A MEMÓRIA É A BIBLIOTECA DOS LIVROS QUE EU ESCREVI PARA MIM

EO 2019 Educação | Fonte: Pin - Centro de Desenvolvimento
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A nossa memória funciona como uma biblioteca dos livros, que escrevemos para nós mesmos, sobre nós ou sobre o mundo.

Tipos de memória

Usando esta analogia, podemos comparar os vários tipos de memória aos vários tipos de livros, consoante os seus conteúdos. Assim teremos:

Álbuns de fotografias e foto-reportagens na nossa memória visual
Manuais de instruções, minuciosamente detalhados na nossa memória de procedimentos (memória implícita e muitas vezes motora, como por exemplo escrever o nosso nome)
Livros autobiográficos e/ou diários na memória (explícita e) episódica
Enciclopédias, dicionários, jornais, manuais escolares, romances, livros de ficção e tantos outros na memória (explícita e) semântica
Para além do tipo de conteúdos de cada memória, os psicólogos gostam de classificar as memórias pela sua duração ou tempo de vida. Todos já teremos ouvido falar em memória de curto para memórias recentes e de memória de longo prazo para coisas aprendidas há muitos anos, mas existem mais:
A memória de trabalho poder-se-ia dizer que é a memória do presente, daquilo que estamos a trabalhar aqui-e-agora. Inclui as checklist e os rascunhos de memórias futuras. Noutra maneira de pensar, estas são as memórias que estão a ser escritas.
A memória de curto prazo propriamente dita é detentora dos nossos mais recentes trabalhos já acabados, as nossas últimas publicações – as novidades! Estas memórias podem ser do tipo notícia, opinião ou até mesmo ficção.
Por último, a memória de longo prazo inclui todas as publicações que fizemos na memória a curto prazo e que já têm lugar numa das estantes da biblioteca.

Nesta linha de ideias, de há quanto tempo aconteceu uma memória, existe ainda uma memória chamada de memória prospetiva. A memória prospetiva está no futuro, ainda não aconteceu. É a memória do que tenho para fazer; é como se fosse a nossa agenda para as próximas horas.
Onde estão guardadas as nossas memórias no cérebro?

Embora se saiba que as memórias explícitas estão mais no córtex cerebral e as memórias implícitas em regiões profundas do cérebro, gosto mais de pensar na memória em termos de processo cognitivo. O processo cognitivo da memória é também chamado de processo mnésico ou processo mnéstico e tem três etapas: codificação, armazenamento e recuperação. Os psicólogos cognitivos chamam a este processo de aprendizagem.

  • A CODIFICAÇÃO recruta sobretudo as áreas mais posteriores do cérebro (parte de trás)
  • O ARMAZENAMENTO recruta as regiões  cerebrais hipocâmpicas e parahipocâmpicas
  • A RECUPERAÇÃO recruta sobretudo as áreas mais anteriores do cérebro (parte da frente)

As etapas de formação de novas memórias: A aprendizagem

A aprendizagem é o processo de codificação e arquivo de novas memórias. Corresponde ao processo de criação do livro, a sua escrita. Esta formação de novas memórias será tanto melhor quanto melhor for o processo de codificação.

É também nesta etapa de codificação que vamos associar memórias diferentes e decidimos como vamos categorizar as ideias, é como quem diz: é aqui que decidimos como vamos arrumar as prateleiras. Há quem arrume por cores, por autores, por temas... Há várias maneiras de categorizar os livros. Todas elas boas, mas por vezes umas mais adequadas que outras, dependendo para que é que os livros vão ser usados.

Nas bibliotecas, os livros costumam estar numerados por tema e por número. É a partir deste código que sabemos em que corredor e estante podemos encontrar o livro. Ora estes rótulos dos livros chamam-se no caso das memórias de pistas mnésicas ou pistas mnésticas e correspondem aos detalhes a partir dos quais temos acesso à memória completa.

Acesso às memórias – Lembrar e esquecer
Ao acesso à memória chamamos de recuperação mnésica ou mnéstica e existem três modos de recuperação mnésica, progressivamente mais fáceis:

Evocação livre ou recordação é quando nos lembramos espontaneamente de alguma coisa. Esta é a forma mais difícil de recuperação mnésica.
Recordação (ou evocação) com pista é quando com a ajuda de uma pista nos recordamos da restante memória; como numa adivinha: “Branco é, galinha o põe”, com a pista da galinha e do branco, chegamos ao “ovo”. É o detalhe ou o conjunto de detalhes que nos ajuda a recordar a informação completa.
Reconhecimento é a escolha múltipla, a opção forçada entre várias opções. Por exemplo: “De que cor é o sol? Amarelo ou Azul?”. Esta é a forma mais fácil de recordar, porque quase não precisamos lembrar; as memórias são-nos dadas, o que precisamos mesmo é de escolher entre as alternativas.
E porque não é possível falar de lembrar sem falar no esquecer, a última ideia que vos quero falar deste processo mnésico é o esquecimento. O esquecimento pode ser de dois tipos:
O declínio do traço mnésico acontece quando por falta de uso, uma memória vai ficando cada vez mais inacessível. É como se o rótulo que pusemos na lombada do livro e/ou todo o seu interior fossem perdendo as cores; até ao ponto que já não ser possível ler o que está lá. É o esbater, o apagar das memórias.
Além disso, o esquecimento acontece muitas vezes por interferência. É como se tivéssemos escrito dois livros e já não nos lembramos de um deles porque são demasiado semelhantes ou porque as duas histórias se misturam. Lemos duas histórias e não conseguimos lembrar-nos de uma, porque a outra salta mais à ideia. Quando o livro mais antigo tem a história mais viva que não nos deixa lembrar do mais recente, falamos em interferência pró-ativa; quando é o inverso chamamos em interferência retroativa.

O que fazer para melhorar a memória? – Uma mão cheia de dicas
Se melhorarmos a etapa de codificação da memória, estaremos a melhorar o acesso às memórias, depois de formadas e arquivadas.

1. Tal como diminuir o ruído de fundo ajuda a ouvir melhor e aumentar a iluminação ajuda a ver melhor, se estivermos a tentar reproduzir uma imagem ou encadear um texto temos de otimizar as nossas capacidades de atenção (concentração) e perceção (visual e auditiva).
2. É sempre mais fácil memorizar o que se compreende. A mera reprodução, como papagaio de imitação, é como escrever na areia. Se nos distraímos e não estamos sempre a retocar, vai-se esbater e perder com o tempo ou com a onda do mar. Assim, quando queremos lembrar alguma coisa ajuda muito parafrasear, isto é, pôr nas nossas próprias palavras.
3. Não e por acaso que os livros dos bebés são tão apelativos. É mais fácil lembrar uma memória, quando essa memória tem muitas pistas mnésicas associadas. Por isso, quando estamos a formar uma memória é bom juntar ao texto, imagens e sons e, se possível, juntar ainda texturas e cheiros. Os psicólogos dizem que nestes casos estamos a fazer uma codificação multimodal, isto é, uma codificação que envolve vários dos sentidos (i.e., visão, audição, tato, olfato ou paladar).
4. O contexto ajuda lembrar. Criar histórias, relacionar personagens, descrever acontecimentos, reproduzir diálogos... Elaborar para mais tarde recordar. Quanto mais elaboramos, mais pistas deixamos na memória.
5. Por último, levar a elaboração aos limites da emoção, humor e/ou bizarria.  Uma boa anedota, um grande drama ou algo totalmente inesperado, terá sempre boa probabilidade de ser recordado.

Artigo desenvolvido por:

Marta A. Gonçalves-Montera , Neuropsicóloga