COMPORTAMENTO ALIMENTAR DOS ADOLESCENTES E REDES SOCIAIS ... EIS A QUESTÃO!

EO 2019 Educação | Fonte: Pin - Centro de Desenvolvimento
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O comportamento alimentar das crianças e adolescentes estabelece-se desde muito cedo. Vários estímulos conduzidos pelos sentidos orquestram o momento da refeição e iniciam a formação do padrão alimentar.

O património genético associado a fatores do ambiente ditam o perfil alimentar global da criança e adolescente. Entre os fatores ambientais atuais mais importantes estão as redes sociais. São poderosos veículos de informação, de troca, de comunicação, de exposição. O seu uso aumentou exponencialmente nos últimos anos, tendo uma relação risco-benefício por vezes difícil de valorizar. Se há benefícios de acessibilidade fácil, comunicação generalizada, troca de informações, há também risco de exposição excessiva, pressão para o perfeccionismo, idealização de imagem.

A beleza desde sempre foi idealizada pelos meios de comunicação social e esses estereótipos são transmitidos aos adolescentes, que absorvem e internalizam os modelos de beleza de forma intensa. A internalização de uma imagem ideal leva a uma comparação com a sua própria imagem o que poderá ativar uma insatisfação com o corpo, insatisfação essa que carrega muitas vezes na tecla do comportamento alimentar passando esse a ser instável.

A alteração do comportamento alimentar instala-se gradualmente e pode passar despercebida no início - saltar refeições, reduzir ingestão de calorias, selecionar rigorosamente alimentos, tudo em enorme secretismo, escondido, em busca da obtenção de um ideal inatingível numa idade crítica, a adolescência. A pressão para integração no grupo, para tirar as selfies perfeitas, alimentam ainda mais este comportamento que caminha para uma alimentação inconstante, irregular, carenciada. O objetivo é obter um like, um comentário positivo, um feedback positivo, nem que para isso se recorra a filtros e photoshop, máscaras para uma insatisfação com a autoimagem.

A insatisfação com a imagem corporal é maior no género feminino. Muitos estudos apontam que 50% das adolescentes estão insatisfeitas com o seu corpo, associando-se a baixa autoestima, sintomas depressivos, sintomas ansiosos e a perturbação alimentar.

A literatura evidencia que as redes sociais são um importante fator no percurso das perturbações alimentares, havendo variáveis que devem ser sublinhadas como particularmente importantes, tais como o tempo consumido no seu uso, a frequência de uso, o número de amigos / seguidores, o grau de envolvimento nas atividades das redes sociais. Estes fatores condicionam um aumento da vigilância do corpo, uma comparação da aparência e maior preocupação com o peso, o que precipita a procura da magreza, de um ideal de corpo, num comportamento pró-dieta que pode tornar-se muito desequilibrado, culminando numa perturbação alimentar.

As perturbações alimentares são um grupo de perturbações com alteração do padrão de comportamento alimentar típico, e das emoções e pensamentos a ele ligados.

As principais perturbações alimentares são a anorexia nervosa, bulimia nervosa, perturbação de ingestão compulsiva. Poderão ter consequências desastrosas e dramáticas. A anorexia nervosa é a perturbação do foro psiquiátrico com maior taxa de mortalidade associada.

A etiologia das perturbações alimentares nasce do diálogo entre os fatores genéticos e os fatores do ambiente, tais como, o uso de redes sociais e os ideais de beleza. O modelo ecológico advoga que o adolescente com o seu perfil individual, em interação com o seu meio envolvente, pode ser alvo de uma perturbação alimentar. Realça-se que as perturbações alimentares não atingem só o género feminino e a adolescência, atingem também o género masculino e idades cada vez mais precoces. A deteção precoce de sinais de alarme é vital para otimizar o prognóstico.

A recomendação mais óbvia seria o evitamento do uso de redes sociais, mas mais importante e realista que isso é o empowerment do self (“eu”) para que as selfies sejam genuínas, fiéis ao real self, sem filtros. A literacia dos media, que consiste em ensinar aos jovens a leitura crítica da mensagem transmitida pelos media, de forma a percecionar e refletir sobre essa informação, é uma arma importante neste contexto.

As selfies deverão ser o espelho do self, com uma boa autoestima e uma noção bem clara de que os ideais de beleza são ideais inatingíveis.
Parafraseando Fernando Pessoa, “Adoramos a perfeição porque não a podemos ter”.

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