A VOZ DAS CRIANÇAS

EO 2019 Partilhas por Catarina Furtado
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Nas crianças de hoje coabitam a ingenuidade e a definição de sucesso, a qual já lhes pesa, por força da sociedade atual e das redes sociais, onde há uma permanente comparação com os outros.

Chego a casa cansada, mas muito feliz. Voltar a trabalhar com crianças é um prazer e um regresso a uma liberdade que faz bem à saúde. Todos os sábados na RTP, às 21h, apresento Aqui Mandam as Crianças. É um programa pensado por mim, pela RTP e pela Endemol, para o qual fiz questão naquele título.

Pode pensar-se que, em televisão, tudo é manipulado, mas neste programa as crianças perguntam mesmo o que bem lhes apetece e sentem o estúdio como delas. Tenho aprendido muito sobre estas “novas” crianças. Há mais de 20 anos que apresento programas em que os protagonistas têm entre 4 e 10 anos, mas há diferenças substanciais. A inocência, ingenuidade e capacidade de sonhar mantêm-se, mas hoje existe uma consciência muito presente do mundo das câmaras que, necessariamente, deixa os miúdos mais desconfiados e desafiadores. Uma criança que há 20 anos se deixava levar num “apanhado” inofensivo que eu lhe preparava, hoje tem uma visão de 180 graus que lhe permite desmontar o enredo.

Os sonhos também se transformaram. Ser um youtuber famoso e uma pessoa rica estão entre os mais populares. No primeiro programa, o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa foi entrevistado e mostrou-se espantado com a estratégia de uma das crianças para um futuro endinheirado – queria ser geóloga por causa das pedras preciosas… Ou seja, nestas crianças, coabitam a ingenuidade e a definição de sucesso, a qual já lhes pesa, por força da sociedade atual e das redes sociais, onde há uma permanente comparação com os outros.

Há tempos, vi um vídeo em que crianças de Espanha e do Uganda falam dos seus desejos. As espanholas sonham ser ricas, conhecer famosos, acabar com o bullying e ter super-poderes. Já as ugandesas sonham ter mais comida, vestir roupa nova, viver numa casa decente, ir à escola, ser professores/as, conduzir um carro ou um barco e... ser ricas. No final das entrevistas, mostraram às crianças espanholas os sonhos das crianças do Uganda e o discurso das primeiras mudou: desejavam ver realizados os sonhos das crianças ugandesas.

É tudo, ou quase tudo, uma questão de educação e de promoção da empatia – sabia que, na Dinamarca, esta já é uma disciplina curricular?

Estou muito feliz por dar tempo de antena às opiniões das crianças. Sou toda ouvidos!

Catarina Furtado