SOMOS TODOS VOLUNTÁRIOS?

EO 2018 Partilhas por Catarina Furtado
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Não é voluntário quem quer. É voluntário quem pode. Quem, sem hesitar, faz aos outros aquilo que gostaria que fizessem a si próprio.

Comecei a fazer voluntariado sem saber ainda o significado da palavra. Tinha 9 anos e pedi à minha mãe para ajudar a tomar conta das crianças e dos jovens da Crinabel (a cooperativa de ensino especial onde a minha mãe era professora) nas suas idas à praia durante as férias de Verão.

Nesses dias inesquecíveis, as minhas funções eram bem simples e consistiam em pôr creme solar aos alunos, acompanhá-los ao mar e dar-lhes fruta a meio da manhã. Foi uma experiencia incrível. Reveladora, também. Através desse trabalho voluntário, comecei a reparar nos entraves que existem ao genuíno respeito pelo outro, e pela diferença do outro, bem como ao florescimento da empatia dentro de cada um de nós.

Estou absolutamente convencida de que estabelecer empatia é mesmo uma opção: querer estar atento aos outros – ou não querer; querer lutar contra os preconceitos, as discriminações, o sexismo, a homofobia – ou não querer. É uma opção, sim. Mas também acredito que, dado o estado atual do mundo (com Trump, Bolsonaro, Orban, Erdogan, Putin, Kim Jon-Um ou Duterte), em que a despromoção dos direitos humanos ganha forma – talvez por desespero, talvez, mas em que o ódio e a desconfiança vêm certamente à tona – é preciso transmitir os valores da solidariedade aos mais novos desde muito cedo. Trata-se de uma medida de prevenção urgente. Penso no meu próprio exemplo. Para mim, foi decisivo perceber em criança que, por exemplo, não se é pobre; está-se pobre.

A partir daí, o voluntariado deixou de ser uma experiência na minha vida. O voluntariado não pode ser uma mera experiência. O voluntariado é um compromisso muito sério, a que eu não posso faltar nem falhar, tal como tento que aconteça na minha profissão de comunicadora, e seja através do trabalho com o Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA), seja com a associação Corações Com Coroa.

Na CCC, promovemos cursos de voluntariado gratuitos, muito completos, em que os formandos chegam sempre à mesma conclusão quando os terminam: “Não sabia que o voluntariado era isto”.

Não é voluntário quem quer. É voluntário quem pode. Quem, sem hesitar, faz aos outros o que gostaria que fizessem a si próprio. Se tiver interesse neste assunto, deixo-lhe duas sugestões: vá ao site coracoescomcoroa.org e leia «O que vejo e não esqueço» (A Esfera dos Livros), o livro em que partilho o meu envolvimento e a minha evolução na defesa dos direitos humanos desde a infância até aos dias de hoje.

Catarina Furtado