza e interpreta a informação que recebemos dos sentidos (vestibular, propriocetivo, gustativo, visão, olfativo, tátil, auditivo) por forma a usar de forma eficaz o nosso corpo nos contextos onde estamos inseridos; por outras palavras, o cérebro recebe, organiza, interpreta e processa as informações sensoriais do corpo e do ambiente, de modo a que o mundo nos faça sentido e possamos agir sobre o mesmo.

Além dos 5 Sentidos

As sensações são os nutrientes do cérebro, sendo que cada milímetro do nosso corpo envia informações sensoriais para o cérebro… e cada sensação é informação. Para um desenvolvimento pleno, o cérebro precisa de forma continua e variada de ser nutrido por diversos tipos de sensação, por forma a maturar e emitir respostas adequadas. Desde bebés que somos inundados de informações sensoriais, de sensações que nos vão apresentando o mundo.

É possível, à luz da Integração Sensorial, entender a forma como a criança reage aos desafios do meio. O processamento sensorial, com foco nos sentidos que dão informação do corpo (vestibular, propriocetivo e tátil), permite-nos compreender melhor o comportamento da criança. Estes sentidos primitivos, são particularmente importantes, pois são os primeiros a desenvolver-se, são dominantes na interação da criança com o meio nas fases precoces de desenvolvimento, e são os alicerces para a aprendizagem e comportamento. Os outros sentidos, que nos informam sobre o mundo (olfativo, visão, auditivo) vão se maturando e tornando cada vez mais apurados ao longo do crescimento.

Para que uma criança mostre que fez a integração sensorial de forma adequada, é necessário que ela mostre uma resposta adaptativa. Esta resposta é feita pela criança, ninguém a pode fazer por ela, e é por isso que as crianças gostam de se experimentar e de aumentar o grau de desafio das tarefas. A resposta adaptativa foi definida em 1979 pela Drª Ayers como uma “ação apropriada em que o individuo responde com sucesso a uma exigência do meio”. Para que possamos desempenhar as nossas funções é necessário que consigamos integrar todas as sensações, e responder de forma eficaz com o meio. As crianças têm uma capacidade inata para responder de forma adaptativa ao meio, esta capacidade foi definida por motivador interno ou “inner drive”. Quando lhe é oferecido o desafio adequado ou just right challenge o sistema nervoso procura oportunidades de desenvolvimento através da resposta adaptativa.

Este conceito foi descrito como um dos alicerces mais básicos no desenvolvimento da criança; a criança dá significado e interage com o meio, através da organização da informação sensorial e da capacidade de criar uma resposta adaptativa que seja evidente nas diversas áreas (motora, socio emocional, cognitiva e da linguagem).

E quando o simples se torna complexo?

Qualquer criança que percecione o mundo de uma forma atípica, com base em dificuldades sensoriais, sejam elas ligadas ao processamento, modulação, registo… terá certamente respostas mal-adaptadas, e como tal irá perder oportunidades de aprendizagem e crescimento dentro dos padrões ditos normais. Sendo que é importante não ignorar a unicidade de cada criança, é muito fácil identificar crianças que no seu dia-a-dia enfrentam desafios extra, pois o seu perfil sensorial não lhes permite interagir de forma eficaz com o meio.

Atrasos ou dificuldades em capacidades motoras grossas e/ou finas, problemas de equilíbrio, coordenação pouco eficaz, intolerância ao toque, aumento das birras em contextos mais ruidosos… são alguns dos sinais de desordem no processamento sensorial. O impacto na funcionalidade é o que faz com que os adultos responsáveis procurem ajuda, pelo que muitas vezes só no contexto académico, se levantam as dúvidas. Quando a letra é horrível, quando a criança não consegue estar com a cabeça erguida durante a aula… quando não consegue pintar a caneta, pois não tolera o ruído da caneta no papel…

Recordo aqui, uma menina que adorava dançar… que tinha de usar collants…, mas era tão tao difícil para ela usar os collants, faziam comichão, arranhavam, pareciam cola e ela não se conseguia concentrar na música, na coreografia no prazer de dançar.  Assim o que mais adorava fazer transformava-se num momento agridoce, mais agri… essa menina, doce e corajosa, com quem tive o privilégio de trabalhar…. já dançou tantas musicas (algumas comigo)… já se fardou de collants e notas musicais… já teve os seus saraus de final de ano…

Nunca é demais relembrar, nenhuma criança gosta de insucesso. Todas as crianças querem ser mestres e ter maestria… e se não conseguem, provavelmente é mesmo isso ‘não conseguem’, ao contrário do que comummente se diz… ‘só não consegue quem não quer…’, às vezes é mais forte que eles, e não conseguem mesmo!

É muito importante estar atento, ver, reparar e pedir ajuda.

Artigo desenvolvido por,
Mafalda Correia - Terapeuta Ocupacional, Formação Avançada em Integração Sensorial



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