A HIPERMEDICAÇÃO DA HIPERATIVIDADE

EO 2017 Psicologia | Fonte: Clínica Ispa
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"Eu não faço porque tenho medo de coisas difíceis", disse uma vez, em consulta, um menino de 8 anos, a propósito das suas dificuldades escolares.

Hiperativo, medicado, com problemas ao nível do desempenho académico.

Imagine-se uma criança que nunca para. Desde que acorda de manhã até que se deita à noite, vive em constante aceleração, a correr de um lado para o outro, a saltitar de projeto em projeto, de brincadeira em brincadeira, incapaz de se focar no que quer que seja o tempo suficiente para o finalizar com sucesso.

Pelo caminho, como tem dificuldade em esperar e em ouvir/pôr-se no lugar do outro, envolve-se em múltiplos conflitos com as outras crianças, as quais a certa altura deixam de querer brincar com ele.

Porque ele não quer esperar pela sua vez, não cumpre as regras das brincadeiras, quer tudo à sua maneira e muitas vezes resolve os problemas a bater, dizem os outros, aborrecidos.

Com os adultos, as coisas não são mais fáceis, sobretudo na escola. Estar sentado várias horas seguidas, a aprender de modo passivo, é uma tarefa quase impossível. As atividades que exigem muito tempo ou concentração, como ler, escrever ou resolver problemas matemáticos, são igualmente um pesadelo. No fundo, o dia-a-dia é uma sequência de zangas, frustrações e fracassos de que parece impossível fugir.

Esta é uma descrição comum à maioria das crianças diagnosticadas com hiperatividade. No entanto, por detrás de cada uma delas e do seu comportamento está uma história que é só sua. Estão famílias, escolas, vivências e experiências muito distintas. O comportamento tem que ser visto, compreendido e analisado à luz do que cada criança é e enquadrado na sua própria história. Só assim se podem fazer intervenções adequadas e bem-sucedidas e que cumpram o seu propósito primordial: melhorar as competências e os recursos da criança e aumentar a sua qualidade de vida.

Vem tudo isto a propósito do número cada vez mais elevado de crianças diagnosticadas com hiperatividade e para as quais a única resposta clínica disponibilizada é a medicação. Muitas vezes, este diagnóstico é feito em consultas únicas de menos de cinquenta minutos e quase totalmente baseado em relatórios da escola e nos relatos dos pais. De referir que tanto a perspetiva da escola como a dos pais é crucial para um diagnóstico deste tipo mas não podem ser as únicas fontes de informação. Observar a criança, ouvi-la, compreender as suas angústias, medos e ansiedades, tentar perceber de onde vem a sua necessidade tão premente de estar em constante movimento, é absolutamente fundamental.

Ao mesmo tempo, medicar resolve, na maior parte das vezes, o problema dos adultos. A criança fica mais calma, mais quieta, aprende melhor, litiga menos com o mundo, pelo menos enquanto dura o efeito do comprimido. No entanto, medicar raramente resolve o problema da criança. Pode deixá-la mais calma e focada, o que torna o quotidiano mais fácil, mas as ansiedades, os medos e as angústias de base, ou derivadas da sua própria condição, continuam lá, a menos que haja uma intervenção adequada nesse sentido. As dificuldades de autocontrolo, organização, adequação social e resistência à frustração, muito comuns em crianças com estas características, também precisam de ser trabalhadas e não vão certamente ser resolvidas através de um comprimido. Controlar/ apagar sintomas através de medicação, sem qualquer outra intervenção de promoção de competências e de recursos da criança, não só é uma resposta pobre para os seus problemas como pode ser até perigoso para o seu futuro.

Sendo assim, é urgente encontrar respostas de maior qualidade para estas crianças, que passam necessariamente por uma boa articulação entre valências (família, escola e técnicos devem estar em sintonia) e por intervenções psicológicas e psicopedagógicas assentes na criança e nas suas dificuldades e realidades, construídas em interação com esta e que lhes permitam efetivamente superar as suas fragilidades e não apenas apagar os seus sintomas.

Medicar até pode ser necessário em alguns casos mas sempre de forma complementada com outra intervenção. Mas deve ser a última resposta clínica, utilizada de forma muito criteriosa e com parcimónia, e de preferência por períodos de tempo não muito longos. Ou seja, o contrário do que geralmente acontece.

Cabe-nos a todos tentar mudar essa realidade.

Conteúdo desenvolvido por,
Sandra Farropas
Psicóloga da Clínica ISPA.